Duplas viram guerra na ATP, e os Bryan protestam
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O tênis masculino tem uma guerra em curso. De um lado, os duplistas do circuito, que acusam a ATP de tentar acabar com a modalidade como profissão. Do outro, uma proposta que corta pela metade as chaves de duplas e reduz a premiação de 20% para 10% a partir de 2028. No meio do fogo cruzado, Bob e Mike Bryan, irmãos que formaram a maior dupla da história, decidiram falar.
"Acreditamos que existem maneiras melhores de desenvolver o tênis de duplas do que reduzindo as oportunidades para aqueles que dedicaram suas carreiras a essa especialidade", disseram os Bryan.

Não é opinião qualquer. Os gêmeos norte-americanos foram introduzidos no Hall da Fama Internacional do Tênis no ano passado depois de uma carreira inteira construída dentro das duplas. Quando eles falam da modalidade, falam com muita propriedade.
"Se for aprovada, isso acabará com o sonho de qualquer jogador jovem ou universitário que queira seguir carreira nas duplas. O caminho para se destacar e ganhar a vida será bloqueado. Do ponto de vista financeiro, o circuito parece estar mais saudável do que nunca. Deveriam criar mais oportunidades os duplistas", disse Bob.
Os números da proposta
Segundo a Associated Press, o plano apresentado ao Conselho de Jogadores da ATP prevê que os duplistas fiquem com apenas 10% da premiação dos torneios, metade dos 20% atuais. As chaves seriam cortadas pela metade: 16 duplas nos Masters 1000 e apenas oito nos ATP 500 e 250. Os Grand Slams ficam de fora. A vigência prevista é a partir de 2028.
Para dimensionar o abismo que já existe: neste Wimbledon, com 64 duplas nas chaves masculina e feminina, os campeões de duplas dividiram 760 mil libras. Os campeões de simples levaram 3,6 milhões cada.
"Não somos um espetáculo de circo à parte"
Os Bryan não abriram a discussão. Entraram numa que já estava fervendo. No início de julho, dias depois de uma reunião entre duplistas e dirigentes da ATP em Wimbledon, um grupo de duplistas de ponta divulgou um comunicado coletivo. O texto é duro:
"A ATP está propondo cortar as chaves de duplas, esvaziar a premiação das duplas e entregar a entrada nos Challengers a jogadores de simples à frente dos especialistas que construíram suas carreiras nesta modalidade", diz o comunicado.
O cálculo que eles pedem para o leitor fazer é preocupante. "Faça as contas do que isso significa para qualquer um fora do top 30: será impossível ganhar a vida."
E o diagnóstico político: "Isso não é um ajuste menor. É um plano para acabar com as duplas como profissão viável, disfarçado de medida de corte de custos, e está sendo empurrado com quase nenhuma transparência e quase nenhuma consulta aos jogadores cujas carreiras e sustento estão em jogo."
O fecho do comunicado é a frase que resume a briga inteira: "As duplas não são um acidente em que caímos. Sempre fizeram parte da identidade deste esporte, não uma versão com desconto dele."
Os campeões de Wimbledon com o troféu na mão e o emprego em risco
Julian Cash e Lloyd Glasspool venceram Wimbledon em 2025 e se tornaram a primeira dupla totalmente britânica a levar um Grand Slam masculino em 89 anos. Voltaram ao All England Club em 2026 para defender o título e passaram a quinzena falando sobre desemprego.

"Somos todos membros da ATP, todos pagamos a associação, e a razão pela qual ela foi criada foi para proteger os jogadores", disse Cash, em declarações reproduzidas pelo Cyprus Mail.
Glasspool foi mais direto sobre o que está em jogo, em entrevista à BBC Sport. "É decepcionante que no futuro, potencialmente, não teremos emprego. Muitos outros jogadores, jogadores aspirantes, a próxima geração não terá emprego."
Cash é o caso concreto do que a proposta apagaria. "Tive um monte de lesões nas simples e percebi que poderia chegar ao topo do jogo nas duplas, então escolhi esse caminho de carreira", explicou. Ele nunca disputou uma partida de simples no circuito principal. Chegou ao número 2 do mundo em duplas.
A leitura política do calendário
O trecho mais afiado da dupla britânica não é sobre dinheiro. É sobre timing. "Acho que o timing das propostas é inteligente. Eles sabem que os top players vão nos ajudar, mas são os menos propensos a fazer isso durante um Slam, porque todo mundo está focado nos maiores torneios", disse Glasspool à BBC Sport.
Cash lembrou o precedente: "Acho que o Rafa [Nadal] e o Roger [Federer] entraram quando houve uma situação parecida por volta de 2011, e aquilo foi o fim das discussões."
A tradução é a seguinte: a proposta chegou exatamente na janela em que os jogadores com poder de veto estão ocupados demais para usá-lo. Glasspool também não escondeu o desgaste. "É irritante ter que lidar ou até pensar em coisas assim durante Wimbledon."
O número 1 do mundo chama a ATP de vergonhosa
Henry Patten divide o topo do ranking de duplas com o finlandês Harri Heliovaara e acabou de vencer Wimbledon 2026, seu segundo título no torneio. Virou o rosto público da resistência, e não usa eufemismo.
"Se você olhar o que a ATP fez com as duplas, e a estratégia e os esforços deles em torno disso, acho que é um belo estudo de caso de como matar um produto. Você pode olhar qualquer negócio ou qualquer produto do mundo, e o que a ATP fez é vergonhoso e sem nenhum tipo de estratégia para tentar consertar", afirmou o britânico.

