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Lucky-loser histórica, questão política aberta: o que está em jogo na semi Potapova x Kostyuk em Madri

  • há 7 horas
  • 6 min de leitura

Uma das semifinais do WTA 1000 de Madri vai começar e terminar sem aperto de mãos. E não será por descuido das atletas.


Marta Kostyuk, 23ª do mundo, enfrenta Anastasia Potapova às 16h30 (de Brasília) e deixou claro, após superar as quartas de final, que a mão não será estendida. Potapova nasceu em Saratov, na Rússia, competiu toda a carreira sob a bandeira russa e, em dezembro do ano passado, obteve a cidadania austríaca após ter o visto de residência permanente aprovado no país. Para a ucraniana de 23 anos, foto abaixo, o passaporte trocado não resolve nada.



"A única pessoa que eu cumprimento é a Daria Kasatkina, porque ela não só mudou o passaporte, como também declarou abertamente que não apoia a guerra. Por isso, eu e algumas outras meninas decidimos apertar a mão dela, puramente por respeito", disse Kostyuk. "Sei que outras jogadoras mudaram de nacionalidade, mas nenhuma delas se manifestou publicamente contra a guerra e não disseram nada em apoio ao povo ucraniano. Então, para mim, isso não muda nada."


Trocas de cidadania

Potapova é mais uma tenista de origem russa a trocar de bandeira no circuito feminino nos últimos 12 meses, depois de Daria Kasatkina, que passou a defender a Austrália, e de Maria Timofeeva e Kamilla Rakhimova, que adotaram o Uzbequistão. A distinção que Kostyuk faz é cirúrgica: Kasatkina não apenas saiu da Rússia como declarou publicamente que não apoia a invasão à Ucrânia e assumiu abertamente que é gay em um país onde isso tem consequências reais.


Jovem tenista em ação, gritando com emoção. Usa roupa verde. Fundo com flores vermelhas e brancas. Atmosfera intensa e energética.
Anastasia Potapova (Foto: Mutua Madrid Open)

Num país com leis com sérias restrições à comunidade LGBT+, endurecidas em 2022, as tomadas de posição tornaram a vida ali inviável. Ao mudar para a Austrália, Kasatkina disse não ter tido "muita escolha". Isso, aos olhos das ucranianas, é uma posição. É por isso que ela recebe o cumprimento.


Varvara Gracheva, que trocou a cidadania há mais tempo, assumindo a bandeira da França em 2023, é outra tenista que também não recebe cumprimento de ucranianas. Ampliam essa lista Elina Avanesyan, de origem russa mas que assumiu a bandeira da Armênia em 2024, Natela Dzalamidze, especialista de duplas que trocou para a Geórgia ainda em 2022 para disputar o Wimbledon daquele ano, e Polina Kudermetova, irmã da top 20 Veronika Kudermetova, agora uzbeque.


O Uzbequistão emergiu nos últimos meses como novo destino para russas em busca de passaporte, seguindo o modelo já consolidado pelo Cazaquistão, que há anos recruta talentos russos em troca de infraestrutura e patrocínio. O interesse é estratégico: fortalecer a equipe na Billie Jean King Cup e garantir representatividade nos Jogos Olímpicos de 2028.


A guerra

Desde a invasão russa à Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, a recusa ao cumprimento tornou-se uma das marcas mais persistentes do circuito feminino. Elina Svitolina, a mais reconhecida voz do tênis ucraniano, define o ato como missão: manter a Ucrânia em pauta quando o mundo se ocupa de outras coisas. Lesia Tsurenko declarou à ESPN que cada partida contra russas e bielorrussas é "mais um lembrete de que há uma guerra no meu país". Dayana Yastremska foi direta sobre o que mais a preocupa: "O pior é que você se acostuma com isso. E isso é muito ruim. Porque a maioria das pessoas está esquecendo o que está acontecendo lá." A avó de Yastremska escapou por pouco de um bombardeio que atingiu seu edifício.


A tensão não fica só em quadra. As jogadoras ucranianas chegaram a pressionar o circuito para que todos os atletas assinassem uma declaração formal condenando a invasão como condição de participação nos torneios. A resposta foi não.


Como ATP, WTA e ITF responderam

Em março de 2022, as três entidades máximas do tênis, ATP, WTA e ITF, emitiram uma nota conjunta condenando a invasão e estabeleceram o protocolo que segue vigente: atletas russos e bielorrussos podem competir individualmente, mas sem bandeira, sem o nome do país e sem quaisquer símbolos nacionais. A ITF foi além: suspendeu as federações das duas nações de todas as competições por equipes, incluindo Davis Cup e Billie Jean King Cup, e cancelou indefinidamente todos os torneios em seus territórios.


