“Ferrero, se estiver livre…”: carta bem-humorada propõe desafio ao ex-treinador de Alcaraz
- Raphael Favilla

- 20 de dez. de 2025
- 6 min de leitura

A saída de Juan Carlos Ferrero da equipe de Carlos Alcaraz continua produzindo repercussões que vão além da análise esportiva e dos bastidores financeiros. Em meio às discussões sobre contratos, poder e desgaste no alto rendimento, um episódio inusitado ganhou espaço nas redes e em sites especializados: uma carta aberta escrita por um tenista amador sênior norte-americano convidando Ferrero para assumir um novo, e improvável, desafio.
O autor é Mike Rogers, de 67 anos, jogador de torneios seniores nos Estados Unidos e criador do site Mike-Tennis.com. No texto, publicado poucos dias após o anúncio da separação entre Ferrero e Alcaraz, Rogers se dirige diretamente ao ex-número 1 do mundo com uma proposta carregada de ironia, afeto pelo esporte e reflexão sobre legado.
Logo no início, ele reconhece a dimensão do trabalho de Ferrero com Alcaraz. “Você pegou Carlos Alcaraz de um adolescente cru e o transformou em campeão de Wimbledon, número 1 do mundo e o rei não oficial do tênis”, escreve. Em seguida, lança a pergunta central da carta:
“Agora que você já fez tudo isso… o que vem depois?”
A resposta, segundo o próprio autor, poderia estar bem longe do circuito da ATP. Rogers se oferece como o próximo “projeto” do treinador espanhol: um atleta sênior que não conta com equipe multidisciplinar, não tem grandes recursos e convive com limitações físicas, mas mantém intacta a obsessão competitiva. “Não saco a 210 km/h, não tenho nutricionista e a única equipe que viaja comigo é um rolo de liberação e um tubo de pomada”, escreve, em tom autoirônico.
Ao longo do texto, Rogers brinca com o contraste entre o universo do tênis profissional e o circuito sênior. Onde antes Ferrero analisava Novak Djokovic, agora teria que estudar adversários que “ficam sem fôlego depois da terceira troca de bolas”. Onde havia Grand Slams, agora o objetivo seriam as chamadas Gold Balls, prêmios concedidos a campeões nacionais nas categorias veteranas nos Estados Unidos.
Mesmo temas sensíveis do momento vivido por Ferrero aparecem sob forma de humor. O autor menciona o cansaço provocado por anos de viagens constantes e propõe um modelo de trabalho totalmente remoto. “Você pode me treinar pelo Zoom, analisar meus jogos do sofá e assistir aos meus tie-breaks do terceiro set enquanto segura seu filho no colo”, sugere, antes de brincar com o fato de que o coaching em quadra é proibido no circuito sênior: “Posso usar um ponto eletrônico ilegal e fingir que estou ajustando meu aparelho auditivo.”
A questão financeira, apontada pela imprensa espanhola como central no rompimento com Alcaraz, também entra na carta de forma satírica. Rogers admite que não há premiação em dinheiro no tênis sênior, mas oferece dividir futuramente o valor de sua aposentadoria. “Estou disposto a repassar uma parte do meu cheque da Previdência Social. Pense nisso como prêmio diferido”, escreve.
Por trás da brincadeira, há uma mensagem clara sobre legado. Para Rogers, treinar um jovem fenômeno é extraordinário, mas ajudar alguém comum a ir além de seus próprios limites teria um valor simbólico ainda maior. “Qualquer um pode treinar um prodígio. Mas treinar alguém cujo aquecimento demora mais do que o primeiro set? É aí que as lendas são feitas”, afirma.
O tênis ainda é um jogo
O texto viralizou justamente por esse contraste. Em um momento em que Ferrero aparece no centro de disputas contratuais, cláusulas e estruturas de poder, a carta apresenta uma visão quase romântica do tênis: a do jogo jogado por amor, teimosia e prazer competitivo, mesmo quando o corpo já não responde como antes.
Não há qualquer indicação de que Ferrero tenha respondido à carta ou considerado a proposta. Mas, como peça de repercussão cultural, ela ajuda a ilustrar o tamanho simbólico do treinador espanhol no imaginário do tênis. Seu nome, hoje, é suficientemente grande para inspirar não apenas debates sobre contratos milionários, mas também sonhos improváveis de um jogador sênior que ainda acredita que pode ir além.
Em meio a um divórcio esportivo cheio de camadas, a carta de Mike Rogers funciona quase como um contraponto poético: lembra que, no fim das contas, antes de negócios, rankings e estruturas, o tênis ainda é um jogo.
