Histórico! Fonseca bate Djokovic em Roland Garros em batalha de quase 5h
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João Fonseca venceu Novak Djokovic por 4/6, 4/6, 6/3, 7/5 e 7/5, nesta sexta-feira, na terceira rodada de Roland Garros, e se tornou o primeiro brasileiro a derrotar o sérvio em uma chave principal em toda a história. Foram 4h51 de jogo, a partida mais longa da carreira do carioca e a mais longa de Djokovic em todas as suas edições do Major francês.
Ainda em quadra, sem fôlego, Fonseca tentou traduzir o que tinha acabado de fazer. "Estou arrepiado, sério. Estou sem palavras, sinceramente, ainda nem caiu a ficha ainda", disse à ESPN, em entrevista a Bruno Soares. "Estou nem conseguindo pensar direito. Falar, muito menos. Só estou curtindo o momento. E, caraca, que momento!", vibrou o brasileiro após bater o ex-número 1 do mundo.
O número que melhor mede o tamanho do que aconteceu na quadra parisiense não está no placar. Está no calendário. Quando Djokovic disputou sua primeira partida no circuito da ITF, em 2003, Fonseca ainda não havia nascido: o carioca veio ao mundo em 21 de agosto de 2006, menos de um mês depois de o sérvio levantar seu primeiro troféu profissional, em Amersfoort. Entre os dois, há mais de duas décadas de diferença e um abismo de experiência. Djokovic chegou a esta sexta-feira com 24 Grand Slams, mais de 100 títulos e 428 semanas como número 1 do mundo.
O sérvio, maior vencedor da história em Grand Slams, jamais havia perdido para um tenista com menos de 20 anos em um dos quatro Majors. Eram 18 adversários nessas condições, 18 vitórias. Fonseca, com 19 anos, é o 19º, e o primeiro a sair de quadra com o triunfo.
Depois do segundo set, nem ele apostaria nisso. "Eu acho que nem eu acreditava, depois do segundo set, tinha a certeza que ele iria me destruir", admitiu. "Ele mudança a direção de forma 'ridícula' [na gíria carioca, 'de forma excepcional']. Eu batia forte, ele voltava na paralela. Estava em todos os lados." O carioca descreveu um adversário que não dava pista nenhuma: "Chegou uma hora que virei pro meu treinador e falei 'Cara, não sei o que fazer'. Batia bola alta ele encurtava, dava bomba e ele retornava".

A última vez que Djokovic caiu antes das oitavas em Roland Garros havia sido em 2009, quando perdeu para o alemão Philipp Kohlschreiber na terceira rodada. De lá para cá, foram dezesseis anos de presença obrigatória na segunda semana em Paris. Desde que Fonseca nasceu, em agosto de 2006, o sérvio alcançou a quarta rodada em 18 das 19 edições do torneio realizadas durante a vida do brasileiro. A única exceção, justamente, a derrota para Kohlschreiber.
Há outra raridade no placar. Em mais de 300 partidas de Grand Slam, Djokovic só havia sido derrotado depois de abrir 2 sets a 0 uma única vez na vida, e também em Paris: nas quartas de 2010, diante do austríaco Jürgen Melzer. Fonseca repetiu o feito quinze anos depois. Tornou-se ainda apenas o terceiro jovem, com menos de 20 anos, neste século a virar uma partida em Roland Garros saindo de dois sets atrás, depois de Roger Federer, em 2001, e do australiano Thanasi Kokkinakis, em 2015.
O começo que não prometia
O início foi tudo o que a lógica previa. Djokovic apostou em bolas altas e profundas para frear a agressividade do carioca, e a estratégia rendeu uma quebra logo no primeiro game. Fonseca demorou a se encontrar e perdeu o saque de novo no quinto. Conseguiu reagir, salvou três set-points sacando em 2/5, devolveu uma das quebras, mas Djokovic não desperdiçou a segunda chance de servir para o set e largou na frente.
A segunda parcial repetiu o roteiro, com o sérvio elevando o nível nos momentos decisivos. Quebrou no quinto game, salvou um break-point no oitavo com três bons saques e fechou com mais bolas vencedoras (14 a 7) e menos erros não forçados (8 a 9). Faltava um set para a vaga. Foi quando o jogo virou outro.
