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Um domingo portenho: Argentina tem três finalistas em ATP e dez no top 100

  • 4 de abr.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 5 de abr.

O tênis argentino continua a demonstrar sua força coletiva. Marco Trungelliti disputa sua primeira final de ATP em Marrakech, Román Burruchaga faz o mesmo em Houston: são as duas primeiras decisões deste nível das carreiras de ambos. Mariano Navone também vai à final, em Bucareste, depois de salvar dois match-points na semi. São três argentinos decidindo os três torneios ATP da semana. E, de bônus, ao mesmo tempo, Facundo Díaz Acosta briga pelo título no Challenger de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.


Poderiam ser cinco hermanos finalistas neste domingo, mas Camilo Ugo Carabelli caiu na outra semifinal marroquina. Já Thiago Tirante deu adeus ao troféu no saibro norte-americano no último confronto, diante de Burruchaga, antes da grande decisão. Seis argentinos em posições de destaque no mesmo fim de semana, em quatro torneios diferentes, em quatro continentes. E, a partir desta segunda-feira, o país terá dez representantes no top 100 do ranking ATP pela primeira vez desde 2007.


É exagero chamar de fim de semana histórico para a Argentina? Nos parece que não.


Trungelliti: o mais velho de todos. Carabelli fica entre os 4 melhores

Jogador de tênis em quadra de saibro, segurando raquete, usando boné e roupa escura com padrões. Fundo vermelho com logos visíveis.
Marco Trungelliti (Foto: Grand Prix Hassan II)

O destaque maior vem de Marrakech, onde Marco Trungelliti escreveu um dos capítulos mais improváveis da temporada. O veterano argentino, natural de Santiago del Estero, entrou no Grand Prix Hassan II pelo qualifying, venceu seis partidas seguidas e chegou à final do ATP 250 sobre saibro marroquino. Pelo caminho, eliminou o polonês Kamil Majchrzak, o francês Corentin Moutet e o italiano Luciano Darderi, campeão defensor e primeiro cabeça de chave.


Ao garantir a vaga na final, Trungelliti se tornou, aos 36 anos e 64 dias, o tenista mais velho a disputar pela primeira vez uma final de ATP Tour na Era Aberta, superando o dominicano Víctor Estrella Burgos (34 anos e 190 dias, em Quito 2015) e o tunisiano Malek Jaziri (34 anos e 106 dias, em Istambul 2018). A campanha também o colocou no top 100 pela primeira vez na carreira. No ranking em tempo real, figura na 76ª posição, subindo do 117º em que começou a semana.


"Claro que eu acreditava nisso, essa é uma das razões pelas quais estou aqui, caso contrário não seria possível. Também trabalhei muito. Eu, minha equipe, minha esposa, meu filho, todos nós acreditávamos em quebrar o recorde e foi exatamente isso que fizemos agora", disse Trungelliti em entrevista na quadra após a vitória sobre Darderi por por 6/4 e 7/6(2).


A campanha garantiu ainda entrada direta no main draw de Roland Garros. Nos 43 qualifyings de Grand Slam que disputou ao longo da carreira, passou em nove. Agora, pela primeira vez, não vai precisar chegar mais cedo nem torcer para que oito jogadores desistam (história fantástica que contamos nesta matéria).


Há um detalhe no jogo de Trungelliti que passou despercebido por anos e viralizou neste sábado: ele joga sem overgrip, segurando a raquete direto no couro original. Nenhuma camada extra, nenhuma proteção moderna. John Isner, ao ver as imagens da final, escreveu no X: "Talvez a melhor parte de tudo isso seja que ele parece jogar sem fita sobre o grip de couro." Brad Gilbert completou no mesmo debate: "Old school: sem overgrip, joga direto no couro. Tem que ter mãos duras." Tenista nas horas vagas, o usuário Val Sopi revelou ter tentado o mesmo por um mês e inflamado o tendão lateral. Trungelliti faz isso a carreira inteira.



Ele carrega também estampado na camiseta de treino uma frase tirada da série argentina El Eternauta: "lo viejo funciona". Na tradução para o português, "O velho funciona". Ou, com sentido mais amplo, "as coisas velhas funcionam". A expressão, dita pelo personagem Favalli a Juan Salvo, tornou-se viral por destacar a durabilidade, confiabilidade e a qualidade dos objetos antigos em comparação aos descartáveis modernos. É lema, é manifesto, é autobiografia comprimida em três palavras.


O apelido é Café, registrado assim no perfil oficial da ATP, onde lista a paixão pela bebida como traço pessoal marcante. A ironia não passou despercebida: o momento mais grave de sua carreira fora das quadras, a reunião em que recusou entrar num esquema de manipulação de resultados, aconteceu numa cafeteria em Buenos Aires. O apelido era antigo. O simbolismo ficou.


Porque essa história também existe. Em 2015, foi convidado para uma reunião apresentada como oportunidade de patrocínio. Dois homens detalharam um esquema de manipulação de resultados no tênis argentino, com valores que chegavam a 100 mil dólares por partida em nível ATP. Ele recusou. E denunciou à Tennis Integrity Unit. A investigação resultou nas suspensões de Nicolás Kicker, Patricio Heras e Federico Coria. O custo foi alto: passou a ser chamado de delator nos vestiários, sentiu-se ostracizado e se mudou com a família para Andorra. "Não me arrependo de nada. Foi muito claro para mim. Eu sabia o que tinha que fazer desde o início", declarou em entrevistas posteriores.


