O Brasil está preparado para ter uma cultura de alto rendimento?
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Por Haroldo Zwetsch Jr.
O Brasil sempre teve atletas expoentes no tênis ao longo da sua história. Sempre
tivemos nomes de sucesso, jogadores que alcançaram níveis relevantes no
cenário internacional. Mas, na grande maioria das vezes, esses casos foram
isolados.
Nunca foi uma produção consistente. Sempre foram exceções.
A partir de Gustavo Kuerten, o cenário começou a mudar. O tênis brasileiro ganhou
visibilidade, passou a ser mais compreendido e mais praticado. O esporte deixou
de ser distante e começou a entrar na vida das pessoas.
Com o tempo, vieram investimentos, projetos, maior atuação das federações e um
aumento no número de praticantes. O tênis começou a crescer — não apenas
como prática, mas como cultura.
Nos últimos anos, tivemos a consolidação de Beatriz Haddad Maia como a maior
expoente da era moderna do tênis brasileiro. Durante muito tempo, ela sustentou
sozinha o protagonismo do país, trazendo visibilidade, resultados e conexão com
o público através do seu carisma.
Logo depois, Luisa Stefani, nas duplas, trouxe conquistas expressivas e reforçou o
posicionamento do Brasil no cenário internacional. Historicamente, o país sempre
teve bons nomes nas duplas, e isso continua sendo uma característica forte.
Esse conjunto de resultados começou a impactar a base.
O Brasil passou a construir uma cultura competitiva mais sólida nas categorias de
formação. Houve evolução na capacitação dos treinadores, melhoria nos
processos de ensino e uma organização maior em projetos de desenvolvimento.

E então surge João Fonseca.
Um atleta jovem, com nível de jogo impressionante para a idade, que não apenas
compete — mas sustenta desempenho. Ele não representa apenas talento. Ele
representa uma nova referência.
Ele traz de volta o espírito competitivo do tênis brasileiro no masculino,
fortalecendo a cultura do esporte e criando identificação para as novas gerações.
Hoje, o Brasil tem referências no feminino e no masculino.
Tem uma geração jovem promissora — nomes como Luiz Guto Miguel, Naná e
Vitória Barros já se destacam, vencendo torneios na América do Sul com 13, 14
anos.
O país, inclusive, vem se consolidando nos últimos cinco a seis anos como uma
das maiores forças da América do Sul em competições por equipes.
O ambiente competitivo está melhor.
Mas a pergunta central permanece:
Estamos realmente construindo uma cultura competitiva?
Porque cultura não é resultado pontual.
Cultura é padrão.
E padrão não se mede pelos melhores. Se mede pela base.
Será que todos os treinadores no Brasil têm cultura competitiva?
Será que todos sabem desenvolver isso no dia a dia?
Porque não adianta termos alguns clubes de excelência se a maioria dos
praticantes não está nesses ambientes.
Hoje, talvez, o maior impacto do tênis brasileiro não venha dos clubes.
E isso exige uma reflexão mais profunda.
Como criar ambientes fortes fora dos centros tradicionais?
Como estruturar processos que formem jogadores — e não apenas alunos?
Como fazer da competição uma ferramenta de formação, e não apenas de
resultado?
Países menores que o Brasil, com menos recursos, conseguem resultados
maiores e mais consistentes. Isso não é sobre dinheiro.
É sobre cultura.
É sobre colocar o esporte dentro da escola.
É sobre tornar a competição parte do dia a dia.
É sobre formar famílias que entendam o esporte como caminho possível — não
como exceção.
É sobre criar desejo.
Criar ambição.
Criar visão de futuro.
O atleta não nasce competitivo.
Ele é formado em ambientes que exigem, organizam e sustentam
comportamento.
E isso começa muito antes do alto rendimento.
Começa na base.
Começa no treinador.
Começa na decisão diária de como se treina.
Se o Brasil quiser, de fato, se tornar uma potência consistente no tênis, precisa
parar de celebrar exceções e começar a construir padrão.
Porque sem cultura, não existe continuidade.
E sem continuidade, não existe potência.
A pergunta não é se temos talentos.
A pergunta é se temos estrutura, mentalidade e decisão para transformar talento
em sistema.
E isso passa por todos nós.
Treinadores, pais, instituições e país.
Cultura competitiva não se declara.
Se constrói.
Todos os dias.
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Haroldo, como sempre, cirúrgico. São perguntas importantes para fazermos. Acho que um aumento na quantidade de torneios é um fator muito importante. Desde de ITFs, Cosats até Challengers e ATPs geram possibilidade pros nossos tenistas e criam o ambiente pra que se invista mais em projetos nacionais e regionais.