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Circuito Masters? Nada disso. Aos 79, americana prefere o quali profissional

há 12 horas
5 min de leitura

Gail Falkenberg tem 79 anos e poderia disputar o circuito Masters, com categorias por faixa etária e adversárias da sua geração. Preferiu, mais uma vez, o quali de um torneio profissional. Nesta semana, perdeu por duplo 6/0 para a compatriota Aspen Schuman, de 19 anos, na primeira rodada do qualifying do W35 de Orlando, nos Estados Unidos.


Sessenta anos separam as duas. Schuman, sexta cabeça de chave do quali, fechou o jogo na quadra 5 sem ceder games, e o placar viralizou nas redes sociais. Mas Falkenberg não é uma curiosidade de rede social. Está no Guinness como a pessoa mais velha a vencer uma partida no circuito ITF e acumula quatro décadas de idas e vindas no tênis profissional, com passagens por Hollywood, pela Marinha americana e por um vestiário universitário em Orlando.


(Foto: Reprodução/X)
(Foto: Reprodução/X)

Ela nunca explicou em detalhes por que dispensa os torneios de veteranas, mas já deu a pista. Em 2016, depois de entrar para o livro dos recordes, disse ao Wall Street Journal que gosta de conviver com a geração mais nova e que seu "jogo dá mais trabalho às garotas do que às jogadoras mais velhas", admitindo que a afirmação parecia difícil de acreditar.


A explicação está no estilo. Falkenberg nunca teve potência e já não tem a mesma velocidade de pernas, mas compensa com as mãos e com bolas cheias de efeito, que incomodam quem está acostumada a trocar pancadas do fundo. Ao Ocala Gazette, em 2021, definiu a coordenação entre olho e mão como excelente desde sempre.


A menina que trocou a raquete pelo piano

A história começa com uma desistência. Filha única, criada em Westfield, Nova Jersey, Falkenberg pegou uma raquete pela primeira vez por volta dos 10 anos e logo mostrou facilidade. A mãe pediu a opinião de adultos, que decretaram que a menina nunca seria boa jogadora porque batia na bola do jeito errado. Ela largou o tênis e foi estudar piano.


Voltou às quadras na UCLA. Em 1967, entrou no time feminino de tênis da universidade sem bolsa, como aluna que se apresenta para a peneira, e também jogou basquete pelos Bruins. Aprendeu praticamente sozinha. Saiu de lá com graduação e mestrado em cinema.


A carreira fora do esporte foi longe do glamour que o diploma sugeria. Falkenberg foi trabalhar como editora num laboratório de pesquisa da Marinha americana em China Lake, na Califórnia, dedicado a armas de defesa aérea. Em 1972, dirigiu um documentário para a Marinha sobre a primeira aeronave pilotada remotamente a decolar com sucesso.


Depois de cinco anos nas Forças Armadas, abriu a própria empresa, a Falkenberg Productions, especializada em produção audiovisual para empresas e para o governo federal. Passou quase dez anos sem jogar tênis depois da faculdade.


O recomeço aos 38

O retorno veio por acaso. Em meados dos anos 1980, um vizinho do condomínio onde ela morava procurava parceira para duplas mistas e passou a treiná-la. Falkenberg contou ao Ocala Gazette que ali se apaixonou de novo pelo tênis. Em 1983, venceu o campeonato nacional de parques públicos dos Estados Unidos, numa chave que, segundo o Tennis.com, reunia homens e mulheres. Em 1985, ganhou um título nacional amador de simples.


Aos 38 anos, largou o emprego e foi para o circuito. Sem dinheiro para pagar técnico, bancou as próprias viagens e jogou na Ásia, na América do Sul, no Caribe, no Canadá, na Europa, na África e na Nova Zelândia. Em dezembro de 1987, chegou ao 360º lugar do ranking de simples (ela própria, ao site italiano Spazio Tennis, cita o 343º como sua melhor marca) e ao 430º nas duplas.


No Australian Open de 1988, passou uma rodada do quali, hospedada numa fazenda nos arredores de Melbourne. Pouco depois, cruzou com uma adolescente chamada Jennifer Capriati, que já carregava o rótulo de prodígio. Capriati venceu por 7/6 6/4, em uma partida de três horas e meia, segundo o Punto de Break. Em 1990, o dinheiro acabou e Falkenberg deixou o circuito.


