Das quadras à FLIP: paulista reúne em livro histórias sobre mulheres e o circuito de tênis amador
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Em julho de 2010, Daniela Bon passou dias ao telefone tentando convencer dezesseis mulheres a jogar um torneio de tênis. Era um mês calmo: a federação parava nas férias, não havia competição em São Paulo, e ela, que tocava uma agência de eventos corporativos, queria um pretexto para não ficar longe das quadras. Juntar as dezesseis foi um sufoco. Mas elas vieram, jogaram, gostaram e pediram mais. Daniela fez outro, e depois mais um — organizar torneios virou um prazer, não empecilho. No fim daquele primeiro ano eram cem mulheres participantes. Sete anos depois, quando a liga parou, quase oitocentas.

O que nascera como distração num momento de altos e baixos do mercado virou negócio paralelo — modesto, ela faz questão de frisar. "Comecei sem querer fazer os torneios", diz, "e acabei vendo que estava dando certo." A liga ajudou a sustentar a agência na fase ruim. "Não foi um super bom negócio. Mas no momento que era difícil, ajudou." O nome escolhido? TEA, Tênis Entre Amigas. Funcionou na capital, no interior e no litoral de São Paulo, atravessando clubes e academias da cidade inteira, e durante sete anos foi, para Daniela e para as mulheres que passaram por ele, mais do que um torneio: foi o vínculo que sustentava um grupo. "O esporte era o vínculo que a gente tinha", diz. "A gente existia ali como grupo por causa do tênis, por causa do esporte."
Quase uma década depois de a liga acabar, foi desse acervo de convivência que Daniela tirou o material de seu livro de estreia: Tudo de Bom: a Vida em Cinco Sets, publicado pela Vinca Literária.

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A escala do TEA é o que torna as histórias do livro possíveis. Num universo de oitocentas mulheres, diz Daniela, tudo o que pode acontecer a uma mulher acontece — e acontece em paralelo, em versões diferentes, com desfechos diferentes. Ela cita o exemplo do câncer de mama: em determinado momento, mais de dez mulheres do grupo enfrentavam a doença ao mesmo tempo, cada uma em um estágio — "uma que acabara de descobrir, a outra que já havia se curado, a outra que ainda lutava contra por cinco anos."
A diferença não estava na doença, ela lembra, estava na reação a ela. "Uma ficava extremamente abalada, enquanto outra não tomava conhecimento", diz. "Essa troca de experiências era muito rica. Isso agregava muito dentro do grupo." Dani estende o padrão para os outros temas que trabalha no livro — questões familiares, financeiras, de saúde, "os problemas que a gente tem normalmente" — e para a constatação que se tornaria a espinha dorsal de Tudo de Bom: "O que te faz ser feliz é a forma como você encara os seus problemas. Como você lida com eles."
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O livro nasce dessa massa de histórias. Daniela foi categórica sobre isso: todas as personagens são fictícias e, com um tempero que só uma tenista assinaria, levam nomes de atletas famosas da modalidade. As histórias são inspiradas em casos reais, sim, mas embaralhadas, sem correspondência direta com nenhuma mulher específica. "Não pedi autorização porque não são histórias reais", explica. "São histórias baseadas em histórias reais. Todas foram modificadas e criadas pela minha cabeça — mudei personagens, mudei o final, mudei a trajetória, e criei ali alguns finais felizes, outros nem tanto." O método: pegar o padrão emocional de muitas mulheres parecidas e reconstruí-lo. "Foi realmente inspirado nas histórias delas", resume, "mas são histórias fictícias."
A estrutura do livro reflete essa mistura. Há uma camada biográfica no início — ali é a própria Daniela quem fala, e o livro se aproxima de memórias — antes de se abrir para as histórias criadas, sempre em paralelo com reflexões sobre comportamento e saúde mental. "O que é interessante, que eu observei durante esses anos, é como é diferente o nosso comportamento com relação aos problemas", diz. Foi essa observação — de que pessoas diante do mesmo tipo de dor reagem de formas opostas, com resultados opostos — que ela quis costurar dentro de uma única obra.
O processo de escrita, no entanto, não foi simples. Daniela descreve a parte mais difícil como uma questão de tradução: levar conteúdo que ela classifica como mais profundo, quase motivacional — reflexões sobre consciência, sobre decisões — para uma linguagem que outras pessoas pudessem realmente absorver. "A minha maior dificuldade foi como escrever de uma forma que as pessoas entendessem o que estava passando ali dentro da minha cabeça", diz, "dentro do que eu queria criar ali pra que elas entendessem a mensagem." Encaixar esse volume de conteúdo — biografia, ficção, reflexão — dentro de um único livro também pesou na escolha do subtítulo: "Por isso que ficou a vida em cinco sets", diz. "Foi um pouco desafiador. Era muita informação que eu tinha que adaptar dentro da mesma obra."
Os temas mais duros do livro — relacionamento abusivo, maternidade atípica, recomeço depois dos cinquenta — vieram de observações do dia a dia, mas também de dentro. "Como mulher, não existe uma mulher que não tenha passado perto de pessoas que são abusivas", diz. Sobre maternidade, fala como testemunha: "Eu não sou mãe, mas vi centenas de histórias de problemas de maternidade e de recomeços."
E sobre recomeço, fala em primeira pessoa — e por uma geração inteira. Cita o pós-pandemia como ponto de inflexão: "Dezenas de casais da minha faixa etária aí dos 50 anos se separaram, e muitas dessas mulheres que vinham de uma geração que não trabalhavam, que o marido bancava, tiveram que se refazer". E acrescenta: "Eu recomecei a minha vida, acho que umas quatro vezes. Graças a Deus, agora está tudo estável. Mas a última vez que eu tive que recomeçar a minha vida foi aos 40 e poucos anos."
O título nasce de uma coincidência feliz entre sobrenome e expressão: Bon é o sobrenome de Daniela, e "tudo de bom" é um termo que ela diz usar o tempo todo na vida real — um voto positivo que se tornou, também, o que ela deseja para quem lê o livro.
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A relação de Daniela com o tênis tem uma interrupção no meio. Começou a jogar aos dez anos, parou por causa da escola e migrou para o vôlei — "esporte coletivo, mais legal para uma criança", explica. Voltou ao tênis aos 21 e não largou mais. Aos 51, prestes a completar 52 em agosto, é tenista amadora que compete com seriedade de profissional, nos torneios ITF da categoria Master.

