Sem vencer uma top 50 em oito meses, e sem técnico: Bia Haddad vive a fase mais difícil de uma carreira histórica
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Beatriz Haddad Maia foi eliminada nesta terça-feira na estreia do WTA 1000 de Miami. Perdeu para a turca Zeynep Sonmez, 83ª do mundo, por 6/3 e 6/2, em 1h25. Foi a décima sexta derrota em 24 partidas desde a vitória na estreia de Wimbledon, em 30 de junho passado. Das oito vezes que venceu nesse período, apenas uma foi contra adversária dentro do top 50 — a própria estreia na gramada sagrada do All England Club, sobre a eslovaca Rebecca Sramkova, então 34ª do mundo.
As sete vitórias seguintes foram todas fora do top 50. A única "vitória" neste ano de 2026 foi num qualifying de Doha, contra Mubaraka Al-Naimi, catariana sem ranking que cedeu um duplo 6/0 em menos de uma hora de duelo. Não houve quebra de sequência: houve apenas uma pausa estatística antes da derrota seguinte.
Esses são os fatos. Os números que os cercam ajudam a entender a dimensão do momento que a maior tenista da história recente do Brasil enfrenta.
Quem é Bia Haddad — para ter referência do que está em jogo
Beatriz Haddad Maia é a primeira brasileira a entrar no top 10 do ranking WTA na Era Aberta. Chegou lá duas vezes: em junho de 2023 e em outubro de 2024. Nesse ínterim, disputou a semifinal de Roland Garros, as quartas do US Open, venceu quatro títulos de simples no circuito, incluindo o WTA 500 de Seul, e ficou três anos seguidos dentro do top 50 mundial, de maio de 2022 até outubro de 2025. Foi top 10 mundo em duplas também.
Tem 12 troféus do primeiro escalão entre simples e pares. E vitórias fantásticas sobre Swiatek, Rybakina, Jabeur, Sakkari. Chegou a um Australian Open como cabeça de chave número 15.
Tudo isso importa para entender o peso do que os números de agora significam.
A trajetória do ranking
Outubro de 2024: 10ª do mundo.
Setembro de 2025, ao entrar em Seul: 25ª. Após perder nas oitavas e não defender o título conquistado em 2024: 40ª.
Outubro de 2025, ao encerrar a temporada antecipadamente: 60ª — pior posição desde outubro de 2021, antes de toda a sua escalada ao topo.
Hoje, 17 de março de 2026: 69ª.
Em 17 meses, 59 posições perdidas. Sem nenhuma vitória em chave principal que conte.
A série desde Wimbledon: 24 partidas, 33% de aproveitamento
Para entender a dimensão real da fase, é preciso recuar além dos últimos meses. Desde a vitória na primeira rodada de Wimbledon, em 30 de junho de 2025, Bia disputou 24 partidas e venceu 8. Aproveitamento de 33%. Mas o que importa não é apenas o número: é a qualidade do que está dentro dele.
Das oito vitórias, apenas uma foi contra adversária dentro do top 50: a estreia de Wimbledon, sobre Sramkova, então 34ª. As três vitórias seguintes — Kartal (51ª), Golubic (72ª) e Sakkari (64ª) — vieram todas no mesmo torneio, o US Open de agosto, numa janela de seis dias em que Bia estava na melhor forma desse ciclo inteiro. Fora desse parêntese de Nova York, o quadro é mais severo: venceu apenas Miriana Tona (fora do top 200 no SP Open), Laura Pigossi (105ª), Back Da-yeon (306ª em Seul) e Mubaraka Al-Naimi (sem ranking, no qualifying de Doha, por duplo 6/0).
Desde Wimbledon, há mais de oito meses, Bia não volta a vencer uma adversária dentro do top 50. A última vez que derrubou alguém dentro do top 20 foi há mais de um ano e meio: a final do WTA 500 de Seul 2024, em 22 de setembro, sobre Daria Kasatkina, então 13ª do mundo. Essa é a régua real do momento.
A série de 2026, partida a partida
A última vitória que importa foi em 15 de setembro de 2025, primeira rodada do WTA 500 de Seul. Bia venceu Back Da-yeon, sul-coreana de 306 no mundo, após precisar de atendimento médico em quadra por dificuldades respiratórias. Dois dias depois, caiu nas oitavas para a alemã Ella Seidel, 105ª, num jogo de 3h28 em que chegou a 5/2 e teve um match point no segundo set antes de sofrer a virada.
Encerrou a temporada em setembro para cuidar da saúde física e mental. Voltou em janeiro de 2026.
Desde então, dez partidas em chaves principais, uma "vitória":
— Adelaide, estreia: derrota para Victoria Mboko, 17ª do mundo.
— Australian Open, estreia: derrota para Yulia Putintseva, então 40ª.
— Abu Dhabi, estreia: derrota para Dayana Yastremska, 43ª.
— Doha, qualifying rodada 1: vitória sobre Mubaraka Al-Naimi, sem ranking. Um resultado que não significou nada.
— Doha, qualifying rodada 2: derrota para Anastasia Zakharova, 107ª.
— Doha, chave principal como lucky loser: derrota para Janice Tjen, 47ª. Bia venceu exatamente um game em toda a partida.
— Mérida, estreia: derrota para Katie Boulter, 75ª.
— Indian Wells, estreia: derrota para Jessica Bouzas Maneiro, 50ª.
