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A Lei sul-coreana o afastou do tênis, mas Kwon respondeu com três títulos e uma vaga em Wimbledon

  • há 2 horas
  • 5 min de leitura

O sul-coreano Soonwoo Kwon, 202º do mundo, está de volta a uma chave principal de Grand Slam depois de furar o qualificatório de Wimbledon. Aos 28 anos, cumpre serviço militar obrigatório em seu país e só será dispensado em 12 de julho, no penúltimo dia do torneio britânico. Wimbledon, porém, começou para ele numa frase escrita nas redes sociais, 18 meses antes.


Homem sorridente de branco e boné flexiona os braços sob tenda amarela, com equipamento de treino ao fundo.
Kwon Soon-woo posa durante treinamento (Foto: Korea Tennis Association)

Quando anunciou o alistamento, em dezembro de 2024, Kwon sabia que estava trocando o a carreira esportiva pelo quartel. Tinha 27 anos, era ex-52º do mundo e respondeu a quem o dava como acabado. "Muitos dizem que é tarde demais para começar de novo aos 30 e que é difícil retomar o circuito... Para mim, 30 será o meu auge e estou confiante", escreveu no Instagram. "Só alcancei 20 por cento dos meus objetivos."  Dezoito meses depois, a profecia tem final feliz.


O recomeço imposto por lei

O motivo do recomeço é o que torna tudo inusitado. Não foi lesão, crise de forma ou pausa voluntária. Foi a lei: a Coreia do Sul obriga todos os homens fisicamente aptos entre 18 e 28 anos a servir de um ano e meio a dois, parte do esforço permanente do país contra a Coreia do Norte.  Há saídas, mas estreitas. Figuras esportivas de destaque podem ser dispensadas se promoverem o prestígio nacional, o que na prática significa medalha olímpica ou ouro nos Jogos Asiáticos.  Foi por essa fresta que passou, por exemplo, o craque do futebol Son Heung-min, liberado após o ouro asiático de 2018.


Kwon tentou as duas portas e bateu a cabeça nas duas. Nos Jogos Asiáticos de 2023, em Hangzhou, era cabeça de chave 4 e tinha diante de si o único atalho real para escapar do serviço: um título daria a isenção. Perdeu na segunda rodada para o tailandês Kasidit Samrej, então 636º do mundo, mais de 500 posições abaixo, no maior tombo do torneio.  A reação foi à altura da frustração. Destruiu a raquete, batendo-a no chão e na cadeira até reduzi-la a pedaços, e deixou a quadra sem cumprimentar árbitro nem adversário.  Depois pediu desculpas públicas pela atitude, que classificou de imprudente. A outra rota, uma medalha em Paris 2024, muito mais difícil de acontecer, ruiu quando ele se retirou dos Jogos por lesão no tornozelo. Sem ouro, sobrou a farda.


A despedida veio com promessa de retorno. "Minha vida no circuito vai parar por quase dois anos, mas estarei de volta no segundo trimestre com uma forma mais perfeita, enquanto vocês esperam",  escreveu em coreano aos torcedores. O preço foi alto. Durante o serviço, o ranking despencou até o 677º posto, em junho do ano passado.  


Como se reconstrói uma carreira de farda

O que veio depois explica por que a frase soou menos como bravata e mais como plano. Kwon cumpriu e bateu as metas de treinamento nas duas primeiras fases do serviço, chegou a sub-líder de divisão entre novatos, como reporta a emissora local SBS, e no início deste ano foi transferido para o Corpo de Atletas do Exército sul-coreano, que mantém competições internas e algumas incursões internacionais. A partir daí, raquete e fuzil passaram a dividir a agenda.


Jogador de tênis levanta a raquete para sacar, bola no alto, diante de parede verde com hera; marca AP/BBNews.
(Foto: AFPBBNews)

E o calendário fardado foi acima das expectativas. Em janeiro, título no Challenger de Phan Thiet, no Vietnã. Em fevereiro, duas vitórias na Copa Davis contra a Argentina, em Busan. Em abril, o Challenger de Gwangju, na Coreia do Sul. Em maio, o de Wuxi, na China. Em Gwangju, tornou-se o primeiro sul-coreano a vencer o título de simples do torneio, e o resultado o devolveu ao top 300 pela primeira vez em mais de dois anos.  O troféu em Wuxi, que carimbou a vaga no quali de Wimbledon, empurrou seu ranking mais de 170 posições para cima em um único mês, recolocando-o no top 200.  Três Challengers numa só temporada, todos com a farda no armário.


