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Em jogo mais tardio da história do US Open, Shelton bate Alcaraz em 4h27 e sonha com 1ª final de Slam

há 2 dias
6 min de leitura

O norte-americano Ben Shelton eliminou o bicampeão Carlos Alcaraz nas quartas de final do US Open, com parciais de 6/7 (5-7), 6/1, 6/3, 1/6 e 7/6 (10-7) fechadas em 4h27, e garantiu vaga na semifinal do último Grand Slam da temporada.


A vitória só terminou às 3h33 no horário local, 4h33 em Brasília, e entrou para a história como o fim de jogo mais tardio já registrado no US Open, superando a marca que pertencia a outro duelo do próprio Alcaraz, contra Jannik Sinner nas quartas de 2022, encerrado às 2h50. A rodada de terça-feira foi puxada por jogos longuíssimos tanto na chave masculina quanto na feminina, mas nenhum se estendeu tanto quanto este.


Tenista suado com faixa branca e raquete, em quadra, olhando sério para o lado, com público desfocado ao fundo.
Ben Shelton (Foto: Darren Carroll/USTA)

Foi também a primeira vitória do canhoto de 23 anos, 9º do ranking mundial, sobre Alcaraz em quatro confrontos no circuito: o espanhol havia levado a melhor no Masters 1000 de Toronto em 2023, na Laver Cup do ano passado e em Roland Garros, também em 2025.


O resultado garante, de quebra, um campeão inédito no US Open, já que o espanhol era o último ex-campeão remanescente na chave. Entre os que seguem vivos na disputa, apenas o alemão Alexander Zverev, atual campeão de Roland Garros, já venceu um Grand Slam na carreira.


Shelton chega à sua terceira semifinal de Grand Slam, a segunda no US Open (repetindo 2023), agora em busca de uma inédita final neste nível. Ele e o adversário de sexta-feira, o compatriota Frances Tiafoe, 12º do ranking na largada do torneio, tentam romper um jejum que dura desde 2003, quando Andy Roddick foi o último tenista da casa a erguer o troféu em Nova York.


A vitória mais prazerosa da carreira

Ainda em quadra, Shelton resumiu a noite em poucas palavras.


"Estou cansado, aquilo foi uma guerra, uma partida épica, muito física. Carlos já é um dos maiores campeões do nosso esporte com apenas 23 anos. É sempre divertido estar em quadra contra ele. Às vezes, algumas coisas que ele inventa são inacreditáveis. Com certeza foi a partida mais prazerosa que já tive na minha carreira", disse o americano.

O canhoto abusou da força: anotou diversos primeiros serviços na casa dos 230 km/h e, quando precisou arriscar no segundo, chegou a cravar 195 km/h. Devolveu com profundidade, manteve postura ofensiva o tempo todo e cedeu poucos pontos perto da rede, características que sustentaram sua melhor exibição diante de um adversário do nível de Alcaraz.


O bom momento não é acaso. Shelton chega a Nova York recém-coroado bicampeão consecutivo do Masters 1000 do Canadá, torneio em que, a caminho do título em Montreal, eliminou o brasileiro João Fonseca na quarta rodada por 6/3 e 7/6 (3).


Da desvantagem à virada

O primeiro set foi de altíssimo nível e durou mais de uma hora, com uma quebra para cada lado. Os sacadores enfileiraram dez games sem sequer enfrentar break points, até que Alcaraz se aproveitou de um game em que Shelton errou boa parte dos primeiros saques para abrir 6/5. O americano não confirmou a vantagem quando sacava para fechar a parcial, e o tiebreak seguinte produziu um dos pontos mais espetaculares de todo o torneio antes de o espanhol fechar por margem mínima.


Segundo o próprio Shelton, a virada começou a se desenhar ainda ali. "Fiquei irritado, mas consegui quebrar o saque do adversário no último game antes do tiebreak, então isso meio que me deu confiança para o segundo set", contou.


A segunda parcial teve games longos e chances para os dois lados. Shelton escapou de três break points e criou seis oportunidades de quebra antes de assumir a frente no placar, confirmando dois games sem ceder pontos e somando mais duas quebras para igualar a partida.


"Eu sabia que meu saque só iria melhorar. E se eu já tinha aperfeiçoado a devolução a ponto de conseguir quebrá-lo, achei que minhas chances de ganhar o segundo set eram boas. Depois que consegui engrenar no segundo set, quebrando o saque dele três vezes, ficou muito mais fácil jogar e sacar com mais liberdade", analisou.


No terceiro set, com Alcaraz aparentando cansaço nas pernas, Shelton abriu 3 a 0 com uma quebra cedo e sustentou a vantagem até o fim. No único break point que enfrentou na parcial, já sacando por 5/3, resistiu a um rali longuíssimo até o espanhol errar um forehand.

A devolução, aliás, foi apontada pelo próprio americano como a chave de sua primeira vitória sobre Alcaraz. "Acho que fui inteligente na forma como conduzi meus jogos de retorno. Acho que o fiz jogar bastante. Consegui me manter firme nas disputas. Ter um plano de jogo desde o início e ser capaz de executar esse plano sem perder todos os pontos de vantagem também ajuda nas devoluções", acrescentou.



