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Paris chora dois artistas: a despedida de Wawrinka e Monfils de Roland Garros

  • há 4 horas
  • 9 min de leitura

Stan Wawrinka e Gael Monfils jogaram seus últimos Roland Garros nesta segunda-feira, em uma jornada dividida entre o sol da tarde na Simonne Mathieu e a meia-noite na Philippe Chatrier. O suíço, campeão em 2015, caiu na estreia diante do holandês Jesper de Jong por 6/3, 3/6, 6/3 e 6/4. O francês resistiu cinco sets até ceder ao compatriota Hugo Gaston por 6/2, 6/3, 3/6, 2/6 e 6/0. Duas cerimônias de adeus, e Paris perdeu, no mesmo dia, dois dos seus maiores artistas das últimas duas décadas.



A coincidência é cruel e simbólica. Wawrinka, aos 41 anos, e Monfils, aos 39, anunciaram que 2026 seria sua última temporada no circuito. Ambos receberam convite para um adeus na chave principal do Slam francês, e os dois pediram passagem ao tempo até o limite do que o corpo permitia. Os roteiros, ainda assim, foram opostos. O suíço lutou dentro do possível, perdeu sem drama. O francês transformou a derrota num espetáculo de cinco sets, com a torcida acreditando na virada heroica até a quadra apagar, no terceiro set vencido pelo placar mínimo.


Stan Wawrinka, o homem do backhand mais bonito do circuito


A quadra Simonne Mathieu estava com 33 graus quando Wawrinka entrou para enfrentar De Jong, lucky-loser holandês e 106º do mundo que só estava no torneio porque o francês Arthur Fils desistiu por lesão no quadril. O ex-número 3 do mundo, hoje 113º, perdeu o primeiro set após uma quebra no quarto game e duas chances desperdiçadas para responder. No segundo, finalmente igualou o duelo com um break no oitavo game.


Depois disso, foi o que o circuito tem testemunhado neste 2026 de despedida: lampejos do antigo Stan, com sequências de erros não forçados no meio. Foram 41 ao todo, contra apenas duas quebras em onze chances. De Jong fechou em 3h04, no primeiro match-point.

Ainda em quadra, Wawrinka foi homenageado. Um vídeo com depoimentos de amigos foi exibido, a torcida ovacionou. Em entrevista coletiva, o suíço resumiu a sensação que o acompanha desde o início desta temporada de despedidas.


"Sempre me surpreendo ao receber tanto carinho, tanto apoio de outros jogadores, dos fãs e dos torneios em geral. Afinal, já estou há mais de 20 anos no circuito", comentou.

A reflexão veio em seguida, sobre a distância entre o sonho de garoto e o que de fato construiu na carreira.


"Quando jovem, meu sonho era ser tenista profissional, estar entre os 100 melhores, ter a oportunidade de jogar torneios assim. Mas nunca esperei alcançar tanto sucesso no tênis, embora também nunca tenha colocado limites para mim mesmo", avaliou.


"Entro em quadra buscando mais, tentando me superar e ultrapassar os meus próprios limites. Hoje foi muito duro. Nunca é fácil dizer adeus a algo que você ama tanto e ao qual dedicou toda a sua vida", prosseguiu.


Stan tem três Grand Slams no currículo, um troféu por superfície distinta: Aberto da Austrália em 2014, Roland Garros em 2015 e US Open em 2016. Ergueu 16 títulos no total, ganhou a Copa Davis pela Suíça e levou o ouro olímpico em duplas com Roger Federer nos Jogos de Pequim, em 2008. Roland Garros, no entanto, é outra coisa.


"Esse lugar está no topo, sem dúvida. Não apenas por 2015, mas porque foi o único Grand Slam juvenil que disputei e ganhei. Cresci assistindo Roland Garros", contou. "Sou da parte francesa da Suíça. O sonho naquela época era voltar da escola, ligar a televisão francesa e assistir tênis o dia inteiro. Cresci jogando no saibro. Até 2004, praticamente só disputava torneios nesse piso. Para mim, Roland Garros sempre será diferente dos outros torneios", declarou.