Sobre o paradoxo, o próprio Kwon foi direto após o título no Vietnã. "Não é fácil competir em torneios no exterior enquanto se cumpre o serviço militar. Agradeço sinceramente ao Exército pelo generoso apoio e consideração que me permitiram competir de novo", declarou, à Essential Sports. A mesma instituição que o tirou do circuito acabou abrindo a brecha para mantê-lo vivo no tênis.


Astana, Adelaide e a conta que ficou pela metade

Kwon virou profissional em 2015 e demorou seis anos para furar a bolha do circuito principal. O primeiro título ATP veio em setembro de 2021, no Astana Open, no Cazaquistão, onde bateu o australiano James Duckworth na final e se tornou o primeiro sul-coreano a vencer no circuito nível ATP em 18 anos, e apenas o segundo coreano a erguer um troféu neste nível na Era Aberta desde Hyung-Taik Lee, campeão de Sydney em 2003.


O segundo, e mais improvável, veio em janeiro de 2023. Em Adelaide, Kwon entrou na chave como lucky loser, perdeu no qualificatório e ainda assim foi campeão, batendo na final Roberto Bautista Agut. Tornou-se o primeiro coreano a vencer pelo menos dois títulos no ATP Tour, o primeiro lucky loser a chegar a uma final na história do torneio australiano e o primeiro lucky loser a faturar um título de nível tour desde Marco Cecchinato, em Budapeste, em 2018.


Adelaide foi em janeiro de 2023. Dois anos depois, em janeiro de 2025, Kwon trocava a raquete pela farda. Entre um título e a convocação, ele ainda ficou seis meses fora por uma lesão no ombro a partir de fevereiro de 2023. Ou seja: o coreano com mais títulos ATP da história do país passou boa parte dos dois anos seguintes ao seu feito mais notável longe das quadras, primeiro por lesão, depois por imposição da lei.


[No Challenger Tour, Kwon faturou Yokohama (Japão) e Seul (Coreia do Sul), ambos em 2019; Biella 2 (Itália, indoor) em 2021; e os três conquistados já fardado em 2026, Phan Thiet (Vietnã, sobre Ilia Simakin), Gwangju (Coreia do Sul, sobre August Holmgren) e Wuxi (China, sobre Bu Yunchaokete)].


O que está em jogo aos 28



A vaga em Wimbledon vale mais do que uma linha no currículo. Kwon volta à chave principal de um Grand Slam pela primeira vez desde 2024 e reativa a sequência de coreanos presentes nas chaves principais dos majors, interrompida naquele ano.  Na história do tênis masculino coreano, só três homens já pisaram na chave principal na grama sagrada do All England Club, e ele é um deles.  Seu melhor resultado no torneio segue sendo a segunda rodada, em 2021.


Wimbledon comprou a narrativa. O torneio publicou os match points de Kwon no qualificatório em suas redes oficiais, destacou a continência em estilo militar feita após a vitória e, confirmada a vaga, anunciou o retorno com a frase "Kwon Soon-woo is BACK!", que repercutiu forte entre os coreanos.


Próximos compromissos

O sorteio não foi generoso. Kwon estreia em Wimbledon contra o espanhol Martín Landaluce, de 19 anos, em duelo de gerações na metade de baixo da chave. Se passar, o caminho esquenta rápido: a seção tem o americano Tommy Paul, cabeça de chave 21, como adversário provável na segunda rodada, e desemboca no vencedor do duelo entre o norueguês Casper Ruud (11º) e o polonês Hubert Hurkacz, dono de um dos saques mais perigosos da grama, na terceira.


Com a dispensa marcada para 12 de julho, informa o Korea Herald, o comando do exército enviou o tenista à Inglaterra, onde ele tentou vaga no Challenger de Nottingham antes de cravar a classificação em Roehampton. É seu último torneio como militar da ativa. A partir do mês que vem, o recomeço deixa de ter farda: Kwon mira o caminho de volta ao top 100 e, no horizonte, o 52º posto, melhor ranking da carreira alcançado em 2021. Aos 28, com o quartel quase para trás, a frase de 2024 vira meta concreta.



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