Orlando, portanto, não é cenário novo para ela. Em 1991, Falkenberg assumiu o tênis da University of Central Florida, a UCF, e comandou as equipes masculina e feminina até 1999. Também trabalhou com o basquete da universidade. Segundo ela, deixou o programa de tênis entre os ranqueados nacionalmente.


Uma pausa de quase uma década

Em 2003, a mãe sofreu um AVC grave em Jacksonville e ficou paralisada de um lado do corpo. Falkenberg deixou o emprego de professora num clube de tênis para cuidar dela e passou quase dez anos sem entrar em quadra. Depois da morte da mãe, no início dos anos 2010, mudou-se para Ocala, no interior da Flórida, e em 2013 voltou ao circuito ITF.


Voltou com estilo. No mesmo ano, aos 66, caiu no quali de Rock Hill diante de uma adolescente chamada Naomi Osaka, por duplo. "Meu Deus, ela acabou comigo", lembrou ao Ocala Gazette, que também a ouviu elogiar o saque da futura campeã de Grand Slam. As adversárias, ainda assim, nem sempre levavam a situação na esportiva. Em relato reproduzido pelo Punto de Break em 2015, Falkenberg contou que mais de uma vez ouviu jovens chorarem em quadra por estarem perdendo pontos para uma mulher daquela idade.


O dia do Guinness

Para jogar torneios profissionais, ela precisava de pontos. Conseguiu-os na quadra: em junho de 2015, venceu a jogadora Spirit Edley numa seletiva regional para o US Open, e os 12 pontos do ranking da USTA conquistados nessas eliminatórias garantiram sua entrada nos qualis do circuito profissional americano.


O resultado veio em 10 de abril de 2016, em Pelham, no Alabama. Aos 69 anos e 85 dias, Falkenberg venceu Rosalyn Small, de 22, por 6/0 6/1 na primeira rodada do quali de um torneio de US$ 25 mil. Segundo o Guinness, ela não vencia uma partida profissional desde 1998, quando ganhou no quali de Spartanburg, e vinha de 32 derrotas seguidas. O feito virou recorde mundial.


Na rodada seguinte, pegou Taylor Townsend, de 19 anos, ex-número 1 do ranking juvenil. Townsend venceu por 6/0 6/0 e cedeu apenas 12 pontos, mas Falkenberg ainda teve um game point, o que, segundo ela, surpreendeu a adversária. O jogo atraiu TVs locais, o Wall Street Journal e veículos europeus. Pouco depois, ela descobriu que encabeçava a lista dos dez tenistas mais velhos da história do site Oldest.org, à frente de Martina Navratilova, Billie Jean King, John McEnroe e Jimmy Connors.


A pandemia a tirou das quadras por um ano e meio. Em maio de 2021, aos 74 anos e mais de três anos depois do último jogo oficial, voltou em Naples, na Flórida, e perdeu por outro 6/0 6/0 para a francesa Tiphanie Fiquet. "Vou continuar jogando até meu corpo me dizer para parar", afirmou ao L'Équipe na ocasião, garantindo que ainda podia vencer uma partida profissional. Em janeiro de 2023, aos 76, perdeu pelo mesmo placar para Alana Smith, então 854ª do mundo, no quali do torneio de US$ 60 mil de Vero Beach.


Os joelhos às vezes reclamam. A rotina, não. Segundo o Spazio Tennis, ela treina cinco ou seis vezes por semana, sem técnico, e diz que o tênis a mantém jovem e saudável. O sonho, contou ao mesmo site, segue de pé: "Eu adoraria jogar o US Open ou Wimbledon." Ela também rejeita a ideia de que a idade impede a evolução. "Dá, sim, é só treinar. É preciso ter essa vontade", disse ao Tennis.com.


Em mais de três décadas de circuito, somou US$ 10.830 em premiação. O número diz pouco sobre ela.



A adversária de Orlando

Do outro lado da rede estava uma das juvenis mais bem avaliadas dos Estados Unidos nos últimos anos. Natural de Menlo Park, na Califórnia, Schuman jogou as chaves juvenis de Wimbledon e do US Open em 2025, chegou ao 31º lugar no ranking juvenil da ITF e assinou com a Universidade Duke no fim daquele ano. No ranking da WTA, aparece em torno do 900º lugar.


Schuman segue no quali de Orlando. Falkenberg leva para casa mais um 6/0 6/0, desta vez na cidade onde treinou universitários durante oito anos. Pelo que já disse, não deve trocá-lo por um título entre veteranas.



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