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O detalhe da carta de Gaudenzi, presidente da ATP, que pode mudar o Rio Open de lugar no calendário

há 2 horas
6 min de leitura

Entre bônus milionários, mudanças no ranking e corte nas chaves de duplas, a carta aberta publicada nesta quinta-feira por Andrea Gaudenzi, presidente da ATP, traz um item que mexe diretamente com o Rio Open: a confirmação do Masters 1000 da Arábia Saudita a partir de 2028, nos primeiros meses da temporada, entre janeiro e fevereiro, a mesma janela em que o circuito passa pelo saibro de Buenos Aires, Rio de Janeiro e Santiago.



A carta não cita a América do Sul, mas a conta não é difícil. Pelo regulamento da ATP, nenhum outro evento do circuito pode ser disputado em semana de Masters 1000, e a tendência, segundo O Globo, é que o torneio saudita aconteça em fevereiro, logo depois dos ATP 500 de Doha e Dubai. Gaudenzi esteve no Rio durante a edição deste ano do Rio Open justamente para discutir com os organizadores uma possível mudança de mês da gira. Reportagem do argentino La Nación, citada pelo O Globo, apontou outubro ou novembro como prováveis novas datas. A carta desta quinta não traz nenhuma.


No Jockey Club Brasileiro, a reorganização é vista como oportunidade. O torneio quer aproveitar a mudança para trocar o saibro pela quadra dura e erguer uma nova arena central para 10 mil pessoas, projetos que dependem de aval da ATP. “Eles enxergam a América do Sul como um mercado de potencial alto”, afirmou ao O Globo, em fevereiro, o diretor esportivo do Rio Open, Lui Carvalho. Ele não aposta em novembro por causa da concentração de torneios na Europa e do fim da temporada.


O calendário, porém, é só uma das frentes do pacote. Na carta, Gaudenzi expôs a lógica que amarra todas as mudanças: “As propostas baseiam-se em três princípios. Primeiro, as recompensas devem ser direcionadas para onde os fãs têm maior envolvimento e, à medida que o esporte cresce, mais jogadores se beneficiam desse crescimento. Segundo, o bem-estar do jogador: a estrutura deve reduzir a pressão para jogar em excesso e ajudar os jogadores a gerenciar as demandas da temporada. Terceiro, incentivo, não obrigação: os jogadores escolhem onde e quando competir, e a estrutura deve garantir que a melhor opção seja também a mais recompensadora”, escreveu o mandatário.


O pacote não é pequeno. Pelas contas da própria ATP, o investimento central da entidade em premiação e apoio aos jogadores passaria de US$ 100 milhões por ano a partir de 2028, sem contar o prize money pago nos torneios e a divisão de lucros dos Masters 1000. Somando tudo, a remuneração total no circuito (excluídos os Grand Slams) chegaria a US$ 350 milhões. Nada está aprovado. O texto final ainda passa pelo Conselho de Jogadores, pelo Conselho de Torneios e pelo board da ATP antes de ser levado às reuniões de fim de ano em Turim, já sob o terceiro mandato de Gaudenzi, reeleito em fevereiro para um período que vai até 2028.


O que muda no dinheiro

O fundo de bônus anual da ATP (o Bonus Pool) saltaria de US$ 21,5 milhões para US$ 50 milhões. Hoje, esse dinheiro é dividido entre os 30 melhores nos Masters 1000 e no ATP Finals, e só leva a parte cheia quem disputa os oito Masters obrigatórios. A partir de 2028, o pagamento seria calculado pelo ranking do jogador na entrada de cada Masters 1000 obrigatório, com exigência mínima de quatro participações nesses eventos para entrar na divisão. Traduzindo: uma final de ATP 500 numa semana pode decidir quem recebe o maior cheque no Masters da semana seguinte.


A base do ranking também ganha reforço. Quem terminar a temporada entre os 250 melhores do mundo vai dividir US$ 25 milhões, dinheiro pensado para ajudar a bancar os custos de rodar o circuito. E a contribuição anual da entidade ao fundo de pensão dos jogadores chegaria a cerca de US$ 30 milhões, beneficiando 300 tenistas por ano. Em 2025, segundo a ATP, foram US$ 28 milhões, recorde até então.


Incentivo, não obrigação, diz a carta. Mas um bônus que exige presença mínima em quatro Masters obrigatórios mostra que a fronteira entre uma coisa e outra é bem fina.


