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63 anos de saudades: seria 4 de setembro de 1963 o maior dia do tênis brasileiro?

  • há 9 horas
  • 9 min de leitura

Fazia 27 graus naquela quarta-feira ensolarada em Nova York, quando Maria Esther Bueno, Ronald Barnes e Thomaz Koch pisaram sobre as quadras de grama do West Side Tennis Club, o mítico Forest Hills, na região do Queens, para gravar na história, há exatos 63 anos, o dia mais vitorioso que o tênis brasileiro jamais repetiu em um Grand Slam.


(Colagem: Barnes, Bueno e Koch)
(Colagem: Barnes, Bueno e Koch)

Imagine como estariam as redes sociais e o mundo digital hoje com a força descomunal que possuem se tivéssemos três tenistas avançando ao mesmo tempo às oitavas de final do US Open. O então juvenil Koch pararia nas quartas, mas o genial e talentoso Barnes, carioca do Country Club, atingiria a semifinal (a única masculina da história brasileira no torneio, feito que segue de pé até hoje).


E a já campeoníssima Maria Esther caminhava para seu segundo troféu de simples — venceu em 1959 e repetiria em 1964 e 1966.


Ligações sentimentais: a casa do US Open

O US Open de hoje é jogado sobre quadras duras e rápidas, mas naquele ano, na 83ª edição do então chamado National Championships, disputava-se em grama natural. O West Side Tennis Club foi fundado em 1892 na Upper West Side de Manhattan, com apenas 13 sócios interessados em alugar terreno para três quadras de saibro. A competição nacional se mudou para lá, no bairro de Forest Hills, em 1915, e um estádio para cerca de 13.500 lugares foi erguido em 1923 sobre as duas únicas terras que o clube chegou a adquirir. Foi também em Forest Hills que o Brasil disputou seu primeiro jogo de Copa Davis, em junho de 1932.


Ao longo de sua história, o clube sediou 60 edições do campeonato nacional americano, chamado assim de 1881 até o início da Era Aberta, em 1968, sendo 11 delas já sob o nome de US Open, além de 10 finais de Copa Davis e três do antigo circuito profissional WCT.


Forest Hills foi pioneiro em várias inovações do tênis mundial: o sistema de cabeças de chave surgiu ali em 1927, o tiebreak em 1970, e a premiação igualitária para homens e mulheres, a primeira entre os quatro Grand Slams a adotar a medida, em 1973.


Em 1975 vieram as quadras de har-tru e os primeiros jogos noturnos; em 1978, a sede do US Open se mudou para o recém-inaugurado National Tennis Center, em Flushing Meadows.

Hoje o antigo estádio de Forest Hills, remodelado, funciona como casa de shows (já recebeu Beatles, Rolling Stones, The Who, Jimi Hendrix e, mais recentemente, artistas como Tom Petty e The Chainsmokers).


Se neste ano o US Open superou a casa dos US$ 108 milhões em premiação, naquele 1963 o tênis ainda era estritamente amador — não havia prêmio em dinheiro algum (o primeiro campeão a faturar um cheque em Forest Hills sairia só em 1968, com Arthur Ashe, primeiro tenista negro a vencer um Grand Slam masculino).


Nossos brasileiros, portanto, obtiveram um feito extraordinário sem qualquer recompensa financeira equivalente à de hoje.


Prenúncio de uma grande geração

Em 1963 tínhamos o melhor juvenil do mundo, Thomaz Koch, nascido em Porto Alegre em maio de 1945 e, portanto, com 18 anos. Koch havia vencido o Orange Bowl da Flórida, o maior evento juvenil da época, e já disputara duas finais juvenis de Roland Garros, perdendo em 1962 para John Newcombe e em 1963 para o grego Nikolas Kalogeropoulos.


Menino, Koch tinha como ídolo o também gaúcho Armando Vieira. A geração que se anunciava ali se confirmaria ao longo da carreira de Thomaz: mais de 550 vitórias em simples, 36 títulos, o 12º lugar do ranking mundial em 1967 — mesmo ano em que conquistaria ouro em simples e duplas nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg.


Outros jovens brasileiros já vinham dando sinais antes disso: Ivo Ribeiro em 1957, o próprio Barnes em 1959 (vice-campeão juvenil em Wimbledon) e Edison Mandarino, finalista juvenil de Roland Garros também em 1959. No Orange Bowl, o Brasil já havia vencido em 1956, com Carlos "Lelé" Fernandes, e em 1958, com dose dupla de Barnes e Maria Esther.


Os números provam: já existia uma geração especial se formando havia quase uma décad, e o auge chegaria justamente em 1963. Para formar um grande tenista, ou uma geração relevante, calcula-se em média uma década de trabalho; o resultado de Forest Hills não foi acaso, mas colheita.