A final de 2015 contra Djokovic, e a amizade com Federer


Foi nesta quadra Philippe Chatrier que Wawrinka assinou um dos resultados mais inverossímeis da era moderna do tênis masculino. Em 2015, derrotou Novak Djokovic na final em quatro sets, com aquele backhand de uma mão que Federer apelidou de "Stanimal". Onze anos depois, o suíço admite que nunca conseguiu ver o jogo completo.


"Eu nunca assisti à final inteira, só alguns resumos para me sentir bem com o meu jogo. Às vezes, revejo para pensar que talvez pudesse voltar a fazer aquilo, mas infelizmente não é tão simples", reconheceu.


"Naquele momento, estava concentrado em tentar vencer o número 1 do mundo, provavelmente o melhor jogador da história, em uma final de Grand Slam em Roland Garros. Ao mesmo tempo, ao entrar em quadra, sabia que tinha tudo para vencê-lo, estava confiante", lembrou.


Esta foi a 21ª participação de Wawrinka na chave principal do Slam francês, onde também foi finalista em 2017, derrotado por Rafael Nadal. Em 2026, ele soma sete vitórias em 18 jogos no nível ATP. Sequer disputou a segunda rodada do ATP 250 de Genebra, na semana anterior, para se preservar para Paris.


Stan Wawrinka
Stan Wawrinka (Foto: Jean-Baptiste Autissier / FFT)

A relação com Federer atravessa tudo. Companheiro de equipe na conquista do ouro em Pequim e amigo de longa data, o ex-número 1 foi citado pelo conterrâneo com a habitual gratidão.


"Sempre fiz todo o possível na minha carreira para não ter arrependimentos, embora sempre exista algum. Quando cheguei ao circuito e Roger já estava lá, enxerguei isso como uma grande oportunidade", disse. "Pude compartilhar quadra, treinamentos, conhecimento e aprender com o melhor jogador. Graças a ele também tenho uma medalha de ouro olímpica. Sou uma pessoa muito positiva. Para mim, foi incrível passar 20 anos no circuito com Roger ali", elogiou.


Sobre o que vem depois do circuito, o suíço evitou cravar planos. "Existem algumas coisas que sei que vou fazer. Agora, quero terminar este ano da melhor maneira possível, focado até o fim da temporada", afirmou. "Depois desse ano vou tirar um tempo para refletir sobre esses 25 anos de carreira e entender esse capítulo da minha vida. Só então vou descobrir o que realmente quero fazer", concluiu Wawrinka. A despedida oficial do circuito está marcada para o ATP 500 da Basileia, em sua cidade natal.


Gael Monfils, e a quadra que nunca quis deixar de ver o show


Algumas horas depois, no centro do complexo, a noite na Philippe Chatrier pertencia a Monfils. Ex-número 6 do mundo, hoje 218º, o parisiense entrou com o público inteiro em pé e contra um compatriota, Hugo Gaston, que há meses não vencia uma partida em chave principal. Foi exatamente esse jogador, canhoto e de 1m73, que dominou Monfils nos dois primeiros sets, conquistando break no terceiro game da primeira parcial e no terceiro da segunda, fechando ambos com facilidade. O parisiense parecia querer perfeição demais.


Como costuma fazer quando o público pede, Monfils virou o jogo. Cresceu no terceiro set, abriu 4/0 e 5/1 no quarto e empatou a partida com uma das suas reações mais emocionantes em Roland Garros. Só que faltou energia. Após uma longa interrupção no fim da quarta parcial, Gaston voltou outro jogador. O francês de 39 anos ganhou apenas oito pontos no set decisivo, quatro deles no primeiro game de saque, quando teve uma chance de empatar em 1/1 e não converteu. Foram 12 aces, 58 erros não forçados e apenas cinco quebras em 17 oportunidades em 3h22 de jogo. Pela primeira vez, Monfils perdeu para um compatriota em Roland Garros, depois de sete vitórias.


