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A insulina que "parecia estranha" em quadra agora tem um campeão de Slam

  • há 7 dias
  • 5 min de leitura

Há três anos, num vestiário de Roland Garros, um supervisor entrou em pânico ao ver Alexander Zverev se preparar para aplicar insulina e disse que aquilo não podia. Zverev ouviu, em quadra, que injetar a dose "parecia estranho". Neste domingo, na mesma Paris, o alemão levantou a Taça dos Mosqueteiros. Entre uma cena e outra está quase tudo o que define a carreira dele.



Tenista sorridente segura um troféu prateado em quadra, com público desfocado ao fundo.
Alexander Zverev (Foto: Jean-Charles Caslot / FFT)

Zverev derrotou o italiano Flavio Cobolli por 6/1, 4/6, 6/4, 6/7 (5/7) e 6/1 neste domingo em Roland Garros, conquistando aos 29 anos o primeiro título de Grand Slam da carreira. Era a quarta final de major que disputava, e as três anteriores tinham terminado em derrota: US Open de 2020, Roland Garros de 2024 e Aberto da Austrália de 2025. O rótulo de melhor tenista a nunca vencer um Slam virou parte do personagem. A pecha, agora, ficou no passado.


A insulina que "parecia estranha"

Zverev convive com diabetes tipo 1 desde os 3 anos de idade. Precisa aplicar insulina ao longo do dia para sobreviver, e durante muito tempo escondeu o diagnóstico do público. Em 2023, nas oitavas de final de Roland Garros contra Grigor Dimitrov, um fiscal o impediu de fazer a aplicação dentro da quadra e ainda determinou que sair para isso contaria como pausa para o banheiro, limitada pelo regulamento.


A reação dele na época foi de incredulidade. "Eles disseram que parece estranho quando faço isso em quadra. Mas essa não é uma posição inteligente, porque se eu não fizer, minha vida estará em risco". Após forte pressão da comunidade médica, a organização do torneio voltou atrás e liberou a aplicação em quadra nas partidas seguintes. A Federação Internacional de Diabetes classificou a mudança como encorajadora, mas cobrou regras claras para atletas na condição dele.


O detalhe que fecha o arco: a quadra onde a condição de Zverev foi tratada como anomalia é a mesma onde, neste domingo, se tornou campeão. Coube a Billie Jean King nomear o tamanho disso. "Ele também é o primeiro homem com diabetes tipo 1 a vencer um Grand Slam. Que vitória para todos que vivem com essa doença", publicou a lenda americana no Instagram, em uma das mensagens de cumprimento.


O tamanho do peso que carregava também ficou claro numa entrevista exclusiva à TNT Sports dos Estados Unidos, conduzida por Sam Querrey, ex-número 11 do mundo. Zverev mal ouviu os parabéns e já devolveu uma alfinetada. "Antes de mais nada, estou muito feliz por estar segurando isso. Porque você disse que eu nunca conseguiria, então, muito obrigado pela sua confiança", disse o alemão, desabafando por enfim vencer um Slam, antes de explicar que ele e Querrey mantêm uma relação de amor e ódio e que adora provocá-lo.


A frase é leve, mas não é à toa. Resume uma vida inteira ouvindo que aquilo não daria certo, e não só de adversários de quadra. A dúvida se teria condições de ganhar um Major vinha desde muito antes, de gente de jaleco, com contornos mais cruéis. "Sempre tive médicos me dizendo que, com uma doença como essa, eu nunca seria um atleta profissional, ainda mais num esporte físico como o tênis".


O canto da quadra onde tudo deu errado

Não foi só a insulina. Foi nesta mesma Philippe-Chatrier que Zverev sofreu, na semifinal de 2022 contra Rafael Nadal, uma lesão grave no tornozelo direito, com rompimento de ligamentos, que o tirou do restante da temporada. Ele apontou o lugar exato durante o discurso em quadra.


"Essa quadra é muito especial para mim em várias situações diferentes, tive grandes e péssimos momentos aqui, inclusive naquele canto com uma fratura. Mas agora finalmente tudo isso teve um final feliz", destacou o alemão.


A imagem do corpo no chão, aliás, se repetiu, mas com outro sentido. "Quando estava no chão, todas as emoções vieram à tona, porque esta quadra é muito especial para mim, tanto positiva quanto negativamente. Já que vivi alguns dos momentos mais difíceis da minha vida e da minha carreira no tênis aqui. Todas essas lembranças ainda estão comigo, mas esta vitória as supera", afirmou.


