top of page
Banner Home_Parceiros Nittenis Club (1000 x 500 px) (Site).gif

Há exatos dez anos, Bellucci fazia o Brasil sonhar contra Nadal na Rio 2016

  • há 16 horas
  • 7 min de leitura

Atualizado: Há alguns segundos

O primeiro set durou 33 minutos e terminou com um ace de 193 km/h. Em 12 de agosto de 2016, na quadra principal do Centro Olímpico de Tênis lotada, Thomaz Bellucci quebrou Rafael Nadal duas vezes, fechou a parcial em 6/2 e obrigou o número 5 do mundo a jogar duas horas para chegar à semifinal olímpica. O placar final foi 2/6, 6/4 e 6/2 para o espanhol. O público ficou de pé no fim aplaudindo. E não era para o vencedor.


Aquele set tem um lugar próprio na história. Bellucci e Nadal se enfrentaram seis vezes na carreira, e foi a única em que o brasileiro tirou uma parcial dele. Não veio num torneio pequeno nem numa quadra vazia: veio nas quartas de final de uma Olimpíada em casa, com o estádio inteiro gritando o nome dele.



Tenista brasileiro devolve bola em quadra verde, com uniforme amarelo e azul; ao fundo, logo Rio 2016.
(Foto: JAVIER SORIANO/AFP/JC)

Trinta e três minutos

Quem estava lá custou a acreditar no que via. Bellucci entrou elétrico e agressivo desde a primeira bola, numa troca longa que já anunciava o tom. Nadal começou a somar erros não forçados, dez ao todo na parcial, contra apenas dois winners. Bellucci fazia o contrário: buscava bolas vencedeoras a cada ponto.


A primeira quebra veio no terceiro game, depois de uma bola para fora do espanhol. A segunda, no sétimo, para abrir 5/2. Restava a pergunta óbvia, a que perseguia Bellucci uns bons anos: e agora, com o set na mão, ele sente? Não sentiu. Fechou com o saque a 193 km/h, e o público foi ao delírio. Nadal não teve um único break point no set inteiro.


"Perdi para o número 5 do mundo, perdi para o Nadal"

A avaliação que Bellucci fez da própria semana, em entrevista logo depois da partida, é o melhor resumo que alguém produziu daquela tarde.


"Foi uma grande semana. Acredito que eu tenha feito bons jogos. O primeiro (contra Dustin Brown) foi um pouco estranho, mas depois, contra o (Pablo) Cuevas e o (David) Goffin, eu consegui jogar um belo tênis e hoje foi a mesma coisa. Eu saí feliz da quadra.

Perdi para o número 5 do mundo, perdi para o Nadal. Era um jogo em que ele era favorito. Claro, o jogo escapou um pouquinho, eu poderia ter ganhado, sim, mas tem que sair de cabeça erguida por ter feito tudo o que eu poderia dentro da quadra", analisou.


Do outro lado da rede havia um campeão olímpico com 14 títulos de Grand Slam e 69 no total, que quase não disputou os Jogos por causa de uma lesão no punho esquerdo e admitiu na coletiva que nem sabia como as coisas estavam indo tão bem, porque não tinha feito preparação nenhuma para o torneio. Nadal ainda não havia perdido no Rio, e não perderia naquele dia: horas depois, faturou o ouro nas duplas com Marc López.


A reação do Touro, e a resistência do brasileiro

O segundo set é onde a partida ganha contornos emocionantes.


Nadal passou a variar mais e a errar menos. No quarto game, abriu três break points, e Bellucci salvou todos no saque. Na quarta oportunidade, o espanhol acertou uma paralela para abrir 3/1. Parecia resolvido. Sacando para o set em 5/3, Nadal foi surpreendido: com o nome gritado do lado de fora, Bellucci devolveu brilhante, atacou o segundo saque com uma bola vencedora e devolveu a quebra. O set só terminou 6/4 porque o espanhol jogou demais no serviço do brasileiro logo em seguida.


