Monte-Carlo, Vacherot e Xangai: a história que precisa ser sempre contada
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Nesta segunda-feira, Valentin Vacherot entra em quadra no Monte-Carlo Country Club para disputar o Masters 1000 de sua cidade. Não é qualquer quadra: é a mesma onde treina desde os seis anos. "Nem todo mundo pode dizer isso, mas um dos dez maiores torneios do mundo é disputado no meu clube", disse ele à imprensa antes da estreia. "Todo mundo está vindo para a minha casa."
É a primeira vez que chega a Monte-Carlo com o peso de ser esperança local. O atual 23º do ranking sabe disso. "Eu sei que a pressão vai aumentar. Mas é uma sensação boa, daquelas que fazem você querer entrar em quadra. Cabe a mim transformá-la em algo positivo", afirmou. Sua estreia é contra o argentino Juan Manuel Cerúndolo, 69º do mundo, num duelo inédito entre os dois no circuito. Quem avançar enfrenta o italiano Lorenzo Musetti, quarto cabeça de chave e atual vice-campeão do torneio.
Para entender o que significa Vacherot estar em Mônaco desta forma, é preciso voltar alguns meses.
Em algum momento no fim de agosto de 2025, Emily Snyder pegou o celular e mandou uma mensagem para o melhor amigo do namorado. Ela havia acabado de assistir seu companheiro Valentin Vacherot treinar na Rafa Nadal Academy em Maiorca, poucos dias antes de embarcar para uma sequência de torneios na China. E estava empolgada. A mensagem dizia: "Xangai não sabe o que está por vir. Ele vai às quartas de final."

Snyder conta isso com o sorriso de quem agora sabe que estava errada sobre suas previsões.
Voltemos um pouco mais no tempo.
Roquebrune-Cap-Martin, onde os pais se conheceram num clube de tênis

Valentin Vacherot nasceu em Roquebrune-Cap-Martin, uma commune colada em Mônaco, em 16 de novembro de 1998. Cresceu esquiando. Os pais, Josse e Nadine Vacherot, se conheceram num clube de tênis. O meio-irmão mais velho, Benjamin Balleret, jogou tênis profissionalmente por anos. Uma das tias, Virginie Paquet, também foi jogadora profissional. O primo Arthur Rinderknech ocupa uma cadeira no top 30 da ATP. A prima Chloé Paquet joga no circuito feminino e foi top 100. A irmã, adivinha? Trabalha num clube de tênis. Sim. O tal clube tão presente nesta história familiar é nada mais nada menos que o cinematográfico Monte-Carlo Country Club. Não existe a palavra "acaso" nessa família.
"Eu realmente não tive escolha senão entrar no tênis, porque minha família é completamente fora de controle quando o assunto é tênis", disse Vacherot em entrevista à ATP Tour.
"Eu nasci dentro do tênis e quando era criança ficava indo com minha mãe jogar muito. Ficava assistindo meu irmão indo de torneio em torneio toda semana, voltando para casa e partindo de novo, e eu pensava: é isso que eu quero fazer. Não quero ir à escola, quero jogar torneios", completou.
O detalhe que a maioria das matérias sobre o "fenômeno Vacherot" nunca cita: o treinador de Vacherot é Benjamin Balleret. O mesmo meio-irmão. O ex-jogador profissional que chegou, em seu melhor momento de carreira, ao 204º lugar do ranking ATP, em 2006.
Em outubro de 2025, quando Vacherot entrou no qualifying de Xangai, seu ranking era 204º.
O número é mais do que uma simples coincidência. É ironia da vida, dessas que o esporte volta e meia nos apresenta.
Quatro anos no Texas antes de tentar o mundo

Em vez de virar profissional full-time ao terminar o colégio, Vacherot tomou uma decisão que a maioria dos tenistas europeus com talento real não toma: foi para os Estados Unidos jogar tênis universitário. De 2016 a 2020, representou a Texas A&M University em College Station, no Sul dos EUA, onde também se graduou em administração e gestão esportiva.
Ele havia se tornado profissional em 2015, aos 16 anos, e conquistado seu primeiro ponto no ranking naquele mesmo ano. A carreira profissional tinha durado doze meses e não tinha chegado a lugar nenhum. A Texas A&M era uma aposta no longo prazo.
Chegando lá, o técnico do time era Steve Denton, duas vezes finalista do Australian Open. E no elenco da Texas A&M, jogando tênis pela universidade, estava Arthur Rinderknech, o primo que havia chegado primeiro e convencido Vacherot a fazer o mesmo caminho.
"Se eu não tivesse entrado na Texas A&M em 2017 graças a você, não estaríamos aqui hoje". disse Vacherot para Rinderknech na cerimônia de entrega do troféu em Xangai. Mas calma, vamos falar do torneio chinês um pouco mais à frente.
Denton lembra o momento em que Rinderknech deixou a universidade para tentar a carreira profissional, em 2018: "Quando Arthur foi embora para tentar jogar profissionalmente, eu me lembro dele dizendo: 'Steve, cuide do meu primo como você cuidou de mim'."
Essa frase, dita num vestiário americano sete anos antes da final de Xangai, é talvez a mais importante de toda esta história. Rinderknech não estava pensando só nele. Estava pensando no primo. É o mesmo carinho que o levou, na semifinal contra Daniil Medvedev, a jogar parte do jogo pensando em cansar o russo para que Vacherot tivesse um adversário mais esgotado no dia seguinte. Num esporte de uma pessoa contra outra, os dois sempre funcionaram como equipe.