Ronald Barnes, o carioca que assombrou o mundo

Nascido em 1º de janeiro de 1941 no Rio de Janeiro, filho de ingleses, Ronald Winston Barnes descobriu o tênis aos cinco anos no Rio de Janeiro Country Club. Chegou a Forest Hills 1963 como um jogador em ascensão e, nas quartas de final, surpreendeu o terceiro cabeça de chave, o americano Dennis Ralston — parceiro de McKinley e futuro capitão de Copa Davis dos Estados Unidos. Ralston reconheceria publicamente, depois da derrota, que havia revisto o conceito que tinha do brasileiro: até ali via nele um jogador de saibro, mas passou a enxergá-lo como um competidor completo também na grama, perigoso para qualquer adversário se mantivesse aquele nível. Barnes vencia pontos com bolas de fundo de quadra puxadas de forehand, mas também subia à rede para fechar pontos com voleios de backhand.


A campanha se encerraria na semifinal, diante do americano Frank Froehling, mas o resultado colocou Barnes entre os dez melhores tenistas da temporada segundo o ranking anual da federação internacional — e selou, até hoje, o único homem brasileiro a alcançar uma semifinal do slam norte-americano.


Encerrou a carreira cedo, aos 26 anos, tornou-se técnico nos Estados Unidos e morreu em Nova York em dezembro de 2002, aos 61 anos, vítima de câncer — apelidado, com carinho, de "o avô do tênis brasileiro".


Em fevereiro de 2026, já falecido, foi anunciado como um dos novos nomes do Hall da Fama do Memorial Tênis Brasileiro, ao lado de Paulo da Silva Costa e Ingrid Metzner — anúncio feito, simbolicamente, pelo próprio Thomaz Koch, seu companheiro de geração.


O Pan de São Paulo

Pouco antes de Forest Hills, aconteceram os fortíssimos IV Jogos Pan-Americanos, em São Paulo, entre 20 de abril e 5 de maio de 1963, a maior competição multiesportiva já sediada no Brasil até então, disputada em locais como o Pinheiros Tênis Clube, o Estádio do Pacaembu e o Ginásio do Ibirapuera, e contando até mesmo com o então promissor norte-americano Arthur Ashe (que sairia de lá com um bronze em simples).


Foi também a edição de menor público de atletas da história dos Jogos, já que vários países não enviaram delegação (o que, paradoxalmente, ajudou o Brasil a fazer sua melhor campanha até então: 385 atletas, 14 medalhas de ouro, 21 de prata e 18 de bronze, um vice-lugar no quadro geral só igualado 56 anos depois, em Lima 2019).


O tênis contribuiu com muitas medalhas para o Brasil: Barnes foi ouro em simples e, ao lado de Lelé Fernandes, também em duplas; Koch e outro gaúcho, Iarte Adam (excelente tenista que largou a raquete pela medicina), teriam ficado com o bronze nas duplas, segundo o relato original. No feminino, Maria Esther foi campeã de simples numa chave que teve a grande mexicana Yolanda Ramirez e a americana multicampeã de Grand Slam Darlene Hard (que sairia de São Paulo com o bronze em simples).


Nas duplas femininas, Bueno e a parceira Maureen Schwartz (mais tarde convocada para representar o Brasil na Fed Cup) ficaram com a prata, atrás da própria Hard e de Carole Caldwell; na mista, ao lado de Koch, Maria Esther também chegou à final e conquistou mais uma prata. Ao todo, três medalhas: um ouro e duas pratas — resultado que, segundo ela recordaria décadas depois, teve um gosto especial por ter sido conquistado em casa, já que até então seus maiores resultados vinham sempre fora do Brasil.


Maria Esther teve ainda o contratempo de ser mordida por um cachorro que pertencia ao irmão Pedro, dias antes da competição, e mesmo assim disputou o torneio com a mão protegida por atadura. (E não foi só o tênis: naquele mesmo Pan, o futebol brasileiro conquistou pela primeira vez o ouro, de forma invicta, com um time que já reunia nomes que seriam campeões do mundo em 1970, como Jairzinho e Carlos Alberto Torres — outro sinal de que São Paulo 1963 foi, para o esporte brasileiro, uma pequena revelação de geração de ouro em mais de uma modalidade).


Os tempos eram outros: o tênis seguia amador e romântico, mas de qualidade indiscutível, e nosso esporte marcava presença em todo evento significativo da época.


O Brasil nos Slams de 1963


Não tivemos representante no primeiro Slam daquela temporada, o Australian Open, mas colocamos quatro jogadores na chave principal masculina de Roland Garros: Lelé Fernandes caiu na primeira rodada, Thomaz e Mandarino na segunda, e Barnes foi às oitavas. Bueno, ainda em recuperação física de uma doença que a afastara das quadras em 1961, não se inscreveu.