"Eu adoro competir, adoro jogar os ITFs", diz. "Realmente é uma das coisas que eu mais gosto de fazer na minha vida." O sonho declarado é um que a vida adulta não permite por completo: "Na verdade, o meu sonho é poder viver de ser atleta master amadora. Eu queria jogar todos os torneios. Não tem como, a gente tem que trabalhar." No ano passado, convocada pela Confederação Brasileira de Tênis, ela representou o país no Mundial da categoria, em Portugal, aos 50 anos — "uma experiência muito legal", resume, sem se estender, como quem trata o feito como consequência natural de décadas de quadra.

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O caminho até a editora também teve sua dose de acaso. Daniela não conhecia o mercado editorial e fez pesquisas que a deixaram desconfiada — "umas coisas meio estranhas, né, que a gente vê", diz, sem detalhar. A ponte foi uma amiga, parceira de agência de comunicação anos atrás, já publicada pela Vinca Literária, que fez a indicação. A aposta veio de Elaine, responsável pela editora carioca fundada em 2023 e dedicada exclusivamente a autoras mulheres. "A Vinca tem uma qualidade super boa, em todos os aspectos", diz Daniela. "Tô muito feliz com eles."
A estreia não tem um único palco. Há o lançamento no Boteco Rei do Rio, em São Paulo, com show acústico da banda do marido dela — "pra ilustrar o lançamento", como define, num gesto que reproduz o espírito coletivo do próprio TEA. Há um lançamento interno no Ipê Clube, clube paulistano do qual é sócia desde criança. Há presença confirmada em eventos de tênis ao longo do ano — um já neste fim de semana, dois mais em agosto — e, num desses encontros de agosto, a possibilidade concreta de reviver o próprio TEA: um torneio para reunir as mulheres que não foram ao lançamento do Boteco e comemorar "como antigamente", diz, oito anos depois de a liga ter parado. E há Paraty: em julho, Daniela estará na FLIP, a Feira Internacional do Livro, para lançar Tudo de Bom na maior vitrine literária do país.
Perguntada sobre o que espera que o livro deixe em quem lê, tenista ou não, Daniela não hesita, e fala como quem repete algo em que crê profundamente: "O esporte, pra mim, é o caminho da felicidade, total, total. Se eu tô triste, eu pratico esporte. Se eu tô feliz, eu pratico esporte. O esporte que me trouxe meu marido, meus amigos." Quer que leitores que nunca pegaram numa raquete sintam vontade de mudar isso — "que fiquem com vontade de ter o esporte na vida deles", diz — porque, para ela, a ausência do esporte é quase inconcebível: "Eu não consigo nem entender como é que uma pessoa que não faz esporte consegue viver com plenitude."
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