Em 2018, na semifinal do NCAA Championships, a Texas A&M perdeu por 4-3 para a Wake Forest. Rinderknech jogou na segunda posição do individual. Vacherot, na quarta. As partidas aconteceram lado a lado, no mesmo dia. Foi o último jogo coletivo de Rinderknech pela universidade. Vacherot ficou mais dois anos jogando o circuito universitário, revezando participações em alguns torneios profissionais sem muito sucesso.
O preço pela opção do caminho universitário é tempo. Quando Vacherot retomou o circuito em tempo integral em 2021, aos 22 anos, começou praticamente do zero. Encerrou aquele ano na posição 631 do mundo.
A matemática cruel do tênis profissional
O que aconteceu em 2023 é o número mais revelador da trajetória de Vacherot. Naquele ano, ele venceu 58 partidas. E o ranking quase não se moveu.
Isso não é fracasso. É a matemática implacável do sistema de pontos do tênis: você pode dominar os torneios menores semana após semana e colher pontos que, comparados ao que um top 50 defende de uma única rodada num Masters 1000, valem pouco. O tênis profissional é existencialmente difícil de escalar.

Em 2022, Vacherot havia ganho seu primeiro Challenger em Nonthaburi, na Tailândia, tornando-se o segundo monegasco a vencer um torneio dessa categoria desde Jean-René Lisnard em 2004. Em 2024, o ritmo acelerou: três títulos Challenger, incluindo dois consecutivos em Nonthaburi logo no começo do ano, e a chegada ao 110º do mundo em junho.
Sua carreira estava perto de emplacar. Então veio a lesão no ombro direito.
Foi um ferimento sério o suficiente para forçá-lo a encerrar a temporada logo após o US Open. Ele perdeu meses. Em agosto de 2025, estava em 246º. O corpo tinha dado um passo para frente e a lesão havia devolvido dois.
Quando entrou no qualifying de Xangai, Vacherot havia disputado apenas nove partidas em chaveamentos principais de torneios ATP na carreira. Vencera duas.
A aposta mais acertada da vida
Balleret não queria que o irmão fosse a Xangai.
O técnico perguntou várias vezes se Vacherot tinha certeza sobre disputar o torneio, lembrando que havia opções de Challengers nos Estados Unidos. Xangai é longe, o calor e a umidade são extremos, e Vacherot nem estava garantido na chave classificatória.
"Quando cheguei aqui, nem devia jogar o torneio", contou Vacherot em coletiva após o título. "Fiz uma pequena aposta de vir jogar. Entrei há um dia antes do início do torneio. Os desafios estavam em todo lugar. Mesmo na primeira rodada do qualifying, eu estava perdendo 6/7, 3/4."
Mas Vacherot havia decidido. "Eu estava com este torneio na cabeça. Sabia que era o maior torneio antes do fim da temporada, e que teria minha chance de entrar pelo qualificatório".
A namorada viajou com ele e, sem combinar nada, desenvolveu sua própria superstição: usava o mesmo banheiro do hotel todos os dias. Só contou a Vacherot depois da final. A resposta dele a surpreendeu. "Não estou nem brincando, usei o mesmo chuveiro todo dia, duas vezes por dia, o mesmo chuveiro", disse Vacherot a Snyder, conforme ela relatou à ATPTour.com.
Detalhes que ficam melhores quando a semana já acabou e virou lenda.
Dois pontos de distância do aeroporto de volta pra casa
Na segunda rodada do qualifying, Vacherot jogou contra o canadense Liam Draxl, colega de circuito universitário americano, que havia jogado pela Universidade de Kentucky, no mesmo Southeastern Conference (SEC). Draxl chegou a dois pontos de vencer. A partida foi para o terceiro set. Vacherot sobreviveu.
"É ótimo ver pessoas do tênis universitário indo bem, e particularmente a SEC indo bem. Sempre foi uma competição muito difícil dentro da nossa conferência nos anos de faculdade", disse Draxl depois do torneio, de bom humor sobre ter quase eliminado o futuro campeão. "Jogar contra Val tantas vezes, ter batalhas com ele na faculdade tantas vezes, com Ben Shelton e tantos outros caras... foi uma conferência muito cheia de talento."
No chaveamento principal, depois de entrar como alternate, Vacherot eliminou o sérvio Laslo Djere na estreia, o russo naturalizado cazaque Alexander Bublik (cabeça 14), avançou com a desistência no segundo set do tcheco Tomáš Macháč, bateu o holandês Tallon Griekspoor, venceu o dinamarquês Holger Rune nas quartas, e Novak Djokovic nas semis.