Ranking: mais pontos para quem vai longe

Os Masters 1000 passariam a pesar mais na pontuação, com as rodadas finais distribuindo proporcionalmente mais pontos. A intenção declarada é empurrar a elite a jogar o maior número possível de torneios da categoria.


Segundo o documento de perguntas e respostas divulgado pela ATP junto com a carta, cai também a regra que hoje permite substituir até três resultados fracos em Masters 1000 por campanhas melhores em ATP 500 ou 250. A entidade ainda estuda limitar quantos resultados de ATP 250 contam no ranking dos jogadores do topo. O argumento oficial é o desgaste: sem a chance de compensar uma derrota precoce, ninguém precisaria sair à caça de pontos em semanas que deveriam ser de descanso.


Calendário: Arábia Saudita entra, ATP 250 encolhe

A ATP confirmou que o Masters 1000 da Arábia Saudita estreia em 2028. O acordo foi fechado em outubro de 2025 com a SURJ Sports Investments, empresa ligada ao fundo soberano saudita (PIF), e representa a primeira ampliação da categoria desde sua criação, em 1990. Na ocasião, Gaudenzi disse à agência AFP que o torneio será em quadra dura e terá uma semana de duração. Ao contrário da maioria dos Masters, não será obrigatório.


A reorganização vai além. A proposta prevê semanas dedicadas por categoria: 10 para os ATP 250, oito para os ATP 500 e 10 para os Masters 1000. Para chegar lá, a ATP quer reduzir a quantidade de eventos 250, seja negociando os direitos desses torneios, seja promovendo alguns deles ao nível 500. Para ter a dimensão do corte, o calendário de 2026 tem 29 torneios ATP 250. A própria entidade admite que o modelo de semanas exclusivas dificilmente estará completo já em 2028.


Ao defender o pacote, Gaudenzi também falou diretamente ao torcedor: “Essas propostas visam proporcionar aos jogadores uma estrutura mais clara para o planejamento de suas temporadas, recompensar o desempenho nos eventos mais importantes do circuito e ampliar o apoio a mais jogadores. Para os fãs, isso significa ver os melhores jogadores do mundo competindo entre si com mais frequência, com rivalidades se desenvolvendo ao longo do ano e maiores expectativas em momentos decisivos”, disse ainda o italiano.


Duplas: o ponto que mais divide o circuito

Nenhum item da reforma é tão delicado quanto este. A ATP quer reduzir as chaves de duplas de seus torneios e redistribuir o dinheiro economizado para as chaves de simples. Na carta, o tom é cauteloso: fala-se em possíveis ajustes no tamanho das chaves, com a garantia de que a verba realocada continuaria indo para jogadores, sobretudo para o quali e as primeiras rodadas de simples.


Os duplistas já conhecem a ideia e não gostaram. Em julho, durante Wimbledon, a ATP apresentou a cerca de 50 especialistas um plano que cortava as chaves pela metade (de 32 para 16 duplas nos Masters 1000 e para oito nos ATP 500 e 250) e mudava a divisão da premiação de 80% para simples e 20% para duplas para 90% e 10%, segundo a Associated Press. A resposta veio num manifesto coletivo, que acusou a entidade de falta de transparência e afirmou que seria impossível viver do circuito fora do top-30 de duplas. Bob e Mike Bryan também criticaram o plano publicamente.


Há brasileiros no centro dessa briga. Orlando Luz e Rafael Matos aderiram ao manifesto, segundo o Lance!, e levaram a discussão para dentro da quadra no melhor momento da carreira: campeões em Montreal e, dez dias depois, em Cincinnati, tornaram-se a primeira dupla do Brasil a ganhar dois Masters 1000 seguidos. Depois da final nos Estados Unidos, vencida contra o alemão Constantin Frantzen e o holandês Robin Haase por 6/4, 3/6 e 10-7, Luz falou ao público: “Nós queremos manter as duplas vivas, então é bom saber que vocês gostam”, disse o gaúcho. Haase, vice, usou o próprio discurso para cobrar a ATP.


Próximos passos

As propostas seguem em discussão com jogadores, torneios e o board da ATP, além de consulta aos demais membros da entidade. A meta é apresentar o pacote final nas reuniões de fim de ano em Turim, sede do ATP Finals, para que as mudanças valham a partir de 2028. Até lá, os duplistas já falaram em medidas jurídicas caso o corte avance. E Buenos Aires, Rio e Santiago esperam para saber onde vão parar no calendário.

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