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Fonseca completa 20 anos com dois títulos ATP e olhar pro futuro: "Eu quero ser um novo João"

  • há 16 minutos
  • 6 min de leitura

João Fonseca completa nesta sexta-feira 20 anos em casa, ao lado da família no Rio de Janeiro, tratando a lesão no lado esquerdo do abdômen que o tirou do Masters 1000 de Cincinnati antes da terceira rodada, cercado pelo carinho dos amigos e pela admiração de uma torcida que aprendeu, em pouco mais de dois anos, a organizar o dia em função dos jogos dele.



Não é um aniversário de balanço. É de meio de caminho. Aos 20, o carioca é o 26º do mundo, número 1 do Brasil, dono de dois títulos ATP em simples, um em duplas e da melhor campanha de um brasileiro na chave masculina de um Grand Slam desde 2004: as quartas de final de Roland Garros, em junho. O momento tem um senão, e ele não é técnico. A lesão que o levou de volta ao Rio não é considerada grave, e o alvo é o US Open, último Grand Slam da temporada, que começa em 30 de agosto.


A contusão apareceu num treino, no início da semana. "Durante o treino senti um pequeno incômodo no lado esquerdo do abdômen", escreveu Fonseca em nota publicada nas redes sociais. Depois de exames, ele e a equipe decidiram desistir da competição para se dedicar à recuperação. Antes disso, o brasileiro havia superado o holandês Botic van de Zandschulp e igualado sua melhor campanha em Cincinnati.


O ativo que a ATP percebeu antes do Brasil

Os bons resultados, a energia e o carisma de Fonseca fazem bem ao tênis, como observou o site da ATP nesta semana, ao tratar da nova geração que vem estimulando o crescimento do esporte no mundo inteiro. Apesar de jovem, o talento dele tem ajudado a atrair público em suas partidas, e não só brasileiros. Fonseca já é atração internacional por onde passa, requisitado para entrevistas, sessões de autógrafos e vídeos para as redes sociais.


Fernando Meligeni, ex-top 25 e semifinalista de Roland Garros, resumiu esse efeito em uma homenagem publicada nesta sexta-feira. O ex-tenista escreveu que João "é um espelho para muita gente", e destacou que o garoto não joga para a torcida: traz a torcida para jogar com ele.



O menino que largou o surfe aos 11

O jovem carioca acumulou conquistas e resultados positivos desde antes de se profissionalizar, em 2023. Nasceu em 21 de agosto de 2006, no Rio, e demorou até escolher a raquete. Antes dela, houve surfe, vôlei, futebol e escalada. A decisão veio aos 11 anos, quando conheceu o técnico Guilherme Teixeira, que o acompanha desde então e a quem João já chamou de segundo pai.


Aos 17 anos, Fonseca ganhou notoriedade ao se tornar número 1 do ranking mundial juvenil, após a conquista do US Open, além de ter participação na conquista da primeira Copa Davis Júnior para o Brasil. Havia um acordo fechado com a Universidade da Virgínia. Ele não foi.


Jeddah, 2024: o aviso de Roddick

Em Jeddah, na Arábia Saudita, em dezembro de 2024, conquistou o Next Gen, torneio sub-20, de forma invicta, em final contra o americano Learner Tien. A frase que melhor previu o que viria não foi dita por nenhum analista brasileiro.


"Eu quero dizer que Fonseca, que ganhou o Next Gen Finals, esse garoto é 'foda'! Ele vai ser um problema para muitas pessoas no circuito", previu Andy Roddick, na ocasião, em seu podcast.


Um mês depois, na estreia em chave principal de Grand Slam, Fonseca despachou o russo Andrey Rublev, então nº 9 do mundo, na primeira rodada do Australian Open de 2025. O problema começava a se materializar cedo.


Os primeiros títulos de ATP antes do esperado

Os dois primeiros títulos ATP vieram em 2025, no ATP 250 de Buenos Aires e no ATP 500 da Basileia, seu maior troféu até agora.


"É incrível. Quero agradecer à minha família e aos meus treinadores, que me ajudaram a alcançar esse feito extraordinário", disse Fonseca na oportunidade. "Meus pais tinham acabado de chegar do Brasil; eles estavam a caminho de Paris, mas mudaram o voo e vieram para cá com meus tios, chegando uma hora antes da partida. É maravilhoso tê-los aqui para o maior título da minha carreira. É um prazer praticar este esporte e disputar este torneio, estou muito feliz."