A virada que mudou tudo
Aos 39 anos, Djokovic baixou o rendimento na terceira parcial e passou a encurtar os pontos. Fonseca cresceu. Bateu o saque do rival no segundo game, segurou um terceiro game pressionadíssimo de quase dez minutos salvando dois break-points, e administrou a vantagem sem dar brechas. A única chance de quebra de Djokovic veio no último game, e o carioca fechou a porta para diminuir a 2 a 1. O próprio Fonseca apontou o que mudou a partir dali:
"Eu acho que o fato de ele estar se sentindo muito, não sei, o calor, o cansaço, me deu um pouco mais de esperança, caraca. Vamos continuar, vamos continuar, vamos continuar. Só fui pensando ponto a ponto, game a game. As coisas foram acontecendo."
No quarto set, Fonseca abriu 2/0 com quebra precoce, viu Djokovic devolver no quarto game e se salvou no oitavo, quando o sérvio teve dois break-points para encaminhar a partida. Daí em diante, o brasileiro foi melhor. A quebra decisiva saiu no 11º game, na base da agressividade, e o saque confirmado fez 7/5. Tudo igual, decisão no quinto.
Três aces para fechar a história
No set definitivo, a experiência falou primeiro: Djokovic quebrou de zero no quarto game e abriu 3/1. Fonseca não tremeu e devolveu na sequência. O sérvio insistiu nas deixadinhas, várias delas vencedoras, mas foi numa jogada curta do próprio brasileiro que perdeu o saque no 11º game, depois de salvar dois break-points. Sacando para o jogo, Fonseca encarou um break-point e o apagou com um ace. Veio outro ace, o primeiro match-point, e mais um ace para fechar. Três saques no momento em que tudo pesava.
Não foi acaso, e ele sabe de onde aprendeu. "Eu acho que é uma das coisas que diferenciam os jogadores. Eu acho que eu aprendi muito com ele. O Djokovic é um jogador que saca muito bem nos momentos importantes", afirmou. "Eu só tive convicção em botar o toss e explodir para a bola. E foi isso que aconteceu. Nem estava pensando, estava difícil de pensar. Só estava executando o que eu sei."
O top 5 que faltava
A vitória apaga um incômodo recente. Fonseca havia perdido os seis duelos anteriores contra adversários do top 5, três deles nesta temporada, contra os três primeiros do ranking: Jannik Sinner em Indian Wells, Carlos Alcaraz em Miami e Alexander Zverev em Monte Carlo. Djokovic foi o primeiro top 5 da carreira a ser batido. Contra o top 10, é a segunda vitória: a outra foi sobre o russo Andrey Rublev, no primeiro confronto desse nível, seguida de seis derrotas, a última semanas atrás no saibro de Munique, diante do norte-americano Ben Shelton.
O nome do carioca entra agora numa lista rara. Antes dele, os únicos sul-americanos a vencer Djokovic haviam sido os argentinos David Nalbandian, Guillermo Coria e Juan Martín del Potro e os chilenos Fernando González e Alejandro Tabilo. Fonseca é o sexto, e o primeiro brasileiro. Djokovic já havia enfrentado cinco compatriotas dele em onze partidas de chave principal, vencendo todas. Quem mais chegou perto foi Thomaz Bellucci, eliminado seis vezes pelo sérvio entre 2010 e 2015.
Próximos compromissos
Até aqui, a melhor campanha de Fonseca em Grand Slams era a terceira rodada, alcançada em Roland Garros e em Wimbledon no ano passado. Agora ele está, pela primeira vez, nas oitavas de um Major. Pelo caminho a Paris, ficaram Giovanni Mpetshi Perricard e o croata Dino Prizmic, este último, curiosamente, o algoz de Djokovic semanas antes, em Roma.
Fonseca encara o vencedor do confronto entre Ruud e Paul, em busca de um lugar inédito nas quartas de um Grand Slam. Djokovic, que seguia atrás do 25º título de Major para se isolar como maior campeão da era moderna, deixa Paris bem mais cedo do que de costume.
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