Você viu? Wild card gera caso bizarro e expõe falhas graves em torneio da ITF
- Raphael Favilla

- 8 de jan.
- 3 min de leitura
O ITF W35 de Nairóbi, no Quênia, foi palco nesta semana de um dos episódios mais constrangedores já registrados no circuito profissional feminino e que rapidamente ganhou repercussão internacional. A egípcia Hajar Abdelkader, de 21 anos, recebeu um wild card para a chave principal do torneio, mas acabou protagonizando uma atuação completamente fora do padrão exigido em competições profissionais, levantando questionamentos profundos sobre os critérios adotados para a concessão de convites no circuito da ITF.

Sem ranking na WTA e sem histórico relevante em torneios profissionais ou juvenis reconhecidos, Abdelkader enfrentou na estreia a alemã Lorena Schaedel, então número 1026 do mundo, e foi derrotada por duplo 6/0 em apenas 37 minutos. O placar elástico chamou atenção, mas os números da partida tornaram o episódio ainda mais impactante. A egípcia venceu apenas três pontos em todo o jogo, nenhum deles por mérito próprio: dois vieram em duplas faltas da adversária e o terceiro em um erro não forçado.
O desempenho no saque foi especialmente alarmante. Abdelkader cometeu 20 duplas faltas em apenas 24 tentativas, conseguiu colocar apenas dois primeiros serviços em quadra e não venceu um único ponto sacando. Em diversos momentos, demonstrou dificuldade até mesmo para executar fundamentos básicos do jogo, como empunhadura, posicionamento e preparação para o saque. Em uma situação extremamente incomum para um torneio profissional, a árbitra de cadeira precisou orientá-la sobre onde se posicionar para sacar.
Outro detalhe que chamou a atenção foi a vestimenta utilizada pela jogadora. Abdelkader entrou em quadra vestindo uma camiseta comum e leggings sem bolsos, o que dificultou ainda mais o andamento do jogo em um torneio que não contava com boleiros. Em várias ocasiões, a própria jogadora precisou buscar as bolas após os pontos, reforçando a sensação de improviso e despreparo. As imagens do confronto circularam rapidamente nas redes sociais, viralizaram e passaram a ser reproduzidas por grandes veículos da imprensa esportiva internacional.
Confira os lances bizarros:
O que disseram as federações?
A repercussão foi amplificada pelo contexto do evento. O ITF W35 de Nairóbi distribui pontos importantes para o ranking mundial e oferece uma premiação total de cerca de 30 mil dólares, sendo parte fundamental da base do circuito profissional feminino. Por isso, o episódio gerou indignação entre jogadoras, treinadores e dirigentes, que apontaram o caso como um desrespeito às atletas que disputam qualificatórios, investem recursos próprios e percorrem longas distâncias em busca de oportunidades no circuito.
Diante da repercussão negativa, a Tennis Kenya, federação responsável pela organização do torneio, divulgou um comunicado oficial reconhecendo a falha na concessão do wild card. Em nota, a entidade afirmou que “o convite foi concedido após a desistência de última hora da jogadora inicialmente selecionada e que, naquele momento, Abdelkader foi a única atleta disponível que solicitou a vaga”. A federação admitiu ainda que “confiou nas informações fornecidas pela própria jogadora sobre sua experiência competitiva”, classificou o episódio como extremamente raro e garantiu que “procedimentos internos serão revistos para evitar que situações semelhantes voltem a acontecer”.
A Federação Egípcia de Tênis, por sua vez, tratou de se desvincular completamente do caso. Em comunicado oficial, a entidade afirmou que “Hajar Abdelkader não é registrada na federação egípcia, nunca disputou competições oficiais organizadas pela entidade e não integra qualquer programa de desenvolvimento do tênis nacional”. Dirigentes locais chegaram a afirmar que “a jogadora não reside atualmente no Egito e não possui vínculo com o sistema federativo do país”, o que explicaria o desconhecimento total sobre sua trajetória esportiva.
O episódio também passou a ser analisado sob a ótica da integridade do esporte. Especialistas e jornalistas cobraram maior rigor por parte da ITF e da ITIA, órgão responsável pela integridade do tênis, para que haja uma checagem mínima do histórico competitivo das atletas antes da concessão de wild cards, especialmente em torneios profissionais. Embora não exista qualquer indício formal de manipulação de resultados, o caso evidenciou uma fragilidade estrutural na governança de eventos de menor porte.
O que começou sendo tratado por muitos como um episódio curioso ou até cômico rapidamente se transformou em um alerta incômodo para o circuito. Mais do que o placar em quadra, o ocorrido em Nairóbi escancarou a necessidade de critérios mais claros, transparentes e rigorosos na distribuição de convites, como forma de preservar a credibilidade do circuito profissional e o respeito às atletas que lutam diariamente por espaço no tênis mundial.
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