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O futuro do tênis feminino brasileiro é muito promissor. Apesar de tudo

  • há 1 hora
  • 7 min de leitura

Existe um tipo de final que o esporte produz de tempos em tempos: aquela em que o resultado importa menos do que o que ela anuncia. A final feminina do Banana Bowl deste domingo, em Gaspar, foi exatamente isso.


Nauhany Silva derrotou Victória Barros por 6/3, 4/6 e 6/3 e encerrou um jejum de 35 anos do tênis feminino brasileiro, que não tinha uma campeã no torneio mais tradicional do continente. Mas o que aconteceu naquelas quadras do Bella Vista Country Club vai muito além do troféu que ficou com a paulistana. O que aconteceu foi o primeiro capítulo de uma rivalidade que pode definir o tênis brasileiro pelos próximos quinze anos.


Duas tenistas sorrindo, segurando troféus do 56º Banana Bowl. Fundo marrom com ilustração e texto "Banana Bowl". Roupas roxas e pretas.
Barros e Silva (Foto: Luiz Candido/CBT)

Naná tem 16 anos. Victória também. As duas já estão entre as 11 melhores juvenis do mundo. E nenhuma das duas parece perto de parar por aí.


Dois caminhos para o mesmo lugar

Nauhany Silva e Victória Barros chegaram ao mesmo patamar por rotas completamente diferentes. Essa diferença é o que torna a rivalidade interessante, e o que torna cada confronto entre as duas um teste de modelo.


Naná é paulistana, nasceu em março de 2010 e faz parte da Rede Tênis Brasil, projeto coordenado por Léo Azevedo, ex-técnico de Thomaz Bellucci, que aposta na mescla entre o circuito juvenil e o profissional desde cedo. No começo de 2026, antes de voltar ao juvenil sul-americano, ela jogou dois ITF W35 na Inglaterra. O raciocínio não é complicado: quem já sabe o que é perder para uma profissional chega ao juvenil com outra cabeça.



A cabeça está funcionando. Nesta temporada, Naná acumula 21 vitórias consecutivas e três títulos antes do Banana Bowl. São sete no total, tudo com 16 anos. Na semana anterior ao torneio catarinense, em Porto Alegre, ela encerrou outro jejum: foi a primeira campeã brasileira da Brasil Juniors Cup desde Miriam D'Agostini, em 1996. O Banana Bowl tem graduação J500, o nível mais alto do circuito fora dos Grand Slams. Ela entrou como quarta favorita e saiu campeã. Talento, o Brasil tem de sobra. Consistência é mais raro.


O jogo de Naná é construído sobre potência e ritmo. Saque forte, bola pesada do fundo, capacidade de encerrar pontos com agressividade quando a adversária encurta. Na final, foi assim que ela virou um 0/2 no primeiro set e fechou a parcial por 6/3. No terceiro, depois de ser quebrada no primeiro match point, foi assim que ela voltou.


Victória Barros carrega uma história que, se fosse roteiro de filme, alguém diria que é exagero. Nasceu em Natal, filha de uma mulher que jogava vôlei e beach tennis e levava a filha para a areia antes mesmo de ela ter idade para entender o que estava fazendo. Em 2018, com menos de 10 anos, Victória e a mãe Maria Luiza deixaram a capital potiguar e começaram uma peregrinação que parece manual de formação: Instituto Tênis em São Paulo, Instituto Ícaro em Curitiba, Rede Tênis Brasil de volta a São Paulo. Academia por academia, cada etapa construindo algo que viria a ser reconhecido do outro lado do Atlântico.


Em 2022, Patrick Mouratoglou foi ao Brasil. Treinou com Victória por uma hora e meia. Ela conta que não ia falar não para a oportunidade. Ele conta que ficou encantado. Os dois concordam no resultado.



Mouratoglou é o homem que passou dez anos ao lado de Serena Williams. Ele não aceita todo mundo. Em janeiro de 2023, com 13 anos, Victória e a mãe se instalaram na Academia Mouratoglou em Biot, na Riviera Francesa. Ela é a primeira sul-americana a treinar lá. No mesmo corredor que Coco Gauff, Holger Rune e Tsitsipas. Nike e Wilson assinam o equipamento. A Claro entrou como patrocinadora quando ela tinha 14 anos. Jorge Paulo Lemann apoia a carreira desde os 9. A estrutura ao redor de Victória Barros é a que a maioria das tenistas profissionais brasileiras nunca teve.


O jogo dela é diferente do de Naná. Victória é uma jogadora de inteligência de quadra: varia altura e peso de bola, usa a rede com propósito, encontra soluções quando o jogo está desfavorável. Na final, depois de perder o primeiro set, ela não tentou bater mais forte. Ajustou o plano, foi à rede com frequência, abriu 5/1 no segundo. Foi o que Mouratoglou treina. Um jogador que pensa bem em quadra, quando adicionar força física, se torna muito difícil de parar.


Uma final nada amistosa


A decisão de Gaspar não foi uma confraternização. Foi um jogo carregado, com nervos expostos dos dois lados e a árbitra precisando entrar em cena.


Ao longo de toda a partida, as duas vibraram com força nos próprios acertos e nos erros da adversária. O clima foi ficando mais pesado à medida que os sets avançavam. No segundo, depois de fechar a parcial por 6/4 com a quebra decisiva, Victória vibrou intensamente olhando diretamente para Naná. A reação irritou a paulistana, que foi até a árbitra no intervalo entre sets e, segundo captação de áudio, avisou que iria fazer "bem pior" no terceiro. A juíza tomou a sinalização a sério e repreendeu Barros formalmente.