Ainda naquele ano, Wimbledon optou pela exclusão total dos atletas dos dois países da competição. ATP e WTA contestaram a medida como discriminatória e suspenderam os pontos de ranking daquela edição. A proibição foi revertida em 2023, condicionada à assinatura de uma declaração de neutralidade pelos atletas. O tênis optou por manter o acesso ao circuito e restringir apenas a representação nacional. Mais de quatro anos de guerra depois, nenhuma das entidades alterou o posicionamento.


As duas semifinalistas

Kostyuk chega em alta. A ucraniana vem de dez vitórias seguidas, todas no saibro, série que começou com o título em Rouen, seu segundo WTA, e que inclui, em Madri, vitórias sobre Caty McNally nas oitavas e Linda Noskova, 13ª do ranking, por 7/6 (7-1) e 6/0 nas quartas. É a segunda semifinal de WTA 1000 da carreira, igualando o feito em Indian Wells na temporada passada, e a terceira de 2026. Voltando ao top 20 com a campanha na capital espanhola, a tenista busca a sexta final da carreira. Seu melhor ranking ainda é o 16º lugar, alcançado em junho de 2024.


Do outro lado da rede, uma tenista que carrega um feito histórico. Potapova, 56ª do ranking e 25 anos, entrou na chave de Madri como lucky-loser após ser eliminada no qualifying por Sinja Kraus. No torneio principal, derrubou Jelena Ostapenko, depois Elena Rybakina, número 2 do mundo, nas oitavas, e superou a experiente Karolina Pliskova por 6/1, 6/7 (4-7) e 6/3 nas quartas. É a primeira lucky-loser a alcançar uma semifinal de WTA 1000 desde a criação do formato, em 1990. Ex-número 21 do mundo e detentora de três títulos e quatro vice-campeonatos, a austríaca de origem russa vive o melhor resultado da carreira.


"É isso que torna o nosso esporte tão bonito. Recebi uma segunda chance e agora estou aqui, sem palavras, super feliz e, bem, não há nada melhor que pudesse me acontecer neste momento", comemorou Potapova. "É uma pequena explosão de emoções. Não consegui controlar meus nervos naquele momento, mas parece que este torneio continua me dando segundas chances e eu continuo aproveitando."


A classificação quase não veio. Potapova perdeu três match-points no segundo set antes de levar a virada na parcial, e chegou a perder a confiança no set decisivo. Foi quando o namorado, o tenista holandês Tallon Griekspoor, interviu das arquibancadas. "Para ser honesta, eu estava um pouco perdida mentalmente no terceiro set. Eu não acreditava em mim mesma naquele momento. Ele jogou mais cedo e chegou bem na hora. Me salvou na hora certa", contou Potapova.


"Eu estava falando demais comigo mesma, com a minha equipe, gastando muita energia com palavras que eu não deveria. Eu deveria ter me concentrado e lutado a cada ponto. Mas naquele exato momento, foi quando eu ouvi: 'Cale a boca e joga' e me disse para continuar trabalhando e começar a usar as pernas. Foi o que eu fiz", explicou. "Comecei a ficar mais quieta, a movimentar melhor as pernas. Tive um pouco de sorte. Ela também cometeu duplas faltas e fez alguns erros não forçados. Mas foi importante que estivéssemos juntos nessa partida e me deu muita energia."


Potapova não poupou elogios ao holandês. "O apoio que ele me dá é inacreditável. Ele acredita muito. As coisas que ele consegue dizer, acho que ninguém consegue dizer durante a partida. Ele não tem medo de mim e pode me dizer literalmente qualquer coisa." E completou: "Acho que ele tem um futuro brilhante como treinador, nós já sabíamos disso antes desta partida."


Mais uma russa espera na final

O histórico entre Kostyuk e Potapova está empatado em 2 a 2, mas a ucraniana venceu os dois últimos confrontos em sets diretos, incluindo um em Madri no ano passado. A própria Kostyuk não subestimou a adversária: "Ela teve uma ótima trajetória aqui, está confortável e parece confiante. Ela já se saiu muito bem em Linz, chegando à final, então será uma ótima partida. É a primeira vez que ela chega a uma semifinal de um WTA 1000 em quadra de saibro, assim como eu. Será interessante. Estou animada para entrar em quadra e ver até onde posso chegar."


Jogadora de tênis Mirra Andreeva sorrindo e acenando, vestindo amarelo, em quadra com flores vermelhas ao fundo. Atmosfera alegre e ensolarada.
Mirra Andreeva (Foto: Mutua Madrid Open)

A outra semifinal colocou frente a frente a russa Mirra Andreeva, de 19 anos recém-completados em solo espanhol e 8ª do mundo, e a americana Hailey Baptiste, 32ª colocada e algoz da tricampeã Aryna Sabalenka.


Andreeva, que reúne cinco títulos no circuito, dois deles nesta temporada, bateu a americana de 24 anos em sets diretos. É a sétima final na curta carreira da prodígio russa.




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