Em Wimbledon, Koch e Lelé caíram na estreia, Mandarino chegou à terceira rodada e Maria Esther fez quartas, eliminada pela então Billie Jean Moffitt — que só adotaria o sobrenome King dois anos depois, ao se casar. Foi também o Wimbledon em que Chuck McKinley, futuro protagonista de Forest Hills, conquistou seu único título de simples em Grand Slam, batendo Fred Stolle por 9-7, 6-1, 6-4, poucas semanas antes de desembarcar em Nova York como principal favorito e como jogador que terminaria 1963 no topo do ranking amador mundial.


Por fim, no inesquecível US National, o Brasil teve ainda a pouco conhecida Mari Habitch, que venceu um jogo em Nova York antes de ser eliminada; depois foi viver nos Estados Unidos com a família, e há poucos registros sobre ela até hoje.


O dia, hora a hora

O torneio começou em 28 de agosto, e chegamos então em 4 de setembro depois de três vitórias na rodada anterior — oitavas de final —, com os três brasileiros avançando no mesmo dia. Barnes voltou à quadra logo em seguida e superou o cabeça de chave número 3, Dennis Ralston, para ir à semifinal; Maria Esther bateu Nancy Richey para nova semi; e Koch caiu, em jogo lembrado como polêmico até hoje, diante do número 1 local, Chuck McKinley — futuro campeão de Wimbledon daquele ano —, num confronto em que o gaúcho teria tido um match-point a favor.


McKinley, formado pela pequena Trinity University, no Texas, terminaria 1963 como o grande nome da temporada amadora: além do título de Wimbledon, liderou, ao lado de Ralston, a virada dos Estados Unidos sobre a Austrália na final da Copa Davis daquele ano — a única interrupção em oito anos seguidos de domínio australiano na competição.


No sábado, o Brasil fez duas semifinais, algo espetacular para a época: Estherzinha bateu a britânica Ann Jones e foi em busca do bicampeonato, enquanto Barnes perdeu para o americano Frank Froehling, de 1,91m, que chegara à decisão após eliminar ninguém menos que Roy Emerson. No domingo, Maria Esther fez uma partida de alto nível e levantou o troféu sobre Margaret Smith por 7-5 e 6-4 — sua segunda taça em Forest Hills, num ano em que fechou 1963 como número 2 do mundo, atrás apenas da própria Margaret.


A final masculina também entrou para a história: o mexicano Rafael Osuna, quarto cabeça de chave, bateu Froehling por 7-5, 6-4 e 6-2 numa autêntica aula tática. Sabendo que não teria como vencer o poderoso saque-e-voleio do americano na base da força, Osuna passou a devolver com bolas altas e lentas, os famosos "moonballs", lançadas de bem atrás da linha de fundo — um xadrez que deixou Froehling frustrado do início ao fim e consagrou Osuna como o primeiro, e até hoje único, campeão mexicano do torneio. O título o levou ao topo do ranking mundial da federação internacional ao final daquele ano; poucos meses antes, ele fazia parte do time da USC considerado por muitos o melhor conjunto universitário da história do tênis americano.


Esse US Open de 1963 foi, portanto, um duro golpe para americanos, europeus e australianos: junto da conquista de Maria Esther, o troféu masculino saiu das mãos dos favoritos tradicionais pela primeira vez em muito tempo — um raro momento em que os dois grandes troféus de simples foram parar nas mãos de representantes latino-americanos.


Um recorde que resiste

Sessenta e três anos depois, a semifinal de Ronald Barnes segue como o teto histórico do tênis masculino brasileiro em Forest Hills/US Open. Nem mesmo João Fonseca, hoje o brasileiro mais bem colocado no circuito e que em 2026 fez sua melhor campanha de Grand Slam ao alcançar as quartas de final de Roland Garros — batendo Novak Djokovic pelo caminho —, chegou perto: precisou se retirar do US Open 2026 por lesão abdominal antes mesmo da estreia. Enquanto o feito de Barnes não é igualado, ele segue como o lembrete de que, num só dia de setembro, o Brasil colocou três tenistas simultaneamente entre os melhores do mundo — algo que, mesmo seis décadas depois e com as redes sociais amplificando cada resultado, ainda não se repetiu.


Maria Esther Bueno morreu em São Paulo em junho de 2018, aos 78 anos, deixando 19 títulos de Grand Slam e o posto de maior tenista latino-americana da história. Thomaz Koch, hoje octogenário, segue como uma das vozes mais respeitadas do tênis brasileiro — foi ele quem, no Rio Open de 2026, anunciou a entrada de seu velho companheiro de geração, Ronald Barnes, para o Hall da Fama do tênis nacional. Setenta anos depois de Nova York, aquele dia de setembro continua sendo contado.

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