O terceiro set teve mais tensão: Naná desperdiçou o primeiro match point, foi quebrada, precisou recuperar o serviço e só fechou na segunda oportunidade. Quando o ponto final veio, Victória não segurou: jogou a raquete longe na quadra.


O cumprimento na rede foi o resumo do jogo. Um aperto de mão rápido, sem abraço, sem beijo, sem palavra. Victória ainda se recusou a cumprimentar a árbitra ao sair da quadra.

No palco da premiação, dez minutos depois, as duas trocaram elogios com elegância e se trataram como amigas. Porque são. "A final foi contra uma amiga, em uma decisão 100% brasileira que mostra a força do nosso tênis", disse Naná ao receber o troféu. O esporte de alto rendimento tem essa duplicidade: você pode gostar muito de alguém e ainda assim não suportar perder para ela. O alto rendimento não exige amizade dentro de quadra. Exige vontade de ganhar. As duas têm de sobra. Sinal de que as duas entendem exatamente o que estão trilhando.



O que está sendo construído — e o que ainda falta construir

É impossível olhar para Naná e Victória sem pensar no que pode vir. Mas também é impossível olhar para elas sem reconhecer o que custou para chegar até aqui.


Nenhuma das duas é fruto de qualquer programa oficial de prospecção de talentos. As duas são produto do esforço de suas famílias, da visão de empresários e treinadores privados e, no caso de Victória, do interesse de um dos técnicos mais influentes do mundo que, por acaso, veio ao Brasil numa época em que ela já tinha algo para mostrar. O tênis brasileiro não as descobriu. Elas apareceram apesar do tênis brasileiro.


Jovem com vestido azul e boné preto segura troféu do Banana Bowl, sorrindo. Fundo com logotipos de patrocinadores em painel branco.
Naná Silva (Foto: Divulgação)

Isso merece ser dito com clareza, especialmente num dia em que há tanto para celebrar.

O Brasil tem o hábito de investir no talento depois que ele já se provou. O apoio chega, os patrocinadores chegam, as federações aparecem na foto quando o troféu já está na mão. É ótimo que cheguem — não permanecer indiferente a uma Naná ou uma Victória depois que elas aparecem seria um desperdício ainda mais grave. Mas o modelo é reativo por natureza, e um modelo reativo deixa gente pelo caminho.


João Fonseca demonstra como o investimento totalmente privado conseguiu bancar a ascensão de um talento excepcional. A condição financeira diferenciada da família ajudou muito, e segue sendo um diferencial real. Raríssimo ver no circuito profissional de hoje um tenista iniciante com tamanha estrutura desde o começo. Isso é muito positivo — não é um demérito a nenhum dos envolvidos — mas está muito longe de ser a realidade brasileira.


A pergunta que fica, e que uma final como a de hoje em Gaspar tem a obrigação de provocar, é simples: quantas Nanás e Victórias ficaram pelo caminho neste país continental sem que ninguém estivesse olhando na hora certa? O futebol e o vôlei têm suas peneiras, com todos os defeitos que têm. O tênis não tem nada equivalente. As entidades oficiais têm a obrigação de observar, avaliar e fomentar candidatos a uma carreira de ponta antes que dependam de um mecenas para sobreviver. A ciência esportiva atual torna isso mais palpável do que nunca. Falta vontade, não ferramenta.


Nenhuma dessas perguntas diminui o que Naná e Victória conquistaram. A celebração honesta de um feito inclui nomear o que poderia ter impedido que ele acontecesse.

Nenhuma brasileira tinha chegado ao top 10 juvenil durante a carreira jovem. Nem Bia Haddad, que parou na 15ª posição. Com o Banana Bowl, as duas chegam juntas a esse patamar. Isso nunca havia acontecido.


Tenista de vestido verde golpeia a bola em quadra. Fundo preto com logotipo CBT. Expressão focada, energia e movimento.
Victória Barros (Foto: Luiz Candido/CBT)

Victória chegou ao torneio em recuperação de lesão na panturrilha sofrida no Australian Open Juvenil de janeiro, disputou sua terceira competição da temporada sem ritmo acumulado e chegou à final. "Esses últimos meses não foram fáceis. Mas fiz o que pude e tenho que continuar trabalhando, porque ainda tem muita coisa pelo ano", disse ela na cerimônia de premiação. É a fala de quem já entende o que é o circuito.


Naná chegou com 21 vitórias seguidas, virou a favorita, fechou o torneio mais tradicional do continente e ainda disputou a final de duplas no mesmo fim de semana. Léo Azevedo, head coach da Rede Tênis Brasil, resume o momento com precisão: "Seguimos com os pés no chão, olhando para o longo prazo." É o antídoto certo para o excesso de euforia. E é exatamente por esse tipo de clareza que a trajetória de Naná tem sido o que tem sido.


A final deste domingo em Gaspar foi a primeira vez que se enfrentaram no circuito juvenil. A próxima vez, Victória vai lembrar do aperto de mão frio. Naná vai lembrar da raquete no chão. As duas vão entrar em quadra querendo resolver aquela conta.


É assim que uma rivalidade de verdade parece quando está nascendo. O tênis brasileiro não viu isso no feminino há muito tempo. E seria bom que, da próxima vez, as entidades responsáveis não precisassem de um mecenas estrangeiro para garantir que ela continue existindo.

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