Presidente da Tênis RJ quer torneio internacional por semestre: "A gente não pode aceitar que o Rio não seja um dos protagonistas"
No mesmo ano em que o Rio de Janeiro recebeu uma eliminatória de Copa Davis e viu um carioca de 20 anos se firmar entre os trinta melhores do mundo, a entidade que organiza o tênis do estado não promoveu um único torneio profissional. Quem diz isso não é a oposição. É o próprio presidente da Tênis RJ.
"Eu não posso achar normal que a Federação do Rio não tenha promovido em 2026 nenhum torneio profissional. A gente tem que trabalhar para isso. Só aparecem os torneios quando tem uma iniciativa privada", afirmou Samuel Freitas à Nittenis, durante o quarto jogo do confronto entre Brasil e Suíça pela Copa Davis.
Ele se refere, entre outros, ao Challenger previsto para o fim do ano na cidade, a ser realizado na Rio Tennis Academy, em Laranjeiras. "A conquista é toda dele", contou, sobre o organizador e CEO da academia Eduardo Frick. "E eu, como federação, não participo disso. A Tênis RJ tem que se planejar pra promover torneios, eu tenho que transformar isso num projeto."
Freitas foi eleito em assembleia no dia 13 de março e tomou posse em julho, para um mandato de quatro anos. De um camarote na Farmasi Arena, acompanhou de perto a vitória de João Fonseca sobre Dominic Stricker, a virada de Gustavo Heide sobre Stan Wawrinka, a confirmação da classificação nas duplas com o triunfo de Orlando Luz e Rafael Matos, e a derrota de Matheus Pucinelli diante de Rémy Bertola.

"Nem no melhor sonho"
A avaliação do confronto veio em tom de satisfação pessoal. "Eu assumi a federação tem menos de dois meses, não poderia ter sido melhor esse resultado da Copa Davis", disse. "Ter o João abrindo esse confronto, tendo essa dupla espetacular e a virada de ontem também do Gustavo Heide em cima do Wawrinka. Acho que nem no melhor sonho eu poderia ter sido mais agraciado."
O dirigente usou o evento como plataforma de articulação. "Eu aproveitei esse evento aqui da Copa Davis fazendo um balanço não só da atuação da seleção, mas de como isso pode servir para a Tênis RJ, para potencializar as nossas ações. Nesse evento eu procurei me aproximar dos clubes."
A herança da FTERJ

A Tênis RJ nasceu em 2018, meses depois de a antiga Federação de Tênis do Estado do Rio de Janeiro pedir desfiliação da Confederação Brasileira de Tênis e interromper suas atividades. Desde então, o estado que ajudou a fundar a CBT convive com uma entidade que exerce a função de federação sem carregar o nome.
"Na verdade, a gente só não é a federação no nome", resumiu Freitas. "A gente não vai fazer qualquer associação com a má gestão anterior, que eu não tenho nem como emitir opinião, porque eu não vivia esse momento."
Sobre a relação atual com a confederação, foi taxativo: "A nossa relação com a CBT hoje, ela é a melhor possível. Estou há oito anos na Tênis RJ, nesse tempo eu era conselheiro. A gente teve a sorte de ter uma relação tão boa que a gente conseguiu, nos dois primeiros anos, trazer o Banana Bowl pra cá — um torneio que tem uma expressão, um simbolismo absurdo em termos internacionais, e nunca tinha acontecido no Rio de Janeiro."
Ele reconhece, no entanto, que o calendário ainda precisa melhorar. Segundo o dirigente, o circuito infantojuvenil do estado terminará o ano de 2026 com 26 etapas, "um circuito muito robusto, consolidado", mas que fica atrás de outras praças na hora de atrair eventos de projeção internacional.
"Eu fiz uma pesquisa: você pega os estados do Sul, Minas, São Paulo, estados com muitos torneios pro infantojuvenil, enquanto o Rio tem um circuito robusto, mas ainda acanhado em termos de expressão internacional. A gente não pode aceitar que o Rio não seja um dos protagonistas."
Para 2027, a meta é elevar a pontuação das etapas e buscar eventos chancelados internacionalmente. "Tentar trazer um COSAT para o primeiro semestre, e um ITF World Tennis Tour Juniors para o outro. Realizar pelo menos em cada semestre um torneio desse com âmbito internacional no estado do Rio de Janeiro."
O buraco do master
Outra lacuna, apontada por Freitas como indefensável, não está no topo da pirâmide, o circuito profissional, nem na base.
"É inaceitável que o Estado do Rio de Janeiro não tenha um circuito da federação pro atleta master", afirmou. O plano é montar, ainda nos últimos meses deste ano, um projeto para implementar o circuito em 2027, com pontuação própria e vaga em disputa para a Copa das Federações. "Não vou me limitar aqui em número de etapas, mas um circuito em que o atleta master possa concorrer, jogando a federação." Um Interclubes master também está no desenho.