— Austin, WTA 125 — o nível mais baixo em que competia desde 2022, torneio em que entrou como quarta cabeça de chave: derrota para Linda Fruhvirtova, 121ª.
— Miami, estreia: derrota para Zeynep Sonmez, 83ª.
O que os números de Miami reafirmam
Na partida desta terça, Bia cometeu sete duplas faltas e venceu apenas cinco dos 22 pontos disputados com o segundo serviço. Aproveitamento de 23%. Sonmez converteu 7 de 14 break points. Bia converteu 3. Os winners ficaram próximos: 17 a 15 para a turca. Os erros não forçados: 19 a 22. Uma diferença pequena em absoluto, mas que, somada às duplas faltas e à ineficiência no saque, decidiu tudo.
O começo havia sido promissor. Bia abriu 2/0 com uma quebra e confirmou os primeiros games. Não confirmou mais nenhum serviço no set, perdeu o primeiro por 3/6, e no segundo viu Sonmez abrir 5/0 antes de uma reação tardia que reduziu para 5/2. O placar não voltou mais.
Um dado de contexto que aprofunda o quadro
Em 2025, Bia já havia acumulado uma série de nove derrotas seguidas entre fevereiro e maio. Ela se recuperou, teve bons resultados no US Open e em Seul, e então encerrou o ano cedo. A sequência desta temporada é a segunda série longa de derrotas em menos de um ano. E agora acontece num patamar mais baixo de ranking, sem técnico fixo e sem o pulmão de pontos que ela tinha antes.
Miami, um ano atrás: a mesma quadra, as mesmas perguntas
Há exatamente um ano, depois de perder para a tcheca Linda Fruhvirtova na estreia deste mesmo torneio, Bia concedeu uma entrevista exclusiva à ESPN Brasil que soa hoje como uma cápsula do tempo. Ela estava, então, com nove derrotas em onze jogos e era a 18ª do mundo.
"Eu venho treinando e jogando com várias top 30, mas é uma questão minha mesmo, de emoção e uma questão pessoal. Não tenho nada para dar como desculpa e não tô culpando ninguém", disse à ESPN Brasil em março de 2025. E acrescentou algo que a posicionava com uma clareza rara para qualquer atleta de alto rendimento: "Não é exterior isso. Eu poderia estar me escondendo, ficando fora do circuito, mas estou me enfrentando e me expondo. Estou aí, com coragem."
Um ano depois, de volta a Miami, a série ficou ainda mais longa. O ranking caiu mais 51 posições. As perguntas são as mesmas. As respostas, ela ainda está buscando.
Sem técnico, navegando sozinha
Em fevereiro, Bia encerrou a parceria de seis anos com Rafael Piciaroni. O treinador que a levou ao top 10, à semifinal de Roland Garros, às quartas do US Open. Desde então, está sem técnico fixo.
Fernando Meligeni, um dos maiores nomes do tênis brasileiro e que acompanha de perto a carreira de Bia, já havia sinalizado o padrão antes mesmo da saída de Piciaroni: "Voltou a sentir os medos na hora de sacar. Jogou o tempo inteiro à mercê da adversária. Fiquei muito preocupado de novo", disse no New Balls Please em fevereiro deste ano, após a derrota em Abu Dhabi.
Uma série sem precedente no tênis nacional
Para dimensionar, vale a comparação. Thiago Monteiro teve, em 2025, uma sequência de oito derrotas consecutivas. Mas Monteiro operava como 152º do mundo, em nível de Challenger, e encerrou a série com uma vitória no qualifying de um ATP 250 sobre um adversário de 301 no ranking.
Thomaz Bellucci, o segundo maior ranking da história do tênis brasileiro masculino (21º em 2010), teve o declínio mais longo — anos de erosão alimentados por lesões físicas sérias, culminando numa carreira que encerrou em 2023 no posto 915.
Teliana Pereira, ex-43ª do mundo, caiu mais de 150 posições em 2016 num único ano, impulsionada por lesão no cotovelo. Mas Teliana carregava uma causa física concreta, admitia perda de motivação, e se aposentou quatro anos depois.
Bia tem 29 anos. Não tem lesão declarada. Quer jogar. E chegou ao top 10 da Era Aberta em simples, patamar que nenhum brasileiro ou brasileira jamais alcançou no tênis feminino moderno. A altitude da queda não tem paralelo.
O que vem a seguir
O WTA 500 de Charleston começa em 28 de março. Bia tem vaga direta. É o início da gira de saibro, superfície em que historicamente rende mais, e onde, em 2023, chegou a encadear seis vitórias consecutivas contra as dez melhores do mundo. Em abril, defende o Brasil no Zonal Americano I da Billie Jean King Cup. Depois vem a Europa: Roland Garros, onde ela chegou a uma semifinal histórica.
Na mesma entrevista de março de 2025, em Miami, Bia deixou registrado um pensamento que ressoa diferente agora. "Agora é o momento de aprender e ter postura, de seguir caminhando e sabendo que o tênis é uma maratona, não é um tiro de 100 metros. Eu vou buscar soluções para melhorar", afirmou à ESPN Brasil.
Essa solução ainda não chegou. Charleston começa em onze dias.
Bia Haddad Maia permanece inscrita na chave de duplas do Miami Open ao lado de Laura Siegemund. O torneio segue até 29 de março.
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