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Geração de ouro brasileira brilha em Paris

  • há 23 horas
  • 5 min de leitura

Por quase quatro décadas o Brasil não colocava uma adolescente entre as quatro melhores do mundo juvenil em Roland Garros. Victória Barros mudou isso. Aos 16 anos, com vento contra e um set perdido logo na largada para administrar, a potiguar virou contra a sul-coreana Ha Eum Lee por 2/6, 6/1 e 6/4 e enterrou um tabu de 39 anos. E não fez isso sozinha. No mesmo dia, o goiano Guto Miguel e o mato-grossense Leonardo Storck asseguraram que o Brasil terá um finalista na chave masculina sem depender de mais nenhum resultado, já que se enfrentam na semifinal.


Guto Miguel (Foto: FFT)
Guto Miguel (Foto: FFT)

Três brasileiros nas semifinais juvenis de um mesmo Grand Slam. É a primeira vez na história. E aconteceu justamente em Paris, no torneio que mais mexe com o torcedor brasileiro.


Victória no coração

A campanha de Victória tem sido uma sucessão de batalhas. Terceira cabeça de chave e número 4 do ranking juvenil, ela já havia levado um "pneu" da tcheca Denisa Zoldakova na rodada anterior, antes de se reerguer e fechar por 6/3, 0/6 e 6/3. Contra Ha Eum Lee, repetiu o roteiro de três sets, dessa vez começando atrás no placar. A diferença esteve, segundo a própria, em outro lugar que não a técnica.


"No primeiro set eu estava muito negativa, mas pensei que poderia ser minha última oportunidade de avançar para uma semifinal. Então, dei tudo o que tinha ali. Hoje foi muito no coração. Agradeço à torcida, que me ajudou bastante. Gosto de jogar assim. Nos momentos em que precisei, a torcida me ajudou", ponderou a brasileira.


Victória Barros (Foto: Mouratoglou Tennis Academy)
Victória Barros (Foto: Mouratoglou Tennis Academy)

O vento de Paris atrapalhou. O estilo da adversária, mais ainda. "Ela conseguia permanecer mais nos pontos, me empurrar para trás, e eu não gosto desse tipo de jogo, porque me faz pensar muito", avaliou. No terceiro set, conta, as duas estavam nervosas, trocando break-points e disputando pontos longos. Venceu quem manteve a cabeça no lugar nos detalhes.


Com a vitória, Victória se tornou a primeira juvenil brasileira a chegar à penúltima rodada de Roland Garros desde 1987, quando a paulista Andrea Vieira, a Dadá, foi semifinalista. Antes dela, Gisele Miró (1986) e Niege Dias (1984) haviam alcançado as quartas. Beatriz Haddad Maia jogou duas finais seguidas no torneio, em 2012 e 2013, mas nas duplas. Nenhuma brasileira chegou à decisão de simples juvenil em qualquer Slam. Victória pode ser a primeira. Para isso, terá pela frente a chinesa Xinran Sun, número 2 do mundo e cabeça de chave 2, que despachou a sérvia Anastasija Cvetkovic por 6/0 e 6/2 em 56 minutos.


"Estou muito feliz por alcançar as semifinais. É o meu melhor resultado até agora em um Grand Slam. Agora é só me divertir e levar como aprendizado tudo o que fiz de bom hoje para ir com tudo no próximo jogo", garantiu Vic.


Nas duplas, porém, o dia teve outro desfecho. Cabeça de chave 1 ao lado da espanhola Paola Piñera, Victória começou bem diante das norte-americanas Jordyn Hazelitt e Welles Newman. Mas as adversárias voltaram melhores após longa paralisação pela chuva e viraram o duelo por 4/6, 7/6 (7-4) e 10-8, em 1h48.


A semifinal que o Brasil nunca teve

Do outro lado do complexo, dois brasileiros resolveram o problema antes mesmo de a semifinal ser disputada: um deles, fatalmente, vai à final. Guto Miguel, goiano de 17 anos e principal cabeça de chave com a ausência do atual número 1 do ranking, perdeu seu primeiro set no torneio diante do austríaco Thilo Behrmann, mas avançou por 6/4, 1/6 e 6/3. Do outro lado da chave, Leonardo Storck fez o que vem fazendo a semana inteira: derrubou mais um favorito.