O argumento é de sustentação financeira dos clubes, não de sentimento. "É esse atleta que tá ali no clube e que lota o clube. Não são só as crianças. As crianças têm uma importância gigantesca — é o futuro, é a formação do indivíduo. Mas e o atleta que tem mais de 35, mais de 40 anos, e que não tem nada pra consumir com a Tênis RJ?", conta, lembrando que hoje, o veterano carioca que quer competir precisa cruzar as divisas do estado.
"A federação não é da Tênis RJ. Ela é deles, é dos clubes"
O movimento que o presidente aponta como prioritário do primeiro ano é a reaproximação com clubes e treinadores. A Copa das Federações Master, que a CBT realiza pela primeira vez em dezembro, será o teste.
"Eu preciso que o clube entenda que, sem ele, eu não consigo. Nem o infantojuvenil, nem o master, nem o profissional", disse. Como não há ranking estadual estabelecido para a categoria, a convocação será feita em conjunto.
"Já que nesse momento a gente não tem ranking, a gente possa convocar juntos. Eu quero os clubes e os expoentes, os treinadores. Eles precisam entender que a federação não é da Tênis RJ. Ela é deles, é dos clubes."
A resistência que ele antecipa vem de dentro dos próprios clubes — e ele a formula como uma contradição.
"Eu entendo que o sócio faz uma pressão muito grande no clube para que não haja esse tipo de torneio. É uma pena, porque é o mesmo sócio que cobra da Federação e da Confederação que haja mais expoentes, que haja outros João, outros Heide, outros Gutos. É o mesmo sócio que cobra e é o sócio que não quer que tenha o torneio. São dois vetores em direção oposta. A gente tem que chegar no meio do caminho."
E sintetizou a fragilidade estrutural da entidade em uma frase: "Eu não consigo andar sozinho. Eu não tenho uma sede onde eu possa mandar meus torneios."
Caixa: "Hoje a gente não tem captado nenhum real"
Anunciado em março com a captação de recursos como principal credencial, Freitas foi direto ao ser perguntado quanto a Tênis RJ arrecada hoje. "Hoje a gente não tem captado nenhum real."
Ele descreveu o dado como uma questão de transparência. "Eu percebo, quando eu converso com os pais de atletas ou com os atletas, que eles têm uma leitura equivocada. E até certo ponto eu entendo, porque se a gente não dá transparência, eles não têm como saber. Aí cada um vai deduzir de acordo com o que a sua imaginação é capaz."
Em seguida, fez a declaração mais detalhada já dada publicamente sobre as finanças da entidade: "A federação não tem repasse nenhum de dinheiro público. A única fonte de receita da federação é a filiação dos atletas, que eles pagam no início do ano, e as inscrições nos torneios."
Sobre metas de arrecadação para 2027, preferiu não cravar número. "Eu não tenho como mensurar isso, porque não é nem o meu primeiro ano, são meus primeiros meses. Então eu não sei como é que o mercado reage a esse tipo de coisa. Eu espero que muito bem."
O trunfo que pretende usar é o momento do esporte. "A gente está vendo o hype do tênis. A gente tem um tenista que não é só expoente nacional, é um expoente mundial, que nasceu aqui no Rio de Janeiro. A gente tem o vídeo do João, de 11 anos de idade, agradecendo a Tênis RJ por poder jogar os torneios aqui na cidade dele. Se a gente não tentar aproveitar esse momento para converter em benefício, eu não sei que outro momento a gente vai ter."

"O cadeirante só precisa chegar"
A entrega concreta dos dois meses de gestão foi inaugurada em 18 de agosto: um centro de treinamento instalado dentro do CEFAN, base da Marinha na Vila Brasil, perto do viaduto da Penha. Freitas é ex-oficial da Marinha.
São quatro dias de aula gratuita por semana, de segunda a quinta, das nove às dezesseis horas. Há uma turma exclusiva para cadeirantes, de todas as idades.
"O cadeirante só precisa chegar até essa base da Marinha. Só precisa chegar. A cadeira especial é adaptada para ele jogar, a gente tem a raquete para ceder, a gente tem bola, o treinador. É completamente gratuito."
Pela manhã, o espaço atende crianças de dez a dezoito anos em situação de vulnerabilidade, já vinculadas a um projeto existente no CEFAN. "Crianças que nunca teriam oportunidade de segurar uma raquete de tênis. Elas têm aula gratuita."
Para o presidente, a vertente social não é acessório. "A Tênis RJ não tem só que fazer os torneios. Isso é super importante, está no nosso estatuto, o fomento do tênis e do beach tennis no estado. Mas a parte social é super importante."
