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Finalista, Chwalinska é o grande nome desta edição de Roland Garros

  • há 20 horas
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 19 horas

A polonesa Maja Chwalinska venceu a russa Diana Shnaider por 7/6 (4) e 6/4, nesta quinta-feira, na quadra Philippe-Chatrier, e está na final de Roland Garros. É a nona vitória seguida dela em Paris, a primeira final de Grand Slam da carreira e, sobretudo, um feito que o torneio nunca tinha visto: nenhuma tenista jamais saiu do qualifying e chegou à decisão em Roland Garros. Até agora.


Comecemos pela conta que o tênis raramente vê fechar. Chwalinska disputou três rodadas do quali, passou por cinco adversárias no quadro principal e perdeu um único set em toda a campanha, contra Maria Sakkari na terceira rodada. Pelo caminho, despachou Zheng Qinwen, Elise Mertens, a própria Sakkari, a francesa Diane Parry, Anna Kalinskaya nas quartas e agora Shnaider. Quatro delas eram top 50, três top 30: Mertens (21ª), Kalinskaya (24ª) e Shnaider (23ª). Antes desta quinzena, Chwalinska nunca havia batido uma top 50 na carreira.


Tenista ajoelhada na quadra de saibro, mão na boca, emocionada; estádio desfocado ao fundo e uniforme amarelo e preto.
Maja Chwalinska (Foto: Julien Crosnier/FFT)
A semifinal

O duelo com Shnaider foi disputadíssimo. Só o primeiro set consumiu praticamente o mesmo tempo que a semifinal anterior, entre Mirra Andreeva e Marta Kostyuk.


Em momento algum, porém, a polonesa ficou com quebra atrás. Variando as bolas, aproveitou o break no quarto game, batendo o saque de Shnaider de zero. A russa devolveu na sequência. Chwalinska perdeu um break-point no sexto game, salvou dois no 11º e levou a definição para o tie-break. Lá, viu Shnaider abrir 4 a 2, então venceu cinco pontos seguidos e fechou a parcial.


No segundo set, o roteiro se repetiu: a polonesa quebrou logo de cara, a russa devolveu na sequência. O equilíbrio durou até um game mal jogado de Shnaider, que recebia atendimento nas costas e no quadril. Chwalinska farejou o sangue na água, conseguiu a quebra no nono game, abriu 5/4 e confirmou para carimbar a vaga. Foram 2h10 de batalha.


"Eu não sabia se ia voltar": a jogadora que largou a raquete

Para entender o tamanho do que aconteceu, é preciso voltar a 2021. Depois de cair no qualifying de Wimbledon, então com 19 anos, Chwalinska anunciou no Instagram uma pausa por tempo indeterminado. Convivia com depressão havia dois anos. O tênis, para ela, tinha virado sinônimo de "pressão, estresse e choro".


"Eu simplesmente não conseguia mais sair da cama. Eu estava sem vida, para ser sincera", contou a polonesa ao longo da semana. "Eu sabia que precisava de uma pausa, porque senão eu simplesmente não consigo viver, eu acho. Sinceramente, eu não sabia se ia voltar ou não."


Ela ficou cerca de quatro meses fora do circuito. Voltou a morar na casa da família, procurou um especialista, experimentou corrida e boxe. Quando reencontrou o caminho até as quadras, foi com outras ferramentas na cabeça. "Depois de quatro meses, decidi voltar. Eu precisava primeiro organizar algumas coisas na minha cabeça… Estou feliz por ter voltado", disse. Doze meses depois, já em Wimbledon 2022, fez sua estreia em uma chave principal de Grand Slam. O resto veio aos poucos, nos circuitos ITF e nos WTA 125.


A tempestade por dentro

Em quadra, Chwalinska parece o oposto de quem um dia associou o tênis a sofrimento: serena, econômica nas reações. Ela garante que a aparência engana. "Parece um sonho, sinceramente. Não sei exatamente o que está acontecendo. Foi uma mistura de alegria, surpresa e muitas emoções", disse após a vitória sobre Shnaider. E completou: "Eu tento manter a compostura porque sei que isso me ajuda a jogar meu melhor tênis. Mas por dentro existe uma tempestade, podem acreditar".