Foi a derrota mais bonita possível. Na coletiva, o francês resumiu o que sentiu ao deixar a Chatrier pela última vez.


"Sinceramente, nem nos meus sonhos mais loucos eu imaginava algo assim. Foi excepcional. O que recebi nestes últimos dias ficará gravado para sempre no meu coração", afirmou Monfils.


Gael Monfils em Roland Garros
Gael Monfils (Foto: Loic Wacziak/FFT)

A própria entrada em quadra, segundo ele, já trazia o conflito.


"Quando entrei em quadra, tive uma sensação estranha. Eu me sentia bem, mas ao mesmo tempre mal. Toda a preparação foi diferente. Parecia que eu queria fazer tudo perfeito demais, e isso me deixou em uma posição delicada", explicou.


A cerimônia, Svitolina, a filha e os Mosqueteiros


O que veio depois da partida foi a despedida que o público francês ensaiava havia anos. Os pais, Sylvette e Rufin, foram chamados ao centro da quadra. Treinadores, dirigentes da Federação Francesa e o próprio Monfils tomaram o microfone.


"Boa noite a todos, chegamos lá. Muito obrigado, eu amo muito vocês", começou o parisiense. "A federação me recebeu muito cedo, aos 13 anos. Graças a vocês, pude aprender o tênis, viajar e conhecer o mundo. Nunca teria conseguido sem essa ajuda".

A homenagem aos treinadores trouxe o tom autocrítico que Monfils raramente abandona.


"Obrigado por terem me deixado cometer erros, fazer boas escolhas e tentar coisas novas todos os dias".


O momento mais emocionante foi a homenagem à esposa, a tenista ucraniana Elina Svitolina, que assistia das tribunas em lágrimas.


"Sem ela eu não estaria aqui esta noite. Estamos juntos há oito anos e ela sempre esteve presente em todos os momentos, me apoiando como homem, me ajudando nas dúvidas, me levantando e me amando. Eu te amo", disse.



A filha pequena do casal, segundo Monfils, ainda não compreende a dimensão do que viu.

"Ela não entende muita coisa, e isso é bonito. Ela sabe apenas que o papai e a mamãe jogam tênis", contou. Ele e Svitolina preferem, por enquanto, preservar a menina da rotina do circuito e guardar imagens da noite para mostrar quando crescer.


A organização exibiu um vídeo com mensagens dos rivais e amigos. Nadal abriu. "Parabéns pela incrível carreira que você teve, foi um prazer dividir todos esses anos com você. Eu me lembro da primeira vez que te vi, éramos crianças e tivemos duas longas carreiras de sucesso. Parabéns por tudo e espero continuar te vendo por aí", afirmou o espanhol.


Djokovic foi pelo lado humano. "Que carreira incrível, meu amigo! Um dos jogadores mais queridos e divertidos. Não tem ninguém que não goste de você, Gael. Acho que essa é sua maior vitória. Você sempre foi aquele cara que te cumprimenta com sorriso e respeita todo mundo, não só como jogador, mas como pessoa. Isso ficará para sempre".



Federer também participou. "Parabéns por sua incrível trajetória em Roland Garros, vivemos bons momentos dentro e fora das quadras. Você sempre foi um adversário difícil".

Alcaraz definiu Monfils como "uma inspiração, um grande atleta, e mais importante uma grande pessoa fora das quadras". Sinner foi pelo cotidiano. "Nós, jogadores, sentiremos muito a sua falta, especialmente fora das quadras e nos vestiários. Sentirei sua falta", disse o italiano. Amélie Mauresmo, ex-número 1 do mundo e diretora do torneio, completou: "Desejo o melhor no futuro, você fez coisas incríveis. Parabéns".