Além dos primeiros títulos, a temporada passada foi marcante na carreira de Fonseca pela disputa de seus primeiros torneios de Grand Slam, alcançando a 2ª fase no Australian Open e a 3ª rodada em Roland Garros e Wimbledon. No Masters 1000 de Paris, ao alcançar a segunda etapa, garantiu o 24º lugar na classificação mundial, seu melhor ranking na carreira até agora.


Em fevereiro deste ano, veio um troféu que quase ninguém tinha na lista de apostas: o de duplas do Rio Open, ao lado de Marcelo Melo, parceria montada dias antes do torneio. Foi o primeiro título de duplas da carreira e o 41º de Melo. "Você é um cara extremamente especial dentro e fora de quadra", disse o mineiro ao parceiro na cerimônia. João aceitou o elogio e devolveu uma promessa: "ainda vou conquistar o torneio de simples do Rio Open".


2026: os grandes nomes, um a um

Neste ano aconteceram os primeiros duelos com nomes importantes do circuito e o que Roddick previu foi se concretizando. No Masters 1000 de Indian Wells, eliminou Karen Khachanov e Tommy Paul, antes de cair diante de Jannik Sinner em dois apertados tiebreaks. Depois, enfrentou Carlos Alcaraz em Miami e fez quartas em Monte Carlo, perdendo para Alexander Zverev.


29 de maio: 4h53 na Philippe-Chatrier

Em Roland Garros, cruzou com Novak Djokovic na 3ª rodada e protagonizou uma emocionante vitória, de virada, sobre o recordista de títulos de Grand Slam, com parciais de 4/6, 4/6, 6/3, 7/5 e 7/5.


"Na verdade, eu não acreditava que poderia vencer", disse Fonseca em sua entrevista em quadra. "Eu apenas joguei, apenas curti estar em quadra."


O jogo durou 4h53, o mais longo de Djokovic no saibro parisiense. Foi apenas a segunda vez na carreira em que o sérvio perdeu depois de abrir 2 sets a 0 no torneio, e a primeira vez que um brasileiro o venceu em chave principal.


Na quarta rodada, ao vencer o norueguês Casper Ruud, então nº 16 do mundo, garantiu vaga nas quartas de final do Aberto da França, sua melhor campanha em um Grand Slam.

"Ainda não cheguei ao meu limite, mas já sei que consigo me sentir confortável com o meu físico", disse o brasileiro. "Acho que me sinto mais confortável com o meu jogo, com a maneira como estou jogando e com o fato de minha mentalidade estar no caminho certo", avaliou.


Nas quartas, sob teto fechado por causa da chuva, o tcheco Jakub Mensik venceu por 6/4, 6/3 e 7/6 (3). Fonseca salvou seis match points antes de perder o tiebreak. Era o fim de uma fila de 22 anos: nenhum brasileiro chegava a essa altura da chave masculina em Paris desde Guga, em 2004.


O corpo como adversário

A conta de 2026 tem outro lado. Fonseca chegou a cinco torneios perdidos por lesão na temporada, segundo levantamento do jornal O Paraná: Brisbane, Adelaide, Hamburgo, Eastbourne e agora Cincinnati. A temporada começou com um problema na lombar que o tirou dos dois preparatórios australianos e o levou a revelar, em comunicado, que nasceu com uma questão na coluna e sofreu uma fratura por estresse cinco anos antes. É crônico. Ele sabe.


Ainda assim, o retrospecto é favorável. E os números da comparação, que ele detesta, insistem em aparecer: Guga foi campeão de Roland Garros aos 20 anos e 9 meses.


"Eu quero ser um novo João"

Sobre o rótulo, ele já se pronunciou, e sem rodeios. Em entrevista ao CNN Esportes S/A exibida em agosto, disse: "Eu quero ser um novo João". À Rádio Itatiaia, que também repercutiu a conversa, acrescentou que espera um dia fazer "pelo menos um terço do que ele fez".


Do outro lado, o próprio Guga já deu seu veredito. Em conversa no Senior Experience, em maio, publicada pela Exame, o tricampeão de Roland Garros foi direto ao falar de João: "É um menino jamais visto com essa idade no tênis brasileiro".


Próximos compromissos

Tudo agora aponta para Nova York. A chave principal do US Open começa em 30 de agosto, e Fonseca defende 70 pontos no torneio. São menos de duas semanas para o abdômen responder. Depois disso, a expectativa é de gira asiática.


Vinte anos, 26º do mundo, dois títulos ATP, uma vitória sobre Djokovic. E o corpo, sempre o corpo, ditando o calendário.

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