"Sabíamos que ele podia jogar bem, mas o que aconteceu foi simplesmente inesperado. Não conseguíamos acreditar que ele pudesse ganhar este torneio. Foi crescendo partida após partida", disse Balleret à imprensa. "Se eu voltar alguns dias atrás, ele ganhou contra Macháč, e depois ficou esperando Jannik Sinner. E você pensa: 'Ok, ótima história. Ele vai jogar contra Sinner, talvez seja destruído, mas é um grande torneio mesmo assim. 'Aí ele não joga contra Sinner. Aí vem mais uma partida, e mais uma partida. Aí chega a hora de enfrentar Djokovic. E você diz: 'Ok, inacreditável. Pelo menos ele vai poder enfrentar Djokovic uma vez na vida.' E ele acaba batendo um Djokovic não 100% fisicamente, mas mesmo assim Djokovic."
Rinderknech: a outra metade dessa história
Arthur Rinderknech tem 30 anos, nasceu em Gassin, no sul da França, e chegou ao tênis profissional pelo mesmo caminho do primo: quatro anos na Texas A&M antes de tentar o circuito. A semelhança para por aí.
Em junho de 2025, Rinderknech estava com cinco vitórias e quinze derrotas na temporada. Havia perdido na primeira rodada em Roland Garros. O ranking era 72º. Nesse momento, contratou o ex-top 10 Lucas Pouille como treinador. Pouille havia rompido o tendão de Aquiles numa final de Challenger em fevereiro e estava fora das quadras pelo resto do ano. Aceitou treinar o compatriota.
A virada começou discretamente. Em Queen's, Rinderknech passou pelo qualifying e bateu Ben Shelton na primeira rodada, sua primeira vitória sobre um top 10. Em Wimbledon, eliminou Alexander Zverev em cinco sets num jogo de quatro horas e 44 minutos que começou numa segunda e terminou na terça. No US Open, chegou à quarta rodada de um Grand Slam pela primeira vez em 20 tentativas. Em Xangai, já era o 54º do mundo.
Mas o que veio antes de tudo isso importa mais do que o ranking. "Eu estava abaixo do chão cinco meses atrás. Estava pensando em parar o tênis em algum momento porque não via mais sentido", disse Rinderknech na cerimônia de entrega de troféus. Foi Pouille quem o convenceu a continuar.
Em Xangai, Rinderknech eliminou cinco cabeças de chave: Michelsen, Zverev pela segunda vez no ano, Lehecka, Auger-Aliassime e, na semifinal, Daniil Medvedev. O francês que cinco meses antes não via mais sentido no tênis estava a uma partida do título de Masters 1000 mais improvável da história.
Jogando pelo primo
O que aconteceu naquela noite dentro do Qizhong Forest Sports City Arena também precisa ser contado. O calor era intenso, a umidade grudava a roupa no corpo e desacelerava a bola. Rinderknech admitiu que, em algum momento, já havia aceitado a derrota. Só que decidiu mudar o plano.
"Eu estava praticamente morto depois do primeiro set e pensei: tudo bem, talvez eu vá perder, mas vou lutar como louco para cansá-lo para amanhã e pelo menos ajudar o Val a começar a partida um pouco à frente fisicamente."
O problema de jogar sem nada a perder é que às vezes você ganha. Rinderknech começou a acertar devoluções que não estava acertando. E o jogo virou de lado: 6/2 pro francês na segunda parcial. E de repente havia um terceiro set.
Na parcial final, os dois sacaram bem, ninguém cedeu, e o placar foi subindo num empate que mentia. Por trás da superfície equilibrada, Medvedev era quem estava mais perto de quebrar. Essa diferença invisível ia cobrar seu preço.
No quinto game, o russo teve um break point. Não converteu. No sétimo, com Rinderknech sacando em 3/3, teve dois break points seguidos, o momento de maior controle russo no set inteiro. Rinderknech salvou os dois com saques potentes no T. Game confirmado, 4/3. Sem comemoração exagerada. Mas o peso mudou de lado.
Oportunidades desperdiçadas no tênis não somem. Acumulam. Pesam. Medvedev havia criado três chances de quebrar no set decisivo. Não converteu nenhuma. E o placar agora exibia 5/4 para Rinderknech. O francês sacara a zero no game anterior para chegar até ali. Agora era Medvedev quem sacava para continuar no jogo.
Rinderknech pressionou desde o primeiro ponto. O game evoluiu até o match point. Medvedev recorreu ao que tinha de melhor: sacou a 207 km/h no centro da quadra. Salvou. Por um instante, pareceu o roteiro clássico: o favorito sobrevive, vira a partida. Mas o duelo não queria aceitar esta lógica. No segundo match point, Medvedev tentou outro saque poderoso. Dupla falta.
6/4. A única quebra do terceiro set aconteceu no pior momento possível para o russo.
Rinderknech caiu no chão. Vacherot, que havia voltado à quadra central para assistir ao fim da partida, segurou a cabeça com as mãos, incrédulo. E quebrou o protocolo: saiu da arquibancada e adentrou o meio do court. Os dois primos se abraçaram, em êxtase. Emoção pura: dessas que o esporte volta e meia nos apresenta. Antes de ir pro vestiário, Rinderknech assinou para a câmera de TV: "And now what???!!!!"