Leonardo Storck (Foto: FFT)
Leonardo Storck (Foto: FFT)

Os números do mato-grossense impressionam. Storck entrou no torneio como convidado, ocupa apenas a 56ª posição do ranking juvenil e já eliminou três cabeças de chave seguidos: o porto-riquenho Yannick Alvarez, o cazaque Zangar Nurlanuly, em quase três horas de jogo, e agora o norte-americano Jack Kennedy, quarto favorito e ex-top 3, por 6/3 e 7/6 (7-1). É a primeira vez que disputa Roland Garros e apenas o seu segundo Grand Slam.


"Muito feliz com essa vitória de hoje. Semifinal de Grand Slam, primeira vez jogando em Roland Garros, então a emoção está bem alta. Só tenho a agradecer a Deus, a minha família que me apoia sempre, ao meu time da Rio Tennis Academy e todos os brasileiro na quadra me apoiando. Sou grato a todos vocês. É mais um passo dado, seguimos com a rotina. Amanhã tem mais", disse Leo Storck após a partida.


O "amanhã tem mais" é a semifinal contra Guto, nesta sexta-feira, por volta das 7h30 de Brasília. Será a primeira vez que dois brasileiros se enfrentam numa semifinal de simples de um Grand Slam juvenil. E a primeira vez desde 1967, quando Luís Felipe Tavares foi vice, que o país terá um finalista de simples no maior torneio de saibro do mundo. Antes dele, Thomaz Koch (1962 e 1963) e Edison Mandarino (1959) também chegaram à decisão e pararam no vice. O Brasil nunca venceu uma final de simples juvenil em Roland Garros. Nas duplas, sim: Gustavo Kuerten em 1994 e Matheus Pucinelli em 2019.


Guto comemorou o momento sem se descolar do coletivo. "O Brasil está vivendo um grande momento novamente e, neste torneio em especial, temos muita história. Aqui em Roland Garros, é sempre um prazer jogar e eu sempre me divirto muito. Ainda estamos nas semifinais, então vamos continuar assim", disse em entrevista ao site da ITF. Sobre o set perdido para Behrmann, foi objetivo: "Perdi o segundo set por 6-1, mas acho que me mantive focado, controlei o que pude e consegui a vitória".


Pela campanha, Storck salta mais de 30 posições e deve fechar em torno do 20º ou 21º lugar do ranking mundial. Não é pouco para quem entrou de convidado.


O conselho de João Fonseca

Há um fio que conecta toda essa geração, e ele atende pelo nome de João Fonseca. O carioca, que fez nesta edição o melhor resultado de um brasileiro na chave principal masculina desde Gustavo Kuerten em 2004, ao chegar às quartas, virou referência para os mais novos. Guto não esconde.


"Com certeza, ele é uma inspiração e, quando treinávamos, ele me dava muitos conselhos", contou Guto. "Ele disse para eu ser humilde, não me importar com o que os outros dizem sobre mim, apenas cuidar de mim mesmo e fazer as coisas que eu posso controlar. Com certeza, ele é uma inspiração".


Há também um detalhe de geografia que vale registrar. Guto é goiano, Storck nasceu no Mato Grosso e Victória surgiu no Rio Grande do Norte. Nenhum dos três veio dos centros tradicionais do tênis nacional. E Nauhany Silva, a Naná, paulistana de origem humilde, chegou às quadras públicas levada pelo pai. Quinta favorita e número 9 do ranking juvenil, ela caiu nas oitavas para a espanhola Charo Esquiva por 2/6, 6/2 e 6/4, depois de vencer o primeiro set com facilidade e perder qualidade nas condições difíceis. Saiu antes das quartas. Mas faz parte da mesma história: a de que o talento brasileiro está espalhado pelo país afora.


O dia pode não terminar nos juvenis

E há ainda mais um capítulo possível para o tênis brasileiro nesta sexta-feira. Luísa Stefani, ao lado da canadense Gabriela Dabrowski, disputa a semifinal das duplas femininas contra a dupla número 1 da temporada, a tcheca Kateřina Siniaková e a norte-americana Taylor Townsend. É a primeira vez que a brasileira chega à semifinal de Roland Garros. Se avançar, será a primeira brasileira numa final de duplas femininas em Paris desde Maria Esther Bueno, em 1961. A campanha já garantiu a Stefani o melhor ranking da carreira, com entrada assegurada no top 7.


Num Grand Slam de tantos feitos históricos, o Brasil resolveu não ficar de fora. Três adolescentes nas semifinais juvenis, um finalista de simples masculino assegurado, uma decisão feminina iguala ou supera tudo o que se fez em quatro décadas. A pergunta que fica não é se vem aí uma geração vencedora. É quanto dela já chegou.

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