Jockey, Rio Open e cinco circuitos no interior
Questionado sobre como aproveitar a expansão anunciada do Rio Open para fortalecer o tênis no estado, Freitas disse que a aproximação com o Jockey Club Brasileiro faz parte do plano. "O clube tem uma posição muito central. A gente entende que tem o pessoal que joga tênis na Barra, no Recreio, tem o pessoal da Zona Sul, tem o pessoal de Niterói. A gente tem que transformar isso tudo numa coisa só, alinhar isso tudo. Não é só a cidade do Rio, o estado é grande."
Daí a ideia dos circuitos satélites regionais: competições independentes do circuito da capital, com pontuação própria, mas válidas para o ranking estadual. Seriam cinco — região Norte (com Itaperuna, Macaé e Miracema), Baixada, Niterói e Maricá, região dos Lagos e Serrana.
"Justamente para pegar esse atleta que joga tênis e está à margem da Tênis RJ. Eu tenho que trazer esse cara para dentro, essa criança, esse adolescente."
O objetivo declarado é de receita. "Aumentar o número de filiados, que hoje, bem ou mal, é a minha receita certa. Hoje eu consigo levar as crianças para a Copa das Federações graças a essa verba. Só que, se eu pensar só nessa verba, eu não consigo crescer." O caminho que aponta para financiar a expansão são os projetos incentivados ou o patrocínio direto de empresas.
O calendário e a sala de aula
Outro ponto que Freitas classificou como inaceitável é o número de dias letivos que o circuito infantojuvenil custa às crianças.
"Eu não posso aceitar que uma federação não esteja andando junto com a educação, junto com a escola."
Ele explicou que o modelo atual já concentra as primeiras rodadas no fim de semana, quando há mais atletas em quadra. "A cada rodada você tem menos da metade, depois menos a outra metade. Se você pega nas primeiras rodadas atletas jogando no sábado e domingo, são ainda menos crianças perdendo aula. Isso é matemático." Ainda assim, torneios entram na segunda e na terça — e, em caso de chuva, na quarta.
A solução que projeta depende de dinheiro. "Se eu consigo um patrocínio, não estou falando de rios de dinheiro, um patrocinador que tenha interesse em apoiar o circuito infantojuvenil, talvez eu consiga alugar mais quadras, com mais horários, fazer rodadas duplas no sábado e domingo e não ter que entrar na terça-feira. Se um atleta perde só um dia de aula, ainda não é o ideal, mas é aceitável."
E pediu que o recado chegue às famílias: "A minha busca nesse momento é que o pai, que o atleta, entenda qual o norte que a Federação olha. A gente olha para essa questão da educação, da parte acadêmica."
Beach tennis: o próximo passo, não o concorrente
Filiações de beach tennis já compõem parte relevante da receita da entidade, e o presidente descarta a leitura de disputa entre as modalidades.
"O beach tennis segue num viés de alta. Sinceramente, eu acho que não são coisas que competem. O cara que joga beach tennis às vezes também joga tênis, mas não são esportes que competem pela estrutura do clube. São muito diferentes."
A vantagem competitiva da modalidade, na avaliação dele, é a velocidade de entrada: "O atleta pega a raquete hoje e daqui a um, dois meses já está competindo. Isso aí é mágico."
A expansão do beach tennis para o interior virá depois de consolidado o modelo do tênis. "Até porque o beach tennis no Brasil, hoje em dia, os maiores nomes têm vindo do interior.
E os maiores torneios, em cidades a quilômetros da praia. Eu não preciso inventar a roda. A roda já está inventada, eu só preciso fazer com que a minha rode melhor que a dos outros."
A cautela, diz, é de caixa. "Eu preciso ser conservador, porque meus recursos são pequenos, então não posso fazer uma operação em que eu entre no risco de rodar no negativo. Todas essas etapas que a gente faz do infantojuvenil são saudáveis, elas sempre fecham positivas. Para mim isso é muito importante."
Sem pedido à CBT — por enquanto
Perguntado se havia feito alguma solicitação formal à confederação no encontro de dirigentes estaduais, Freitas disse que ainda não.
"Eu ainda não me senti confortável, eu ainda não me considero conhecedor de todos os processos para poder pedir alguma coisa que faça sentido. É muito recente, dois meses. Preciso entender melhor esses custos, o que a gente acha importante desses projetos."
O trabalho em curso, contou, é traduzir cada frente — infantojuvenil, master, profissional, cadeira de rodas, beach tennis, centro de treinamento — em números apresentáveis ao mercado. "Tentar traduzir isso em números para poder ir pro mercado e tentar captar esse recurso. E aí, num segundo momento, já tendo alguma coisa…"
Um ano é o prazo que ele mesmo propõe. "Daqui a um ano, quando a gente voltar a conversar, foi possível ou não foi possível."
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