A grande e improvável final: e Roger Federer estava lá
A imprensa esportiva de todo o mundo se rendeu. Também pudera. Que narrativa espetacular. Dois primos frente à frente duelando por um lugar na história. Vacherot contra Rinderknech, o parente que o convenceu a ir para a Texas A&M. O mesmo que disse a Denton, anos antes, "cuide do meu primo como você cuidou de mim." O homem que mais o havia ajudado a chegar até ali era agora o único que precisava ser derrotado para que ele chegasse lá.
Nos meses anteriores, um havia pensado em parar. O outro havia perdido um ano para uma lesão no ombro. Agora estavam ali, com Roger Federer de espectador na arquibancada. Pela terceira vez, desde 1990, um Masters 1000 seria decidido entre dois não-cabeças de chave.
Vacherot só soube da presença de Federer no meio da partida, quando a imagem do suíço apareceu no telão e a arena inteira em Xangai entrou em erupção.
"Foi incrível tê-lo lá. Cada vez que o colocavam na tela, acho que fazia mais barulho do que depois de alguns dos melhores pontos que jogamos. É assim que ele é incrível e grandioso para o esporte. Joguei contra Novak ontem. Conheci Roger hoje. Mesmo fora do tênis, é simplesmente uma semana louca."
Vacherot venceu por 4/6, 6/3, 6/3. No terceiro set, o monegasco tirou energia sabe-se lá de onde. Parecia mais inteiro do que quando havia entrado em quadra. "A partir de 4/3 no segundo set, foi aí que a magia de Val aconteceu. O fim do segundo e do terceiro set foi simplesmente incrível da parte dele. Mas bem, é o Val. Eu já o tinha visto nesse estado de espírito de ser uma fera física. Mas fazer isso no court central de Xangai, na final contra o primo, é outra coisa." Assim resumiu o irmão Balleret ao portal francês We Love Tennis.

Na cerimônia, com câimbras nas pernas, Rinderknech mal conseguia ficar de pé. Quando chegou a vez de falar ao primo, a voz falhou:
"Valentin, meu querido primo. Você deu tudo. Estou tão feliz por você. Espero que você tenha muito mais".
"Não entendo sequer por que estou sentado aqui agora", disse Vacherot à ATP logo após o título. E então acrescentou uma frase que define melhor do que qualquer estatística a escala do que acabara de acontecer:
"Eu achava que meu primeiro título poderia ser num ATP 250."
Ele esperava ganhar um 250. Ganhou um Masters 1000 eliminando Rune, Djokovic e o próprio primo em sequência, com Federer sentado na arquibancada. A distância entre essas duas ideias é onde toda a história mora.
"A forma como me ensinaram a viver a vida onde cresci é: mantenha sempre os pés no chão. Só quero agradecer a todos que colocaram um pequeno tijolo na minha carreira, porque me ensinaram a ser concreto e a lutar. Provavelmente é por isso que estou aqui hoje."
Não é a fala de um jogador que ganhou na loteria. É a fala de um jogador que sabe exatamente o que custou chegar até aqui.
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