US Open lucra com casa de apostas enquanto jogadores denunciam apostadores que os perturbam
Nas arquibancadas do tênis mundial, uma nova espécie de torcedor tem se infiltrado nas quadras menores: o apostador que não foi lá para ver o jogo, mas para atrapalhá-lo. Uma investigação do jornal britânico The Guardian, publicada durante o US Open 2026, reuniu relatos de tenistas que descrevem um padrão cada vez mais comum: gente que aposta contra um jogador e senta perto da quadra só para minar o adversário psicologicamente.
O caso mais detalhado é do tcheco Jiri Lehecka. Na primeira semana do US Open, ele enfrentou um homem sentado logo atrás do seu banco, na quadra 4, que falou sem parar durante três sets: "você está cansado", "ele é melhor que você", "você vai perder".

Lehecka terminou vencendo a partida, mas não teve dúvida sobre a motivação do espectador. Foi até o árbitro de cadeira perguntar se aquilo era normal e se algo podia ser feito. A resposta: nada, a menos que o homem cruzasse a linha do xingamento. "Era uma pessoa que sabia exatamente o limite do que dizer", disse o tenista ao jornal.
Lehecka não está sozinho, nem o fenômeno se restringe aos Estados Unidos. Segundo o próprio tcheco, o comportamento se repete em muitos torneios, especialmente na Europa.
O italiano Lorenzo Musetti confirma: no Masters de Roma, tornou-se comum ver gente tentando entrar na cabeça dos jogadores a partir das arquibancadas do estádio Pietrangeli. Para Musetti, a responsabilidade não é dos tenistas, e sim dos organismos do circuito, já que em quadra "não há muito o que fazer".
Aceitar ou resistir: opiniões divididas
Diante da falta de resposta institucional, os jogadores se dividem entre aceitar o problema e desafiá-lo abertamente. O tcheco Jakub Mensik trata o assédio como fardo inevitável da profissão: "já virou parte de todos nós (...) infelizmente vamos ter que nos virar com isso. Não há outra maneira". O americano Tommy Paul pensa parecido, tratando o incômodo como parte do que assinou ao virar profissional.
Já a americana Coco Gauff prefere o discurso do desafio. Questionada sobre um torcedor barulhento numa partida recente, respondeu: "se eles quiserem, podem tentar e ver se conseguem me abalar, mas não vai funcionar". Frances Tiafoe, por sua vez, garantiu nunca ter passado por isso, mas admitiu que, se acontecesse, "seria manchete".
Sem regra para deter o problema
O ponto que une praticamente todos os relatos é a ausência de qualquer regra específica no ATP, na WTA ou nos regulamentos de Grand Slam para lidar com apostadores disruptivos. Hoje, um árbitro só pode intervir se o comportamento cruzar para o insulto direto, o que deixa margem enorme para quem, nas palavras de Lehecka, sabe exatamente onde fica a linha. Em junho de 2025, WTA e ITF chegaram a cobrar publicamente que o setor de apostas fizesse mais para conter abusos ligados a apostas, mas a cobrança não resultou, até agora, em mudança de regulamento.
O US Open lucra com o mesmo problema que incomoda os jogadores
A ironia do momento é que a discussão ganha força justamente na edição do US Open que estreou parceria oficial com uma casa de apostas. Às vésperas do torneio, a USTA anunciou a Kalshi, plataforma de "mercados de previsão" (peça de marketing para o que, na prática, é aposta) como parceira oficial, com sinalização em quadra e presença nos canais digitais do evento. Quase simultaneamente, o aplicativo do US Open passou a enviar notificações patrocinadas pela Kalshi com previsões de resultado. O acordo inclui uma camada de integridade: mercados sobre decisões de arbitragem e violações de código foram proibidos, e a Kalshi fechou compartilhamento confidencial de dados com a Agência Internacional de Integridade do Tênis (ITIA) para monitorar o mercado em tempo real durante o torneio.
Mas o acordo não isenta a empresa de escrutínio. Legisladores de Nova York processam a Kalshi, alegando que ela opera apostas esportivas sem a licença exigida pelo estado. E o jornalista Ben Rothenberg, da newsletter Bounces, mostrou o quanto esse mercado pode destoar da realidade financeira do circuito: encontrou uma partida de nível Futures, em Bagnères-de-Bigorre, na França, entre o número 992 do mundo (que ganhara pouco mais de US$ 2,7 mil em prêmios no ano) e o 2.245 (menos de US$ 850), na qual a diferença entre vencer e perder valia apenas US$ 176. Na Kalshi, porém, mais de meio milhão de dólares circulava em apostas sobre o resultado dessa mesma partida.
O ataque não para quando a partida acaba
O incômodo dos apostadores não se limita à arquibancada. Depois de perder para Naomi Osaka nas quartas de final em Montreal, em agosto, a ucraniana Elina Svitolina relatou ter recebido uma enxurrada de ataques nas redes sociais, incluindo ameaças de morte, que atribuiu diretamente a apostadores insatisfeitos. Episódios parecidos, incluindo confrontos ao vivo como o do suíço Leandro Riedi, que chegou a encarar um espectador em quadra, e, mais recentemente, do francês Arthur Rinderknech em Cincinnati, sugerem que o problema tem crescido em frequência ao longo de 2026, não diminuído.
O Brasil, até o momento, não registrou nenhum relato público de um tenista alvo desse tipo de assédio em quadra. Mas a ausência de casos não significa ausência de risco: é justamente nos Challengers e Futures, onde joga a maioria dos brasileiros no circuito profissional, que a proximidade entre arquibancada e quadra torna esse tipo de interferência mais fácil, exatamente o cenário que Lehecka descreve como o mais vulnerável.
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