No terceiro, o jogo já era outro. Nadal chegava em todas as bolas e praticamente não errava. Bellucci batia mais forte, incomodava, seguia acreditando, mas do outro lado estava o tenista que ganhou tudo o que ganhou. A quebra veio no quarto game, 3/1, e a partida se encaminhou.


O fim é a parte que o placar não conta.


A torcida reconheceu o esforço e gritou "Thomaz" várias vezes. Nadal fechou em 6/2 com o punho erguido e um sorriso. E aí veio o gesto: o espanhol apontou para o brasileiro e aplaudiu. O público, de pé, gritou de novo o nome do número 1 do Brasil.


"Foi muito emocionante receber um carinho, mesmo saindo com a derrota. Eu acredito que eu tenha dado meu 100% dentro de quadra, é isso que faz a torcida gritar meu nome no final do jogo. Eu dei tudo de mim. Independentemente se eu saí com a derrota hoje, foi por mérito do outro jogador. A semana inteira eu tenho recebido muito carinho da torcida. Eles têm me apoiado bastante. Foi uma grande vantagem jogar com essa torcida. A semana foi muito positiva para mim, independentemente de ter batido na trave, de não conseguir uma medalha, o que seria inédito e muito especial para mim. Eu saio feliz por ter conseguido fazer bons jogos e ter recebido tanto apoio da torcida", disse ele.





A semana em que apareceu um novo Bellucci

O jogo contra Nadal foi o ponto alto de uma campanha inteira, e é ela que sustenta a matéria.


Bellucci estreou contra o alemão Dustin Brown, que se lesionou durante o confronto. Depois bateu o uruguaio Pablo Cuevas, então campeão do Rio Open e do Brasil Open, por 6/2, 4/6 e 6/3, em 2h22. E nas oitavas eliminou o belga David Goffin, oitavo cabeça de chave, em dois sets. Jogou em dias consecutivos por causa do mau tempo do início da semana.


O brasileiro se viu nos braços da torcida e se soltou como nunca antes na carreira. Bateu favoritos, sorriu, vibrou, pulou para comemorar. Um Bellucci que o torcedor não estava acostumado a ver.


Nas duplas, com André Sá, fez algo ainda mais improvável: venceram na estreia Andy Murray, que seria o campeão olímpico de simples, e o irmão Jamie, em dois tie-breaks. Caíram na sequência para Fabio Fognini e Andreas Seppi, de virada, por 5/7, 7/5 e 6/3.


O sujeito que tinha acabado de dar uma bicicleta no número 1 do mundo

Vale desfazer uma impressão que o tempo criou. Bellucci não chegou aos Jogos como coadjuvante em fim de carreira.


Três meses antes, em maio, no Masters 1000 de Roma, ele venceu Gaël Monfils e Nicolas Mahut e depois aplicou um 6/0 em Novak Djokovic, então número 1 do mundo, em 24 minutos, antes de perder os dois sets seguintes. Nenhum outro tenista fez isso contra Djokovic enquanto ele era o primeiro do ranking.


E há a Copa Davis. Em setembro de 2014, no Ibirapuera, contra a Espanha, Bellucci estava perdendo por 2 sets a 0 para Pablo Andújar e virou: 3/6, 6/7, 6/4, 7/5 e 6/3. Depois de Marcelo Melo e Bruno Soares abrirem 2 a 1 nas duplas, ele fechou a série contra Roberto Bautista Agut, então 15º do mundo, por 6/4, 3/6, 6/3 e 6/2. Caiu de joelhos, chorando, e foi aplaudido pela mesma torcida que o havia vaiado um ano e meio antes, quando perdeu para o italiano Filippo Volandri no Brasil Open. Brasil 3 a 1 Espanha, e a volta ao Grupo Mundial.


O apelido que o perseguiu por uma década nunca resistiu a um confronto com a ficha corrida dele.


"O mais importante não é a aprovação dos outros"

Anos depois, já aposentado, Bellucci explicou à ATP o que havia por trás de tudo aquilo.