A calma, aliás, foi a chave que ela própria identificou já na vitória sobre Kalinskaya, nas quartas, sob vento forte: "Sinto que o que fiz bem foi simplesmente manter a calma quando estava 5 a 1, e a Anna começou a jogar muito mais agressiva, e ficou 5 a 5. Estou muito orgulhosa de ter mantido a compostura e conseguido vencer esse set."


"As pessoas a subestimam", alerta Shnaider

Do outro lado da rede, Shnaider saiu derrotada, mas não economizou elogios. A russa, que nas quartas eliminara a número 1 Aryna Sabalenka ao vencer dez games seguidos numa virada espetacular, reconheceu o mérito da polonesa e cravou que o estilo dela combina com o saibro.


"Estou muito orgulhosa do que conquistei nessas duas semanas. Foram muitas experiências novas e novos objetivos alcançados. Deixei tudo em quadra e saio orgulhosa da forma como lutei. Ela mereceu essa vitória e a vaga na final", afirmou.


Sobre o jogo da adversária, foi minuciosa. "Maja se movimenta incrivelmente bem. Cobre a quadra inteira e lê o jogo muito de forma espetacular. Quando você acha que ganhou o ponto, ela ainda está lá. E não apenas devolve a bola, mas faz isso de uma forma muito desconfortável para a adversária", avaliou. E detalhou os recursos: "Ela tem muita variedade, joga com bastante spin. O forehand gera bastante efeito e o backhand com slice deixa a bola baixa, com as curtinhas funcionando muito bem. O estilo dela combina perfeitamente com o saibro".


O recado mais afiado, porém, foi sobre a percepção do circuito. "Acho que às vezes as pessoas subestimam as jogadoras por causa disso", disse, referindo-se ao ranking baixo e à origem no qualificatório. "Um torneio pode mudar completamente uma carreira. Ela está extremamente confiante, jogando um grande tênis e vivendo um momento especial. Não importa qual seja o ranking."


A russa também fez autocrítica: "Eu poderia ter sido mais corajosa e agressiva, especialmente subindo mais à rede. Conseguia pressionar do fundo, mas tinha dificuldade para finalizar os pontos porque ela cobre a quadra muito bem". A campanha, ainda assim, deixou Shnaider perto do inédito top 10.


"Fanática por tênis": a leitura de jogo que vem de longe

Chwalinska credita parte da campanha a um hábito antigo: estudar as adversárias e, antes disso, simplesmente amar o esporte a ponto de assisti-lo por horas. "Uma das coisas que faço é estudar minhas adversárias. Tento entender o jogo delas. Mas também acho que isso vem de forma natural", explicou. "Quando era mais nova, passava o dia inteiro assistindo tênis. Eu adoro acompanhar partidas e sinto que isso me ajuda a ler melhor o jogo."


Amiga de longa data de Iga Swiatek, com quem dividiu quadras desde o juvenil, Chwalinska seguiu caminho diferente na escolha do ídolo. Enquanto Iga cresceu admirando Rafael Nadal, Maja teve Roger Federer como referência máxima. "Eu era a fã número 1 do Roger. Quando comecei a jogar tênis, tudo girava em torno dele. Depois vieram Rafa e Novak. Agora só torço para que o Djokovic continue jogando para que eu ainda possa vê-lo em quadra", disse. E acrescentou: "Sou muito grata por ter crescido nessa época. Às vezes gosto de assistir a partidas antigas deles e parece poesia".


Sem patrocínio de material e uma pizza por dia

A campanha improvável também rendeu cenas curiosas. Chwalinska revelou que segue sem fornecedor de material esportivo: "Não sou patrocinada", afirmou. E contou que a comissão técnica adotou um ritual durante o torneio. "Não sou supersticiosa, mas eles são. Estão comendo pizza todos os dias. É sério. Já estamos aqui há três semanas e acho que eles vão ganhar peso. Mas não posso contrariá-los, então talvez isso esteja ajudando."