E houve a passagem do bastão. Arthur Fils, atual número 1 da França, falou da idolatria de infância. "Você era o meu ídolo de infância. Quando eu era mais novo assistia aos seus jogos e melhores momentos, com você saltando e deslizando na quadra. Desejo o melhor e boa sorte na sua futura carreira".


Wawrinka, que horas antes fazia sua própria despedida do saibro sagrado de Paris, também apareceu no vídeo. "Gael, meu amigo, esse é o nosso último Roland Garros. Você sempre foi muito divertido de assistir, não só como jogador, mas como fã de tênis que sou. Você trouxe muitas alegrias aos fãs", afirmou o suíço.


Gilles Simon, Gael Monfils, Jo-Wilfried Tsonga e Richard Gasquet (Foto: Jean-Charles Caslot/FFT)
Gilles Simon, Gael Monfils, Jo-Wilfried Tsonga e Richard Gasquet (Foto: Jean-Charles Caslot/FFT)

Mas o momento mais simbólico foi o reencontro com os Mosqueteiros. Richard Gasquet, Gilles Simon e Jo-Wilfried Tsonga, geração com a qual Monfils carregou o tênis francês por duas décadas, subiram à quadra.


"Esses três caras significam muito para mim. São meus irmãos de batalha, meus irmãos de vida. Nunca houve rivalidade entre nós, e isso foi um dos maiores presentes que o tênis me deu", disse Monfils. Gasquet respondeu na mesma chave: "Estou muito orgulhoso de ter passado toda minha carreira com você e poder te chamar de amigo". Tsonga sintetizou o legado: "Você inspirou muitas pessoas a jogar tênis".


Gael e Stan: Os números, o legado, o que resta

Monfils encerra Roland Garros com 19 participações e melhor campanha na semifinal de 2008, perdida para Federer. Foi às quartas em 2009, 2011 e 2014, alcançou outra semifinal em Slam no US Open de 2016 e construiu uma carreira de 13 títulos, 22 vices, mais de 900 partidas oficiais e 22 anos de circuito. Contusões no pé, joelho e punho atrasaram o que poderia ter sido um currículo ainda mais extenso. Sobra o jogador que transformou cada quadra em palco e cada deslizada em coreografia.



Wawrinka deixa Paris com 21 participações e o título de 2015 como ponto mais alto. Três Grand Slams ganhos contra Nadal, Djokovic e Djokovic, em campanhas em que ele eliminou, em cada uma, ao menos um dos integrantes da geração mais vencedora da história. Foi número 3 do mundo, ganhou Copa Davis, ouro olímpico em duplas. E construiu, com o backhand de uma mão mais imponente da era moderna, um dos legados técnicos mais influentes do circuito.



A despedida oficial dos dois ainda não terminou. Monfils encerra a temporada no Masters 1000 de Paris, em outubro, no mesmo estádio em que sempre jogou para casa. Wawrinka prepara o adeus final na Basileia, sua cidade. Mas o capítulo Roland Garros, dos dois, terminou nesta segunda-feira.


"Apesar das homenagens, ainda não penso em aposentadoria imediata", disse Monfils. "Meu desejo é ser um dos esportistas que competem até os 40 anos, como Stan, LeBron James, Cristiano Ronaldo e Ibrahimovic".


Sobre um eventual convite para Wimbledon, foi sincero: "É uma ótima pergunta, porque o meu agente quer que eu jogue todos os torneios. Ele vai pedir o convite, mas sei que há muitos candidatos, que talvez mereçam até mais do que eu. Então vamos esperar".


Paris perdeu, no mesmo dia, dois artistas que jamais foram somente números no ranking. Stan e Gael saíram da Philippe Chatrier e da Simonne Mathieu da forma como sempre jogaram: até o último ponto, com o público de pé, e sem o roteiro estragar a despedida.

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