O Paraguai de volta ao mapa do tênis
O paraguaio Daniel Vallejo derrotou o espanhol Rafael Jodar, número 13 do mundo, por 6/1 e 6/3 nesta quinta-feira, na estreia do ATP 500 de Tóquio. Foi o triunfo mais importante da carreira, em 1h07 de jogo no Ariake Coliseum.

O placar foi aplicado por um jogador que nem tinha vaga garantida na chave. Vallejo chegou ao torneio pelo qualificatório, com vitórias sobre o japonês Taro Daniel por 6/3 e 6/2 e sobre o português Jaime Faria por 6/4, 5/7 e 7/5. Contra Jódar, perdeu apenas quatro games e converteu seis dos 12 break points que teve. O resultado o leva ao 53º lugar no ranking ao vivo, a melhor posição da carreira. É a vitória mais relevante de um paraguaio em torneio ATP desde 2003, quando Ramón Delgado derrotou Sébastien Grosjean, então nono do mundo, no US Open.
Um país de dois nomes
Para entender o que Vallejo representa, é preciso olhar para trás. A história do tênis paraguaio cabe em dois nomes. Víctor Pecci foi o nono do mundo, decidiu Roland Garros em 1979 e chegou à semifinal em 1981, com dez títulos de simples na carreira. Entre 1982 e 1990, levou o Paraguai ao Grupo Mundial da Copa Davis. Ramón Delgado veio depois e ficou famoso por eliminar Pete Sampras na segunda rodada de Roland Garros em 1998, chegando ao 52º lugar do ranking em abril de 1999.
Depois de Delgado, o silêncio. Ele foi o último paraguaio no top 100, em 2005, e o país passou duas décadas sem um nome no grupo. Vallejo quebrou o jejum no início desta temporada. "No es fácil estar en el Top 100 viniendo de Paraguay", disse ao site da ATP, quando estreou no top 100 como 99º. Na mesma reportagem, contou que o aeroporto do país é tão pequeno que qualquer viagem exige uma sequência de voos. O tênis do Paraguai começa a jornada sempre com uma escala.
O número 1 que perdeu para Fonseca
Vallejo não é uma surpresa para quem acompanhou o circuito juvenil. Campeão do Orange Bowl em 2021, chegou à semifinal de simples e à final de duplas do Australian Open juvenil de 2022, aos 17 anos. Antes dele, o Paraguai só tinha os títulos de Pecci e de Rossana de los Ríos em Roland Garros juvenil, em 1973 e 1992.
Foi em Paris, naquele mesmo 2022, que o caminho dele cruzou com o do Brasil. Cabeça de chave número 2, Vallejo pegou na segunda rodada um wildcard brasileiro que vinha de vencer Kalin Ivanovski: João Fonseca, então com 15 anos, que ganhou o convite ao vencer a etapa do Rio da Roland Garros Junior Series. O carioca venceu por 6/3 e 6/4, em 1h19, na quadra 10. Dois meses depois, Vallejo chegou à final do J1 de Bytom, na Polônia, e assumiu a liderança do ranking juvenil da ITF. Terminou 2022 como número 1 do mundo.
A demora apareceu na transição para o profissional. Quando virou número 1 juvenil, ocupava o 967º lugar no ranking da ATP. Treinado por Delgado, conseguiu uma bolsa na Rafa Nadal Academy, em Maiorca, e começou pelo circuito Future. Em 2024, tornou-se o paraguaio mais jovem a ganhar um Challenger. Em Curitiba, no ano passado, levantou o troféu ao derrotar Pedro Boscardin Dias na final. Enquanto Fonseca pegou o elevador, Vallejo subiu de escada. Os dois chegaram ao mesmo andar.
2026, a temporada da virada (e da mancha)
A arrancada veio com os títulos dos Challengers de Itajaí, em Santa Catarina, e de Concepción, no Chile. Em Roland Garros, foi o primeiro paraguaio em 16 anos a disputar a chave principal de um Grand Slam, e avançou à segunda rodada depois que Cameron Norrie abandonou o jogo de estreia. Em julho, chegou à semifinal de Bastad, a primeira de um paraguaio em torneios ATP em 24 anos.
Paris, no entanto, também deixou uma marca negativa. Depois de perder para o francês Moïse Kouamé no supertiebreak, após cerca de quatro horas e meia de partida, Vallejo criticou a árbitra brasileira Ana Carvalho em entrevista à Clay Magazine. "Este tipo de partidos tiene que arbitrarlos un hombre", declarou o paraguaio. A diretora do torneio, Amélie Mauresmo, classificou a fala como inaceitável. A multa equivale a cerca de metade do prêmio que ele recebeu por chegar à segunda rodada. Foi a maior punição da história do torneio, mantida mesmo depois do pedido público de desculpas.
O recorde de Delgado à vista
O próximo adversário em Tóquio é o italiano Matteo Berrettini, ex-número 6 e atual 47º, que eliminou Alejandro Davidovich Fokina. Vallejo está a uma posição da melhor marca de Delgado. Pecci segue fora de alcance, por enquanto. O próprio Vallejo diz que Pecci será sempre o ídolo do Paraguai e que Delgado, mais que uma referência, faz parte da sua equipe.
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