Não é o primeiro aperto logístico da quinzena. Antes, com a campanha esticando além do previsto, a polonesa chegou a ter dificuldade para bancar o hotel nas fases finais, já que o prêmio só é pago após o torneio, até a empresa polonesa Oshee entrar em cena para ajudar. "Foi uma coisa engraçada", contou na ocasião.


Os números de uma campanha que entrou para a história

Com a vaga na decisão, Chwalinska se torna a primeira tenista a sair do qualifying e chegar à final de Roland Garros na história do torneio, e a segunda a fazê-lo em Grand Slam, repetindo o feito de Emma Raducanu no US Open de 2021. Ela é também apenas a terceira mulher a alcançar a final em Paris em sua estreia no quadro principal, ao lado de Evonne Goolagong (1971) e Chris Evert (1973).


No 114º lugar do ranking, será a terceira finalista mais mal ranqueada da história das decisões de Slam, atrás apenas de Raducanu, que era a 150ª no título do US Open de 2021, e da belga Kim Clijsters, que sequer tinha ranking quando venceu Nova York em 2009.


Há ainda os marcos do estilo: caso vença, Chwalinska será a primeira canhota a faturar Roland Garros desde Monica Seles, em 1992, e a primeira canhota finalista por aqui desde a tcheca Marketa Vondrousova, em 2019. O contexto de carreira torna tudo mais improvável: desde 2025, ela havia vencido apenas nove partidas de quadro principal em nível WTA, das quais seis foram nesta campanha em Paris.


A sombra e a herança de Swiatek

Uma polonesa indo bem em Paris não é novidade. Iga Swiatek venceu quatro vezes por aqui. A questão é que, neste ano, a polonesa que sobrou no quadro não foi Swiatek, eliminada na quarta rodada por Marta Kostyuk, nem Magda Linette. Foi Chwalinska, antiga parceira de duplas de Iga no juvenil.


As duas se conhecem desde os 10 anos, estrearam como profissionais no mesmo torneio, em Zawada, na Polônia, em 2015, e foram vice-campeãs de duplas do Australian Open juvenil de 2017. De lá para cá, os caminhos divergiram de forma brutal. Nesta quinzena, não houve troca de táticas, apenas mensagens de parabéns. "Definitivamente temos uma longa história juntas, ela é uma grande campeã e uma enorme inspiração para todos nós na Polônia", disse Chwalinska. Com o resultado, ela se torna a quarta polonesa da Era Aberta a chegar a uma final de Grand Slam e ameaça entrar de vez no clube de Swiatek na parede de campeãs de Roland Garros.


A final de sábado para a Cinderela vinda do quali

Garantida em forte salto no ranking, da modesta 114ª colocação rumo às imediações do top 20, Chwalinska enfrenta no sábado, às 10h (horário de Brasília), a russa Mirra Andreeva, número 8 do mundo e cabeça de chave 8, que mais cedo despachou Marta Kostyuk por 6/1 e 6/3 para fazer sua primeira final de Slam. Será uma decisão de estreantes: nenhuma das duas jamais disputou uma final de Grand Slam.


Curiosamente, Andreeva é compatriota e muito próxima de Shnaider, que já se ofereceu para aconselhar a amiga. "Se ela me pedir, vou dar minha avaliação sincera da partida. Acho que será importante ser agressiva, aproveitar o saque e subir à rede", garantiu a russa derrotada.


Chwalinska, por sua vez, prefere respirar antes de mergulhar na decisão. "Já joguei nove partidas aqui, então não há muitos segredos. Vi um pouco do jogo dela e foi impressionante. É mais uma grande experiência para mim. Vou dar tudo de mim porque é uma final de Grand Slam. Mas primeiro quero aproveitar este momento, respirar um pouco e me recuperar da melhor forma possível", disse. Para uma jogadora que, há poucos dias, se descrevia como anônima, o roteiro mudou rápido. Agora tem história, e uma final.

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