As cãibras que viraram solução

A final em si teve um capítulo curioso. No quarto set, Zverev encarou cãibras, e a primeira leitura óbvia, de desgaste físico, ele próprio descartou. "Estava passando por um momento de dificuldade física, embora eu não ache que as cãibras fossem realmente físicas. Acho que eram mais mentais. Estava muito tenso, muito emotivo e um pouco instável também", observou.


O que parecia problema acabou destravando o jogo. "Digo que as cãibras me ajudaram. Minha mente relaxou, comecei a bater na bola com mais liberdade e agressividade. Eu não podia ficar tenso, tive que me soltar. Foi por isso que joguei o quinto set da maneira que joguei. Simplesmente deixei fluir", finalizou. No quinto, deslanchou: abriu 4/0 e fechou em 6/1.


O que muda na cabeça de um campeão

Zverev foi precoce no alto nível, mas a fila no Grand Slam se arrastou. "Conquistei muitos outros títulos. Experimentei essa sensação de realização rapidamente no nível Masters, mas demorou mais em um Grand Slam. Agora, aconteça o que acontecer, sempre serei um campeão de Grand Slam e ninguém poderá tirar isso de mim", disse o tenista, dono de duas edições do ATP Finals (2018 e 2021), sete Masters 1000 e o ouro olímpico de 2021.


A frase seguinte explica por que a final de domingo pode valer mais do que um troféu.


"Talvez minha mente fique mais tranquila em uma final, mesmo se eu perder, ainda serei um campeão de Slam. Este troféu é muito importante para mim, porque se eu tivesse perdido, minha confiança teria caído bastante. Mas agora que o ganhei, sei que posso fazer isso de novo"

O melhor amigo é mineiro

No agradecimento ao time, nome por nome, Zverev incluiu o pai e treinador Alexander Zverev Sr., o irmão Mischa e, no meio deles, o brasileiro Marcelo Melo. "Vocês são os melhores no circuito, com ótimas conversas. É ótimo estar com vocês", garantiu o campeão. A menção não é protocolo. É das amizades mais antigas e improváveis do circuito.


A história começou em Rotterdam. Em 2015, Zverev, então com 18 anos e novato no circuito, foi apresentado ao mineiro, sempre sozinho no vestiário. Mais de uma década depois, viraram dupla de quadra. Em fevereiro de 2026, conquistaram juntos o ATP 500 de Acapulco, o primeiro título da parceria, depois de já terem sido vice em Monte Carlo, em 2024. Na ocasião, Zverev resumiu a relação.


Dois homens com sombreros seguram troféus e sorriem em um estádio, com arquibancadas ao fundo.
Zverev e Melo, campeões em Acapulco (Foto: ALFREDO ESTRELLA/Getty Images)

"Marcelo tem sido meu melhor amigo há mais de 10 anos, e finalmente vencemos um torneio. Estivemos em algumas finais e enfim conseguimos. Então é especial", disse o alemão, em fala reproduzida pelo site da ATP.


Melo, do outro lado, devolveu na mesma moeda. "A diferença em ganhar este título é que somos amigos, e para mim isso é muito especial. Quando nos divertimos, é uma sensação melhor", afirmou o brasileiro. Foi esse amigo que Zverev fez questão de citar no momento mais alto da carreira, num discurso em que sobravam motivos para lembrar só de si.


O peso histórico e o que vem a seguir

Os números arrumam o tamanho do feito. Zverev é o primeiro alemão a vencer um título de Grand Slam em simples desde Boris Becker, no Aberto da Austrália de 1996, encerrando um jejum de 30 anos do país no masculino. Na Era Aberta, é o primeiro alemão campeão de Roland Garros. Foi também sua 25ª conquista no circuito, a maior da carreira e a primeira desde Munique, em maio do ano passado.


O título mexeu na corrida da temporada: Zverev assumiu a segunda posição, deixando Carlos Alcaraz em terceiro, e encurtou para 910 pontos a distância para o líder Jannik Sinner. Agora, a próxima parada é Wimbledon, onde tentará emendar uma boa campanha na grama. Pela primeira vez, carrega um título que ninguém vai conseguir lhe tirar. Ele fez questão de dizer isso. Mais de uma vez.

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