Falar do Madrid Open é lembrar de Thomaz Bellucci
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As semifinais do Madrid Masters 1000 de 2011 tinham quatro nomes. Três eram os melhores tenistas do planeta. O quarto era o 36º do mundo, um canhoto de Tietê que chegou à Caja Magica sem ser cabeça de chave e saiu com o melhor resultado de um brasileiro na história do torneio. Nenhum compatriota chegou mais longe desde então. No último domingo, João Fonseca caiu na terceira rodada do saibro madrilenho. A régua de Thomaz Bellucci continua no mesmo lugar.
Djokovic entrava na semifinal com 30 vitórias consecutivas na temporada. Não havia perdido uma partida sequer desde novembro de 2010. Havia acabado de bater David Ferrer em três sets na noite anterior. O mundo do tênis estava reorganizando sua hierarquia ao redor dele, e Madri era mais uma etapa desse processo. Bellucci era, na leitura mais generosa, um adversário agradável antes da decisão contra Nadal.

Mas o paulista havia chegado àquela semifinal com uma clareza rara sobre o que o saibro espanhol podia lhe oferecer. "As condições aqui em Madri são muito boas pra mim. A bola é mais rápida, consigo fazer mais pontos com o forehand e ser mais agressivo", havia dito à ATP durante a semana. Não eram palavras quaisquer. Era diagnóstico.
O caminho até lá
Bellucci começou a semana contra Pablo Andújar, especialista espanhol em saibro jogando em casa. Passou por ele com 6/4 e 6/2. Na segunda rodada, o alemão Florian Mayer levou a disputa para o tiebreak do primeiro set, que Bellucci cedeu por 6/7(5). Venceu o segundo por 6/3, abriu 3/0 no terceiro, e Mayer abandonou.
Nas oitavas, veio Andy Murray, quarto do ranking. O placar foi 6/4 e 6/2. Sem concessões, sem sustos. Bellucci disse à ATP o que achava da partida com a objetividade de quem não precisava de adornos: "O melhor jogo da minha carreira, foi um dia muito bom."
Era a maior vitória da sua carreira em termos de ranking. E havia mais um round pela frente.
Nas quartas, Tomas Berdych, sétimo do mundo. O tcheco construia pontos com a bola plana e veloz, empurrando os adversários para trás. Bellucci não foi para trás. Sacou bem, leu o jogo e usou as condições a seu favor para vencer por 7/6(2) e 6/3. "Berdych joga acelerando, mas consegui impor um jogo agressivo. Ontem joguei bem e hoje também", declarou à ATP.
Dois top 10 derrubados. Uma semifinal de Masters 1000. A primeira da carreira.
A semifinal que o Brasil não esquece
A partida começou como o roteiro alternativo que ninguém havia escrito. Bellucci quebrou Djokovic no quinto game do primeiro set e serviu no décimo para fechar: com um saque forçado e bem colocado, Djokovic não conseguiu devolver em quadra. Parcial: 6/4 para o brasileiro. Na segunda parcial, foi além: abriu 3/1 com mais uma quebra sobre o homem invicto da temporada.

O que aconteceu a seguir foi físico, não técnico. Bellucci foi atendido por problema na região posterior da perna direita. Continuou em quadra, mas a janela havia fechado. Djokovic, que até então cometera erros incomuns para seu nível, ajustou o que precisava ajustar. Devolveu a quebra, virou para 6/4 e dominou o terceiro set de ponta a ponta. Fechou em 6/1. Placar final: 4/6, 6/4, 6/1, em 2h10. (Confira os melhores momentos da partida no Youtube).
O tênis entre os dois havia sido, na maior parte da partida, alto. Pontos longos, defesas de qualidade, disputas que chegaram a 26 e 34 trocas. Bellucci terminou com mais winners que Djokovic. Mas terminou também do lado errado do placar.
O sérvio foi à final, venceu Nadal, depois venceu Rafa de novo em Roma. Chegou a Roland Garros com 41 vitórias na temporada, recorde da Era Aberta para inícios de temporada até então. Foi Federer, na semifinal, que encerrou o que ficou registrado como um dos maiores anos da história de um jogador no tênis masculino.
O que ficou
Bellucci havia sido 21º do mundo em 2010. Conquistaria ainda quatro títulos ATP: os suíços Gstaad (2009 e 2012) e Genebra Open (2015), e Santiago (2010). Em Monte-Carlo em 2012, bateria David Ferrer, quinto do ranking. Chegaria às quartas de final dos Jogos Olímpicos do Rio. Teve uma carreira sólida e longeva entre os melhores.
Mas nenhuma semana foi como aquela. Nenhuma outra colocou um brasileiro na posição de adversário real, e não de passagem, do melhor jogador do mundo. O 6/4 no primeiro set contra Djokovic, quando o sérvio estava 30-0 no ano e parecia inalcançável, ainda é o dado mais improvável que o tênis brasileiro produziu em Madri.