"Muitas vezes me senti deprimido. Acontece com muitos jogadores porque há muita pressão e expectativa", disse. Contou que sempre trabalhou com psicólogos e resumiu o aprendizado: "Com o tempo você percebe que o mais importante não é o que as pessoas pensam de você. Há pessoas que não vão te valorizar. O mais importante não é a aprovação dos outros, é ser feliz em quadra."


Na mesma entrevista, explicou por que jogava tênis. "Quando o Guga ganhou Roland Garros em 1997, eu era só um menino. Tinha nove anos. Quando vi ele na televisão, falei: se ele consegue, sendo brasileiro, acho que um dia eu também posso estar nos grandes torneios."


Dezenove anos depois daquele Roland Garros, o menino estava em quadra contra Nadal, com Guga no microfone da Globo, ao lado de Luis Roberto, transmitindo em TV aberta para o Brasil inteiro.


Peso olímpico

A campanha de Bellucci foi o melhor desempenho brasileiro no tênis daqueles Jogos e igualou a de Jaime Oncins, hoje capitão da Copa Davis, que chegou às quartas em Barcelona 1992 batendo um jovem Michael Chang na estreia. À frente de ambos, no masculino, segue Fernando Meligeni, que em Atlanta 1996 venceu quatro partidas, entre elas contra o espanhol Albert Costa e o australiano Mark Philippoussis, e disputou o bronze, perdendo para o indiano Leander Paes.


E claro, as brasileiras Luisa Stefani e Laura Pigossi, que fizeram história em Tóquio 2020, ao conquistarem o bronze olímpico - a primeira medalha do Brasil no tênis nos Jogos (batendo as russas Elena Vesnina e Veronika Kudermetova por 2 sets a 1, uma virada fantástica no Ariake Tennis Park).


O que veio depois

A carreira teve um capítulo difícil. Em julho de 2017, no ATP 250 de Bastad, Bellucci testou positivo para hidroclorotiazida. Ele explicou em nota que a substância veio de um multivitamínico manipulado, contaminado de forma cruzada em doses mínimas, e que sempre teve cuidado e respeitou as regras. A ITF aceitou a explicação de contaminação cruzada e o histórico do jogador, e aplicou cinco meses de suspensão, a punição mais branda disponível no regulamento. "Sempre acreditei que seria absolvido", disse ele na época, acrescentando que cinco meses foi mais do que esperava, porque não tinha culpa nenhuma, e que era importante ter provado a própria inocência.


Aposentou-se em 22 de fevereiro de 2023, no Rio Open. "É o momento certo", disse à ATP. "Me sinto feliz e um pouco triste também. O tênis esteve na minha vida por muitos anos, não é fácil parar de jogar."


Fechou com quatro títulos de ATP, 200 vitórias em simples e o 21º lugar do ranking mundial, alcançado em julho de 2010. É o segundo brasileiro mais bem ranqueado da história, atrás apenas do ídolo de infância, com vitórias sobre Andy Murray, Tomas Berdych, Kei Nishikori, David Ferrer, Fernando Verdasco e Janko Tipsarevic quando todos eram top 10.


Uma ponte que ninguém previa

Até maio deste ano, quando João Fonseca chegou às oitavas de Roland Garros, Bellucci era o último homem brasileiro a alcançar essa fase em um Grand Slam, feito conquistado em 29 de maio de 2010. Dezesseis anos separaram um do outro.


Ele passou a carreira sendo cobrado por não ser Guga. Passou dezesseis anos sendo o último brasileiro a fazer o que Guga fazia. Segurou a porta aberta sozinho até que alguém chegasse.


E em 12 de agosto de 2016, numa quadra lotada em Jacarepaguá, obrigou um dos maiores jogadores da história do esporte a trabalhar duas horas, a enfaixar o dedinho do pé esquerdo no meio do terceiro set e a apontar para o adversário no fim, aplaudindo. O ginásio inteiro estava de pé. Não era para o vencedor.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page