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Quando o corpo impõe limites: o que a virada sobre Jannik Sinner em Roland Garros nos ensina sobre calor, fadiga e rendimento no tênis

  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

Por Eduardo Faria (www.quintoset.com.br)


O tênis tem dessas histórias difíceis de explicar apenas pela lógica técnica.

Nesta quinta-feira, em Roland Garros, o italiano Jannik Sinner parecia caminhar para mais uma vitória protocolar. Número 1 do mundo, vinha embalado por impressionantes 30 vitórias consecutivas, abriu dois sets a zero contra Juan Manuel Cerúndolo e chegou a liderar o terceiro set por 5/1. Tudo indicava mais uma atuação dominante.

Mas algo mudou.


Em um dia de temperatura elevada e baixa umidade relativa do ar, o rendimento físico do italiano caiu abruptamente. Os deslocamentos perderam eficiência, a intensidade diminuiu, sinais claros de desconforto físico começaram a aparecer e a partida tomou um rumo improvável. O resultado final foi uma surpreendente virada: 3/6, 2/6, 7/5, 6/1 e 6/1.

Naturalmente, muitos olham para um jogo assim e pensam: “faltou condicionamento?”, “desidratou?”, “teve câimbras?”. Mas a fisiologia do esporte mostra que a resposta costuma ser mais complexa.


Em partidas longas disputadas sob calor intenso e baixa umidade, muitas vezes não é apenas a qualidade técnica que entra em jogo — o organismo passa a disputar uma batalha paralela.



Quando aparecem sinais como endurecimento muscular, queda brusca de intensidade, dificuldade de deslocamento e possíveis câimbras, normalmente o desequilíbrio fisiológico já começou muito antes.


No tênis, especialmente em ambientes quentes, existe uma combinação clássica de fatores:


1. Desidratação e perda de eletrólitos


Não é apenas perda de água.


O atleta perde sódio — talvez o eletrólito mais importante nesse cenário — além de potássio, cloreto e magnésio. Em dias quentes e secos, a evaporação do suor é muito eficiente e o atleta pode até subestimar o quanto está perdendo líquido.

Essa combinação reduz o volume plasmático, aumenta o estresse cardiovascular e prejudica a eficiência da transmissão neuromuscular.


2. Fadiga neuromuscular


Hoje sabemos que câimbras não são explicadas apenas pela falta de sais minerais.

No tênis, existe enorme componente de fadiga neuromuscular: arrancadas explosivas, desacelerações bruscas, mudanças constantes de direção e contrações excêntricas intensas em panturrilhas, posteriores e adutores.


Quando a fadiga se instala, o músculo perde parte do controle fino dos mecanismos reflexos, tornando-se mais suscetível às contrações involuntárias.

Em termos práticos: o corpo começa a “dar sinais”.


3. O erro de achar que basta continuar hidratando


Existe uma percepção comum de que basta aumentar isotônico ou maltodextrina durante o jogo para resolver.


Nem sempre.


Quando o quadro já está instalado, muitas vezes o organismo apresenta:


  • hipertermia;

  • queda do volume sanguíneo;

  • fadiga neuromuscular acumulada;

  • dificuldade de absorção rápida dos líquidos.


Além disso, bebidas muito concentradas podem retardar o esvaziamento gástrico, atrasando justamente aquilo que o atleta mais precisa naquele momento: água e sódio chegando rapidamente à circulação.


No tênis de alto nível, a prevenção costuma valer mais do que a correção.

Entrar bem hidratado, ajustar sódio conforme a taxa de suor, antecipar carboidrato, controlar temperatura corporal e manejar a carga acumulada das semanas anteriores fazem enorme diferença — especialmente quando se vem de uma sequência intensa de jogos e vitórias, como era o caso de Sinner.


Talvez tenha sido apenas um dia ruim. Talvez o desgaste acumulado tenha pesado. Talvez as condições climáticas tenham acelerado um processo fisiológico silencioso.


Mas jogos como esse nos lembram uma verdade importante:


Em determinadas condições, partidas deixam de ser decididas apenas pela técnica ou pela tática. O vencedor pode ser aquele que consegue sustentar a homeostase do próprio organismo por mais tempo.

Porque, no tênis, às vezes o adversário mais difícil não está do outro lado da rede — está dentro do próprio corpo.



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