Fonseca tem 19 anos e tempo para mudar isso. Por enquanto, para os brasileiros, a Caja Magica ainda pertence ao Bellucci de 2011.
Os brasileiros na Caixa Mágica
A história do Brasil no Madrid Open é mais rica do que aparenta. São dois títulos e um vice nas duplas, uma semifinal histórica em simples e uma presença praticamente ininterrupta nas fases finais das chaves de duplas ao longo de duas décadas.
Simples masculino
O teto está fixado em 2011. Thomaz Bellucci é, até hoje, o único brasileiro a alcançar uma semifinal de simples no Masters 1000 de Madri, derrubando Andy Murray (nº 4) e Tomas Berdych (nº 7) no caminho antes de ceder ao invicto naquela temporada Novak Djokovic.
João Fonseca tem as aparições mais recentes nesse histórico. Em 2024, entrou pelo quali e foi eliminado na segunda rodada por Cameron Norrie. Já em 2026, como cabeça de chave, avançou com um WO de Marin Cilic e chegou à terceira rodada antes de ser parado pelo espanhol Rafael Jodar, 7/6(4), 4/6 e 6/1, em uma partida marcada pela quebra de raquete e advertência ao brasileiro.
Em 2024, Thiago Monteiro e Thiago Seyboth Wild chegaram simultaneamente à terceira rodada. Monteiro eliminou Stefanos Tsitsipas (nº 7) com duplo 6/4. Seyboth Wild passou por Lorenzo Musetti (cabeça 28) antes de ser parado por Carlos Alcaraz, 6/3 e 6/3.
Simples feminino
Beatriz Haddad Maia detém a melhor campanha feminina em simples: quartas de final em 2024. No caminho, eliminou Emma Navarro e Maria Sakkari (nº 6 do mundo) antes de ceder a Iga Swiatek por 4/6, 6/0 e 6/2. Em 2026, viveu uma das semanas mais difíceis da temporada: eliminada na estreia pela espanhola Jessica Bouzas Maneiro com duplo 6/1.
Duplas
É aqui que o balanço verde-e-amarelo em Madri ganha outra dimensão.
Marcelo Melo é campeão do Madrid Open de duplas: em 2017, ao lado do polonês Lukasz Kubot, levantou a taça na Caja Magica. É o maior resultado individual de um brasileiro nas duplas masculinas do torneio. Em 2026, jogando com Alexander Zverev, saiu logo na primeira rodada, derrubado por Luciano Darderi e Stefanos Tsitsipas, 7/5 e 6/4.
Beatriz Haddad Maia também tem um título de Madri nas duplas femininas: em 2023, ao lado de Victoria Azarenka, conquistou o WTA 1000 de pares. A final foi contra justamente Coco Gauff e Jessica Pegula, dupla que havia eliminado Luísa Stefani nas quartas daquele mesmo torneio.
Luísa Stefani chegou às quartas em 2023 (ao lado de Gabriela Dabrowski, eliminada por Gauff/Pegula) e repetiu a dose em 2024, quando a dupla Stefani/Schuurs também caiu nas quartas para as americanas Gauff e Pegula, 6/4, 3/6 e 10/5 no match tiebreak.
Bruno Soares é o brasileiro com o histórico mais extenso nas duplas masculinas do torneio. Chegou à final em 2013 ao lado de Alexander Peya, perdendo para os irmãos Bob e Mike Bryan por 6/2 6/3. Também foi semifinalista em 2009 e chegou às quartas em 2014, 2017, 2018 e 2019, com Peya e depois com Jamie Murray. Ao todo, acumula um histórico de 11 vitórias e 11 derrotas em Madri ao longo da carreira.
Rafael Matos e Orlando Luz estrearam como dupla 100% nacional em 2026, mas foram parados na primeira rodada por Alexander Bublik e Marc Polmans, 6/3, 6/7 e 10/6 no supertiebreak.
Uma nota sobre Guga
O maior tenista brasileiro de todos os tempos não figura nesse histórico, e a explicação é cronológica. O Madrid Open em saibro existe desde 2009. Gustavo Kuerten se aposentou em maio de 2008. Durante o auge da carreira dele, o torneio que ocupava o slot de prestígio no calendário europeu de terra batida não era Madri, mas sim Hamburgo, onde Guga venceu em 2000 e completou o que a ATP chamava de "Grand Slam do saibro": Roland Garros, Monte Carlo, Roma e o torneio alemão.
Quando o Masters da capital espanhola ainda existia em quadra rápida, entre 2002 e 2008, Guga já acumulava problemas no quadril que limitaram progressivamente sua participação no circuito. A Caja Magica de saibro que abriga as semifinais de Bellucci e os avanços de Fonseca é, por alguns meses, mais jovem que a aposentadoria do maior brasileiro da história do tênis.
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