Mesmo com o horário avançado, o público não deixava o Arthur Ashe Stadium, e boa parte da torcida apoiava Alcaraz, mesmo diante de um americano em quadra. O espanhol conseguiu uma quebra logo no início do quarto set, abriu vantagem na parcial e viu Shelton diminuir um pouco a intensidade no fim, que ficou com o espanhol.


Com o desgaste físico e emocional de mais de quatro horas de jogo, o quinto set voltou a ser disputado em alta intensidade e não teve uma única quebra. Shelton vinha confirmando o saque com mais tranquilidade, enquanto Alcaraz precisou salvar três break points. No tiebreak decisivo, equilibrado e com trocas de liderança, o espanhol mandou um forehand para fora quando perdia por 7 a 6, dando a Shelton a chance de fechar o jogo com duas bolas de saque a favor.


Um duelo 100% americano

Mais cedo, Frances Tiafoe já havia carimbado sua vaga com um dos triunfos mais marcantes da carreira: 5/7, 3/6, 7/5, 6/3 e 7/6 (8-6) sobre o compatriota Alex Michelsen, em 4h39 de partida. Michelsen chegou a sacar para o jogo ainda no terceiro set e teve vantagem de 3 a 0 no tiebreak decisivo, mas viu tudo escapar. Ao todo, a partida teve 40 break points, oito convertidos para cada lado. Ao final, Michelsen chorou no ombro do adversário, uma das cenas mais fortes deste US Open.


A campanha corona uma temporada de reconstrução para Tiafoe. Ele chegou a deixar o Top 30 pouco antes do Australian Open, foi até a final de Acapulco e as quartas de Miami para voltar ao 18º lugar, e era 26º quando conquistou Halle, seu quarto título de ATP na carreira e o primeiro em três temporadas. O vice-campeonato em Cincinnati, perdido para Arthur Fils, já indicava que ele poderia ir longe de novo em Flushing Meadows.


No retrospecto direto, Shelton leva vantagem por 3 a 1 sobre Tiafoe, com um triunfo para cada lado especificamente no US Open, sendo que o mais recente ficou com o canhoto, nas quartas de final de Washington em 2025. Com os resultados desta terça, Shelton assume provisoriamente o quarto lugar do ranking mundial, posição que só deve perder caso o próprio Tiafoe seja campeão, enquanto o adversário sobe ao 8º lugar.


Alcaraz, elegante na derrota

Carlos Alcaraz (Foto: Mike Lawrence/USTA)
Carlos Alcaraz (Foto: Mike Lawrence/USTA)

Do outro lado da rede, Alcaraz também tinha motivos para sorrir, mesmo derrotado. De volta às quadras depois de quase cinco meses afastado por lesão no punho, o espanhol deixou Nova York sem viver o resultado como um fracasso.


"Como eu disse antes do torneio começar, minha expectativa era ir lá, competir, jogar esse tipo de partida estando saudável. Foi por pouco. Então, não vou ficar desapontado por não ter conseguido a vitória no final. Sabe, estou feliz. Estou orgulhoso de mim mesmo, de como lutei", afirmou o número 3 do mundo.

O espanhol admitiu ter sentido o desgaste físico a partir do terceiro set, mas soube reencontrar forças. "No quinto set, comecei a me sentir cada vez melhor, mas sabe, eu estava jogando contra um cara que é uma fera", observou.


"Shelton é um jogador inacreditável, poderoso. Ele simplesmente conseguiu jogar muito, muito bem em todas as situações, então mérito para ele. Saio da quadra com um sorriso, saudável, e era disso que eu precisava", acrescentou Alcaraz, que amargou a primeira derrota para o americano em quatro confrontos, decidida justamente num tiebreak de quinto set.


Questionado sobre o momento decisivo, recorreu à memória de outro duelo apertado entre os dois. "O saque é uma arma muito boa nessas situações, às vezes você ganha, às vezes você perde. Lembro-me do último tiebreak que jogamos, em Paris. Foi uma partida incrível", disse, em referência ao confronto em Roland Garros no ano passado.


"Desta vez, quando você está tentando lutar e superar todos os problemas físicos que possa ter, fica muito cansado e, obviamente, quando ele está sacando, exerce muita pressão. Você está pensando em tentar devolver o saque, mas é uma incógnita se vai conseguir jogar o ponto ou se ele vai ganhar um ponto fácil", completou.


"Acho que nesses momentos ele tira muita vantagem com o saque. Não é desculpa, mas eu diria que esta é uma arma importante nesses momentos", finalizou o espanhol, que agora vai acompanhar de fora a primeira semifinal 100% americana do US Open desde 2003.


Sexta-feira, mais perto de 2003

Shelton e Tiafoe voltam a se enfrentar na sexta-feira, num confronto que já garante um americano na final do US Open pela primeira vez desde o título de Roddick. Questionado sobre o tempo de recuperação após quase quatro horas e meia de batalha, o canhoto não demonstrou preocupação. "São dois dias, acho que vou ficar bem", finalizou.


Vinte e três anos depois de Roddick, o tênis americano volta a sonhar. Shelton cuidou para que essa madrugada em Nova York entrasse para a história com o nome dele, não o de Alcaraz.


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