A seguir, a tradução integral da carta escrita por Mike Rogers.
Juan Carlos Ferrero, se você estiver livre…
Uma carta aberta de um tenista sênior ao ex-treinador de Alcaraz
Caro treinador Ferrero,
Antes de tudo, parabéns. Você levou Carlos Alcaraz de um adolescente cru a campeão de Wimbledon, número 1 do mundo e rei não oficial do tênis. Esse tipo de sucesso fala por si só. Mas agora que você já fez tudo isso, tenho apenas uma pergunta:
O que vem depois?
Se você estiver procurando um novo desafio — um pouco menos ATP e um pouco mais terceira idade — posso sugerir… eu?
Sou um tenista de 67 anos tentando subir no ranking dos torneios seniores. Não saco a 210 km/h, não tenho nutricionista e a única equipe que viaja comigo é meu rolo de liberação muscular e um tubo de Voltaren. Mas tenho garra, coração e um saque que — em um bom dia — não resulta imediatamente em um lob por cima da minha cabeça.
Você trabalhou com um prodígio como Alcaraz. Agora, que tal um projeto? Imagine esse documentário da Netflix: De Roland Garros ao circuito da aposentadoria. Você orientando um cara cujo segundo dedo do pé pode sair do lugar a qualquer momento, mas que acredita com todas as forças que uma Gold Ball ainda é possível.
E, embora não exista premiação em dinheiro no tênis sênior…
Quero ser sincero sobre a compensação. Sei que você provavelmente ganhou muito dinheiro viajando o mundo com Carlos. No meu caso, não há prêmios da ATP. Mas estou disposto — quando começar a recebê-lo — a dividir com você parte do meu cheque da Previdência Social. Pense nisso como prêmio diferido.
Além disso, não seria bom fazer isso pelo coração? Pelo amor ao jogo. Pelo espírito competitivo. Pela chance de ajudar um guerreiro um pouco curvado a realizar seu sonho antes que as regras obrigatórias da aposentadoria entrem em vigor de vez. Depois que você vir meu jogo, acho que vai concordar: não é totalmente sem esperança.
E vamos facilitar sua vida…
Eu sei — você deve estar esgotado de tanto viajar. Salas VIP de aeroporto, camas de hotel, massas do serviço de quarto. Você provavelmente não desfaz uma mala há uma década. Não se preocupe. Vamos fazer tudo remotamente.
Que outro jogador do circuito pode oferecer isso?
Você pode me treinar pelo Zoom, analisar meus jogos do sofá e, se quiser realmente se sentir à beira da quadra, eu transmito meus tie-breaks do terceiro set ao vivo para você assistir enquanto segura seu filho no colo. Sem vistos, sem voos, sem apertos de mão suados com jornalistas.
E como o tênis sênior não permite coaching em quadra (embora isso fosse mais fácil do que tentar resolver o Wordle), você será o mago por trás da cortina. Vou usar um ponto eletrônico ilegal e fingir que estou apenas ajustando meu aparelho auditivo.
O que você ganha com isso?
Você vai virar uma lenda popular. O primeiro treinador profissional a decifrar o código do tênis sênior. Vai revolucionar o trabalho de pernas para jogadores com duas próteses de joelho. Vai dominar a arte de analisar adversários que não têm vídeos de destaque — só clipes borrados no YouTube de 2009.
Vamos tratar as Gold Balls como se fossem Grand Slams. Vamos estudar padrões como se eu fosse o Novak, e desmontar adversários como se você ainda estivesse preparando o Carlos para enfrentar Djokovic — só que, em vez de “atenção à curtinha de backhand”, será algo como “ele se cansa depois da terceira troca de bolas. Explore isso”.
Sejamos honestos. Isso é coisa de legado.
Qualquer um pode treinar um fenômeno. Mas treinar um cara cujo aquecimento demora mais do que o primeiro set? É aí que as lendas são feitas.
Então, se você estiver livre, treinador, estou pronto. Tenho torneios marcados, um caderno cheio de anotações táticas e o coração aberto. Vou trabalhar duro. Vou ouvir. Vou reclamar ocasionalmente de fascite plantar, mas vou aparecer.
E se tudo isso der certo? Prometo citar você em toda entrevista pós-jogo… assumindo que eu consiga recuperar o fôlego.
Vamos fazer história no tênis — versão sênior.
Com suor e estratégia,
Mike
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Genial. Ótimo texto.
Artigo espetacular… a história é muito boa mas o jornalista escreveu um reportagem muito boa.