Na final deste domingo, o adversário é o espanhol Rafael Jodar, de apenas 19 anos, que eliminou Ugo Carabelli na semifinal.


Camilo Ugo Carabelli foi às semis em Marrakech, mas de forma dramática. O porteño de 26 anos derrotou o francês Luca Van Assche por 0/6, 6/3 e 6/2, em 2h20, após ceder o primeiro set em apenas 36 minutos sem vencer um único game. A remontada o colocou pela quinta vez na carreira entre os quatro melhores de um ATP. Na semifinal, não conseguiu superar Jodar e ficou fora da final.


Houston: Burruchaga na final, Tirante na semi

Do outro lado do Atlântico, Houston também virou território argentino. Román Burruchaga derrotou seu compatriota Thiago Tirante por duplo 6/1 e garantiu vaga na primeira final de ATP de sua carreira. Na decisão deste domingo, enfrenta o americano Tommy Paul, que bateu o compatriota Frances Tiafoe em três sets, com 9-7 no tie-break derradeiro.


Tenista em ação, vestindo roupa marrom, segurando raquete vermelha. Fundo escuro com logotipos. Expressão focada e intensa.
Román Burruchaga (Foto: U.S. Men's Clay Court Championship)

Burruchaga, filho do campeão mundial Jorge Burruchaga em 1986, tem 24 anos e uma semana construída sobre vitórias de peso. Eliminou o australiano Adam Walton, o americano Brandon Nakashima e o cabeça de chave 3 Learner Tien antes de bater Tirante. Com a campanha, sobe virtualmente ao 66º lugar no ranking, podendo alcançar o 57º em caso de título.


“Somos amigos muito próximos, então nunca é fácil. Foi uma partida muito difícil, então estou feliz”, disse Burruchaga após os apenas 61 minutos de partida. Ele manteve a invencibilidade contra Tirante, vencendo o compatriota pela primeira vez em um torneio ATP, mas pela quarta vez no geral.


Mesmo eliminado, Tirante chegou às semis da forma que mais chamou atenção na semana. O platense de 24 anos derrubou Ben Shelton, número 9 do mundo e campeão defensor, por 6/7(5), 6/3 e 6/4, sem ceder o serviço em nenhum momento do jogo. Foi sua segunda vitória na carreira sobre um top 10. "Estou muito feliz com o trabalho que viemos fazendo com a equipe", disse à ATP após o triunfo. Saiu de Houston como número 72 do ranking, o melhor de sua trajetória.


Bucareste: Navone salva dois match-points e vai à final


Em Bucareste, Mariano Navone protagonizou a batalha mais dramática do fim de semana argentino. O sul-americano precisou de 3h32 para superar o holandês Botic van de Zandschulp por 5/7, 7/6(3) e 7/5 e garantir vaga em sua terceira final de ATP. No segundo set, salvou um match-point no saque do adversário, em 3/5, e outro em seu próprio saque, com 4/5. No terceiro, recuperou desvantagem de um break para fechar.


"Houve muitos altos e baixos. Tive que salvar dois match-points, mas continuei lutando. Botic é um grande jogador e a batalha foi muito física no terceiro set. Nunca se sabe o que vai acontecer, mas é muito especial estar de volta à final", disse Navone.


Na decisão deste domingo, o adversário será o espanhol Daniel Merida, de 21 anos, que venceu o húngaro Fabian Marozsan vindo do qualifying. Vice-campeão em Bucareste em 2024 e também vice no Rio Open do mesmo ano, Navone tenta se tornar o quarto argentino a conquistar o torneio romeno, seguindo os passos de Franco Davin (1994), José Acasuso (2004) e Juan Ignacio Chela (2010).


BÔNUS - São Leopoldo: Díaz Acosta busca o sétimo

Três finalistas em torneios ATP e outro em nível Challenger. No de São Leopoldo, Facundo Díaz Acosta chegou à sua 11ª final no circuito, segunda no ano, após vencer o brasileiro Paulo Saraiva Dos Santos por 6/3 e 6/1. Apesar da derrota, o brasiliense de 25 anos fez uma campanha digna de aplausos no Sul.


O argentino briga pelo sétimo título e pelo retorno ao top 200, onde figura em 193º no ranking em tempo real.


Dez no top 100: a nova Legião

A campanha de Trungelliti em Marrakech teve um efeito que vai além do individual. Com seu ingresso ao top 100, a Argentina passará a ter dez representantes no ranking a partir desta segunda-feira: Francisco Cerúndolo, Tomás Etcheverry, Sebastián Báez, Camilo Ugo Carabelli, Juan Manuel Cerúndolo, Thiago Tirante, Mariano Navone, Francisco Comesaña, Román Burruchaga e o próprio Trungelliti.


A última vez que isso aconteceu foi em 2007, quando 14 argentinos encerraram a temporada dentro do top 100, no auge da chamada Legión. Nomes como Cañas, Nalbandian, Chela e del Potro compunham aquele grupo. O que diferencia esta geração da anterior é a base: não há uma superestrela isolada puxando os demais. Há profundidade.


Cerúndolo lidera em torno da 20ª posição, Etcheverry perto do 31º, Báez em torno do 52º. E, nas camadas seguintes, jovens de 24 anos chegando a primeiras finais de ATP e um homem de 36 que entrou pelo qualifying, joga com grip de couro e terminou a semana quebrando recordes históricos.


Dez no top 100. Três finais num domingo. O tênis argentino está de volta, e desta vez não veio de superestrelas isoladas. Veio de cancha.

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