O argumento dele desmonta a lógica de "corte de custos" apontando para onde o dinheiro vai. "Vai reduzir esse número e redistribuir os fundos para pessoas que já estão indo bem no tênis. Então eu acho isso uma decisão chocante, tornar o tênis um esporte mais elitista."
E levou para o lado pessoal, sem pedir desculpas por isso. "Daqui a 10 anos, se essas propostas avançarem, eles estão basicamente dizendo que pessoas como eu não deveriam estar no ATP Tour, o que eu levo bastante para o lado pessoal e acho errado."
As quadras cheias e o Instagram vazio
A defesa recorrente da reforma é que ninguém assiste duplas. Patten passou duas semanas coletando evidências do contrário. Na coletiva após o título, listou.
"Eu disse isso a semana toda, em cada rodada que jogamos, começamos na quadra 16, 17, algo assim. Plateia lotada. Depois jogamos na quadra 18, plateia lotada. Jogamos na quadra 2 algumas vezes, plateia lotada. Quadra 1, lotada. Hoje, lotada."
Sobre a promoção da modalidade, o britânico foi específico. "A realidade é que você precisa vencer um Slam ou estar na final de um Slam para chegar perto do Instagram deles. Não vejo por que não poderiam promover oito caras."
O número existe para dar razão a ele. Uma análise publicada pelo site australiano The First Serve auditou manualmente todo o conteúdo oficial da ATP produzido em 2026 até o fim de Wimbledon: todos os vídeos do YouTube do ATP Tour, todos os Shorts, os últimos mil posts do Instagram e todo o conteúdo da Tennis TV. As duplas apareceram em 11 de 1.768 peças. Isso dá 0,6%.
O comunicado coletivo dos jogadores já apontava a mesma coisa com outras palavras: parte do problema de audiência vinha do marketing sem brilho da ATP, do fracasso em explorar parcerias de transmissão e comerciais e da má produção e promoção dos eventos.
Um produto que recebe 0,6% do esforço de divulgação e depois é acusado de não vender.
O fogo amigo
Se a briga fosse só jogadores contra dirigentes, seria mais simples. Não é. Reilly Opelka usou o Instagram para tomar publicamente o partido oposto ao dos colegas.
"O problema não são as duplas… são os duplistas, com exceção de Granollers, Zeballos e Vasselin", escreveu o norte-americano.
E completou: "Não precisa ser gênio... ninguém assiste porque falta talento a eles."
Não é a primeira vez. Em fevereiro de 2025, desafiado por fãs sobre críticas anteriores, Opelka reafirmou a posição em vez de suavizá-la: "Deveriam 100% acabar com as duplas… É para jogadores de simples fracassados, não existe isso de duplista especialista."
As declarações circularam rápido e provocaram reação imediata dentro do circuito de duplas, com Patten entre os que responderam publicamente. Aí está o ponto que a ATP não precisa dizer em voz alta: existe um contingente de jogadores de simples que assinaria a proposta hoje. Opelka apenas fala o que muitos outros pensam com o microfone desligado.
A resposta da ATP
Questionada pela Associated Press sobre o comunicado dos jogadores, a ATP afirmou estar "avaliando o produto duplas, os tamanhos das chaves e a distribuição da compensação dos jogadores com o objetivo de criar um modelo mais sustentável a longo prazo, mantendo o importante papel das duplas no Tour".
A entidade acrescentou que alterar o modelo das duplas poderia ajudar a aumentar a premiação das rodadas iniciais das simples, "ajudando mais jogadores no mais alto nível a cobrir melhor os custos de competir no Tour e construir carreiras profissionais sustentáveis".
O argumento tem lógica interna: tirar de uma modalidade minoritária para socorrer os jogadores de simples que não sobrevivem das primeiras rodadas. O que ele não explica é por que a conta recai sobre os duplistas e não sobre o topo da pirâmide. Como observou o jornalista Jon Wertheim, os 20% das duplas não desaparecem. Eles mudam de mão.
O que vem agora
A proposta não foi aprovada. Foi apresentada ao Conselho de Jogadores e vazou. Não há prazo público para votação, e a ATP não divulgou os números financeiros que sustentariam o argumento de que as duplas dão prejuízo.
Patten definiu a estratégia da resistência de forma quase resignada: "A melhor coisa que posso fazer é vencer o máximo de partidas possível e entrar na sala de entrevistas para falar, porque essa é a melhor maneira de contar minha história e, com sorte, ajudar as pessoas a ver que gente como eu merece poder jogar tênis e ganhar a vida com isso."
Ele venceu Wimbledon. Entrou na sala de entrevistas. E, com o troféu na mão no meio da quadra central, escolheu não falar do jogo: "A ATP apresentou propostas para possivelmente cortar parte das duplas. Eu acredito firmemente que estamos aqui para fazer o esporte crescer." E completou: "Devemos ampliar as oportunidades para as crianças, sejam elas duplistas ou jogadores de simples. Devemos evoluir o esporte em vez de tirar oportunidades dele."
O microfone estava ligado. A questão é quem estava ouvindo.
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